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Casa da Guarda Florestal de Esmoriz pode albergar centro interpretativo da camarinha

Investigadores apostados na preservação da camarinha gostariam de criar um centro interpretativo da camarinha na antiga casa da Guarda Florestal de Esmoriz.

“Se nos cedessem a casa, que está ao abandono e fica mesmo ao lado do Parque Ambiental do Buçaquinho, gostávamos de lá criar um centro interpretativo, com actividades para as escolas, projectos de controlo de invasoras e meios para tentar obter um estatuto de protecção para a espécie”, revela Margarida Coelho, do colectivo “The Camarinha Project” que promoveu, no sábado, duas conferências e uma visita de campo sobre essa planta, que dizem merecer estatuto de protecção por ser exclusiva da Península ibérica e benéfica a tratar cancro intestinal.

A ambição do “The Camarinha Project” depende da sensibilidade do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas.

O coletivo “The Camarinha Project” surgiu em 2018, por iniciativa de dois engenheiros ambientais e de uma bióloga e médica, envolvendo agora parcerias com investigadores da Universidade de Coimbra, docentes do ensino obrigatório, autarcas e, entre outros profissionais e curiosos, também cidadãos espanhóis que vêm ajudando ao mapeamento da espécie na Galiza.

“No fundo, começámos este trabalho porque tínhamos todos boas memórias de infância sobre as camarinhas, que apanhávamos na praia para comer quando éramos crianças, e que entretanto foram desaparecendo, muito por influência de espécies invasoras com que as entidades responsáveis [pelo ordenamento florestal] não estão a lidar devidamente”, explicou à Lusa a bióloga e médica Margarida Coelho.

Abrangendo arbustos masculinos polinizadores e arbúsculos femininos que geram as pequenas bagas comestíveis de cor branca, formato esférico, alto conteúdo nutricional e propriedades antioxidantes, a camarinheira – de nome científico “Corema album” – pertence à família das Ericáceas e só está identificada em terrenos com elevada concentração de areias, próximos do mar e expostos ao sol.

Florindo de março a maio e gerando fruto de julho a setembro, a espécie distribui-se apenas pela costa atlântica de Portugal e Espanha. Está também identificada no arquipélago dos Açores, mas aí na versão ‘Corema album azoricum’, enquanto na Finlândia e no Leste dos Estados Unidos da América também é observável a ‘Corema conradi’, de bagas roxas.

As mais antigas referências históricas à planta atribuem-lhe fins medicinas pelas suas propriedades antipiréticas, vermífugas e de combate ao escorbuto. Já na actualidade, grupos internacionais e investigadoras como Alda Moreira Silva e Maria João Barroca, da Universidade de Coimbra, vêm reunindo evidências de que os extractos de folhas da camarinheira têm um efeito antiproliferativo sobre as células cancerígenas do cancro do cólon.

Essas duas investigadoras de Coimbra dirigiram, aliás, a primeira conferência de sábado no Parque Ambiental do Buçaquinho, onde analisaram o teor químico das camarinhas e o seu potencial gastronómico enquanto espécie que, a conseguir produzir-se de forma massiva, teria grande procura como fruto, como ingrediente de infusões e como elemento decorativo em pastelaria, dada a sua aparência de pérolas.

Para Sílvia Rocha, cofundadora do coletivo “The Camarinha Project”, o problema é que “a espécie está a registar uma diminuição drástica” no território português, o que se deve “ao desconhecimento sobre as suas qualidades e à crescente disseminação de espécies invasoras” como as acácias.

Essa engenheira ambiental explica: as entidades envolvidas na limpeza e no ordenamento florestal “não percebem a diferença entre as camarinheiras e os outros arbustos, cortam tudo a eito e isso faz desaparecer as camarinhas enquanto dá mais vigor às acácias, que, quanto mais se cortam, mais fortes ficam” – subtraindo alimento às plantas da envolvente e largando sementes que continuarão a germinar por 50 anos.

Para alertar a população sobre todas estas questões e sensibilizar as gerações mais novas para uma espécie “que os jovens desconhecem”, o colectivo pretende gravar um documentário sobre o impacto das camarinhas na memória e tradição da comunidade litoral, “preservando esses testemunhos para o futuro”.

 

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