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18 anos depois, continua a ser caso único

Atelier de Conservação do Azulejo (ACRA) é um exemplo

 

É uma das primeiras impressões do visitante que chega a Ovar: As casas do núcleo histórico estão decoradas com azulejos. Expostos, na via pública, aos olhos e ao sol, à chuva, ao vento, à maresia. A palavra de ordem passou a ser conhecer e preservar. E o azulejo está à espera de ser investigado e descoberto, no desenho, na argamassa, no vidrado, no autor, na cozedura.

Este é um trabalho para o Atelier de Conservação do Azulejo (ACRA), cuja coordenadora Isabel Ferreira, se assemelha a uma “detective” que passa a vida a investigar (às vezes com lupa, sim) esses pedaços de história (alguns têm séculos) que cobrem quase 800 fachadas da urbe vareira.

Uma tarefa hercúlea, mas que abraçou com empenho e saber. A “Cidade-Museu do Azulejo em Portugal” tem a “vantagem de ter uma escala pequena, pois basta percorrer meia dúzia de ruas para ver uma grande
variedade de produções, técnicas e materiais, utilizadas nos séculos XIX e XX, de azulejos, balustres, pinhas, estatuária e até de diversidade de estilos, art déco, arte nova, e de fábricas do norte e centro do país, o que é muito interessante”, explica Isabel Ferreira.

Essa mesma escala, por outro lado, estimula o carinho que os munícipes devotam ao azulejo, “o que nos permite fazer muito mais por este património”. Não pode daqui dissociar-se a existência do gabinete e as imensas actividades de informação e sensibilização promovidas, no sentido de mostrar como era pintado o azulejo e até de saber como era moldado o barro.

“Falar só não chega, as pessoas não se apercebem, mas se as deixarmos meter a mão na massa ficam com uma visão completamente diferente”, reconhece. O ACRA tem duas vertentes de actuação: A recuperação de edifíciospropriamente dita e a vertente de divulgação e sensibilização, designada lúdico-pedagógica, que “decorrem em paralelo”. Neste momento, “estamos a acompanhar 18 edifícios”, contabiliza a técnica.
Dentro da recuperação, o ACRA distingue dois tipos de acções: O de conservação e restauro e outro no âmbito do programa de apoio à recuperação de fachadas do Município, que inclui apoio financeiro na recuperação de outros elementos deste tipo de edifícios. “E, neste caso, não nos referimos só aos que têm azulejos na sua fachada, mas também àqueles tradicionais e históricos que dispõem de elementos com valor patrimonial para o Município”.

Isabel Ferreira vinca que “quando falamos de uma cidade museu do azulejo, falamos de núcleo histórico e, para nós, interessava evitar a descaracterização destes edifícios, por exemplo, a nível da caixilharia, que estava a acontecer muitas vezes, e uma forma de travar esse fenómeno foi apoiar financeiramente, não só o azulejo, mas também os outros elementos que caracterizam este património que é integrado”.

A Divisão do Património Histórico, em conjunto com o pelouro do urbanismo da Câmara Municipal de Ovar, lançou o programa de Apoio à Recuperação de Fachadas do Centro Histórico de Ovar (RARFCHO), que apoia até cinco mil euros, só na fachada, em todos os outros materiais, que “serve de incentivo e, para nós, Câmara, tem a vantagem de possibilitar a monitorização das diferentes soluções”. Ou seja, “todas as especialidades que são contratadas pelo proprietário para realizar essa intervenção, ao nível da caixilharia, por exemplo, deve ser feita em colaboração connosco, o que permite uma sensibilização efectiva junto delas e ainda criar uma bolsa de contactos, de diferentes especialistas em caixilharias de madeira ou alumínio lacado, serralheiros, construtores civis, até de empresas de conservação e restauro, etc”.

Todo este conhecimento está prestes a ser vertido num manual de boa práticas para ser disponibilizado a quem o procurar. Não há segredos e o conhecimento é para ser partilhado. “Para as pessoas entenderem e visualizarem o porquê deste apoio para preservar o núcleo histórico e o azulejo que caracterizam e diferenciam esta cidade”. “São empresas locais, e estamos a dar-lhes formação que sabem o que queremos e vão ajudar os proprietários a preços ajustados, sem encarecer por terem de respeitar um modelo”, adianta a técnica. Simultaneamente, continua, “controlamos e orientamos as empresas da forma como queremos os acabamentos, os perfis, os modelos e as cores, e que financiamos”.

No fundo, estas empresas estão a especializar-se e a apostar na verdadeira reabilitação. Este é um tema caro à técnica do ACRA. “Fala -se muito disso, mas subsiste muita confusão entre reabilitação, recuperação e o respeito pelos materiais tradicionais, o que se está perder e nós estamos a ajudar a formar nesta área e na verdadeira reabilitação do património tradicionais que não é só de Ovar, é português”.

Exemplo nacional
Ovar tem sido um exemplo a nível nacional neste tipo de política de salvaguarda das fachadas azulejadas do século XIX e “ser modelo para outras cidades é muito importante para nós”. O que está a acontecer é a delapidação do património azulejar em cidades como Lisboa e Porto. A lei diz que os proprietários não podem retirar os azulejos sem que tal seja devidamente justificado. Os Municípios depararam-se com este problema: o que é e o que não é importante preservar? “Nós participamos no estudo da regulamentação a convite do grupo das operações urbanísticas da região metropolitana do Porto”.

Neste momento, o ACRA tem 800 casas identificadas, tendo efectivado recuperação em 250. “Temos, neste momento, 4 nas quais estamos a restaurar fachadas azulejares e 18 que estamos a acompanhar no âmbito do referido programa das fachadas. Todas num núcleo que nos interessa preservar”, revela Isabel Ferreira.

“Convém dizer que não fomos nós que dissemos que estes edifícios são património arquitectónico”, ressalva a coordenadora do atelier. “Este levantamento, realizado em 2011, foi realizado por uma equipa de especialistas na matéria, contratada por nós e que nos disse qual a diferença entre este património e o restante do país”. A partir daqui, continua, “pudemos dar informação do valor deste património mas não ficamos por aqui, pois também apoiamos financeiramente porque estas obras são realizadas e apoiadas quase a 100 por cento. Se olharmos para outras cidades, isso não acontece”.

Ao fim de tantos anos, o ACRA continua a ser caso único (ao fim de 18 anos) em Portugal. Mais nenhum Município possui um serviço com estas características. “Já lançamos um livro para ajudar mas ainda mais ninguém teve essa coragem”, constata, não escondendo um certo orgulho quando diz que “várias câmaras nos ligam a pedir ajuda, pensam até que somos uma empresa privada, mas desconhecem que é municipal”.

O ACRA vai ainda mais longe ao estabelecer uma parceria com o LNEC (Laboratório Nacional de Engenharia Civil) para um projecto de investigação com a Universidade de Aveiro que investiga as argamassas dos azulejos presentes nos edifícios vareiros. “Com base nessa investigação, foi possível sugerir a comercialização de uma argamassa que fosse o mais adequada possível para a recuperação deste tipo de edifícios”. “E isso resultou muito bem”, reconhece Isabel Ferreira, “pois deu origem a uma spin-off que pegou nesse conhecimento e nesses resultados e neste momento, é essa empresa (DDL) que nos fornece a argamassa e a vende aos proprietários que precisam, a preços ajustados ao mercado”. Segundo a técnica, “são argamassas que têm as componentes todas e que nos descansam, pois podem ser utilizadas em vários campos da reabilitação que não só o azulejo”.

O ACRA prepara-se para avançar com uma nova investigação sobre os produtos usados na pintura a frio destes revestimentos. “Verificamos que os produtos de restauro existentes no mercado são vocacionados para produtos museológicos, faltando soluções para casos de revestimento com exposição solar extrema, poluição, humidade, etc”. O trabalho do ACRA permite ter casos de estudo que ajudam a perceber o que correu bem e mal. “Uma coisa é fazer ensaios em laboratório e outra é estar no terreno e isso vai ser muito interessante”, espera Isabel Ferreira.

Resistências e casos difíceis

Mas há resistências a este esforço posto na recuperação das fachadas azulejadas de Ovar. “Há uma em particular que encalhou e interessa resolver, até porque se situa na Praça da República”, admite Isabel Ferreira. “Encalhou por falta de informação e confusão da proprietária, porque nós estamos sempre disponíveis e o nosso objectivo é recuperar este património mas para isso temos de ter a colaboração dos proprietários, porque não somos donos destes edifícios”. “Esse é um dos casos que mais acompanhamos desde 2005 e que encalhou por confusão da proprietária”.

Há também o caso dos azulejos da estação da CP de Ovar, que parece não ter solução a vista após várias intervenções. “A ideia ali foi tapar o buracos existentes e não substituir os originais, mas essa intervenção também veio demonstrar que os produtos utilizados não foram os mais adequados, porque o trabalho feito descolorou”, revela a técnica.

Para efeitos do projecto de investigação do ACRA, foi realizado um levantamento de todos os materiais que foram usados para estudar em laboratório e procurar um que tenha uma maior durabilidade. “Sabemos que os materiais dos azulejos originais eram bastante duráveis, tendo chegado até nós em excelente condição, mas a verdade é que nós, restauradores e conservadores, não podemos pegar num azulejo de uma casa e metê-lo ao forno novamente, pois vai alterar as suas características originais”. Todas as alterações têm que ser feitas a frio, utilizando produtos que tenham a maior durabilidade possível”. Isabel Ferreira diz que “é da nossa responsabilidade informar sobre esta questão, porque as pessoas não sabem os princípios éticos rígidos
pelos quais nos regemos”.

Fotos: Ricardo Carvalhal

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