Opinião

52 Graus de Álcool e -14 de Temperatura – Rosendo Costa

 

Quem vem à China cedo se apercebe nos restaurantes e tascos que os chineses brindam e “mandam abaixo” em pequenos copos uma bebida transparente e cristalina como a água enquanto comem uns com os outros. Na verdade, de água não tem nada! Esta bebida cuja
aparência engana é um poderoso veneno com graduação entre 39 % e 52 % de álcool e só para homens! Não admira que os decibéis da voz e das gargalhadas aumentem à medida que os 52% graus desta bebida venenosa chegam ao cérebro.

Normalmente nós bebemos bebidas tal teor de álcool numa noite de copos, bar, disco ou como digestivo após nos empanturrarmos de comida, mas os chineses, como sempre, são diferentes!
Bebem durante as refeições, brindam a todo o tempo antes de beber e há que respeitar a etiqueta.
Já vi chineses a cair para o lado e em coma depois de jantares de amigos à custa deste veneno
que se chama “baijiu” (literalmente significa “vinho branco” – ao nosso vinho branco chamam
“bai putao jiu” ou literalmente “vinho de uvas brancas”).
Já se imaginaram a beber bagaço à medida que comem um cozido à portuguesa ou umas tripas à
moda do Porto? Seria para chamar o “S. Gregório”!
Tradicionalmente, os ibéricos acham-se grandes machos do álcool, orgulham-se de conseguir
aguentar muito álcool e muitos “chimpões”, mas acreditem não tentem competir com chineses
ou coreanos a beber.

Os coreanos são bem piores, há uma cultura de álcool fortemente
enraizada na Coreia do Sul, é comum ver homens a dormir sobre vomitado nos jardins e até
existe um serviço de motorista para ir buscar os “bon vivants” aos bares e karaokes, levá-los a
casa e deitá-los na cama.
Na Ásia, há etiquetas diferentes à mesa. Por exemplo, tanto na China como Japão é comum ouvir
as pessoas a fazer barulho de “server” enquanto comem noodles ou arrotar o que em Portugal
seria indelicado e uma falta de educação, mas há outros detalhes a que é preciso prestar
atenção.

Quando se brinda com alguém se a outra pessoa for mais velha que nós ou em termos
profissionais estiver hierarquicamente acima de nós, nunca devemos elevar o nosso copo acima
do dessa pessoa durante o brinde, nem devemos beber sem brindar primeiro. Deve-se servir
sempre os outros copos quando queremos servir o nosso e servir o nosso sempre por último.
Não é muito comum beber-se vinho tinto com chineses às refeições seja uma refeição casual ou
de negócios e quando aparece uma garrafa de vinho na mesa é porque os chineses sabem que
estão a comer com um ocidental e querem respeitar essa diferença cultural (ou introduzi-lo ao
“baijiu”).

Bebe-se quase sempre chá, cerveja e o “baijiu”.
A cultura do chá também é muito forte por cá mas ficará para outra altura!

O “baijiu” na verdade é um termo generalista para designar uma categoria abrangente de cerca
de doze sub-tipos de bebidas.
O mais comum em Pequim e fortemente ligado à História, cultura e classe trabalhadora da
capital chinesa é o “er guo tou”, uma bebida alcoólica destilada duas vezes, feita de sorgo e
amplamente consumida na capital, com uma gradação até 52%.
As marcas mais famosas são o “Hong Xing” (“Estrela Vermelha” ) e o “Niulan Shan” (“Montanha da Quinta da Vaca”), bastante famosas entre o colarinho azul de Pequim.
De sabores completamente distintos, o “Hong Xing” assemelha-se ao nosso bagaço e o “Niulan
Shan” tem um sabor menos adocicado e mais seco. Não sou consumidor habitual de “baijiu”, só
excepcionalmente em jantares de negócios com parceiros, clientes ou família da namorada, mas
dois copos pequenos chegam para ficar com ardor e começar a desabotoar a camisa – ao que se
costuma seguir uma bela sesta, se for depois do almoço.
Mas o “er guo tou” não é a bebida alcoólica chinesa mais conhecida, sendo apenas um tipo de
“baijiu” consumido no nordeste da China. O mais famoso e que ficou conhecido após uma
medalha de ouro em 1915 chama-se “Moutai”.

O “Moutai” originário da província do centro-sul da China chamada Guizhou é um tipo de
“baijiu” feito a partir de sorgo e trigo com um processo de fermentação e destilação particulares.
Com 400 anos de história a patente deste tipo de bebida pertence a uma companhia estatal
chinesa que detém o monopólio da sua produção o que ajudou a determinar o seu alto preço de
100 Euros por garrafa e as tentativas de falsificação da marca. Não é uma bebida que se possa
comprar à confiança em qualquer sítio dando 100 Euros de mão beijada porque há o receio de
ser falsificada.
Nesta altura do ano, as empresas produtoras de “baijiu” não têm mãos a medir. Com o festivo
ano novo chinês é a altura do ano em que mais publicidade e compras deste produto há e aqui
pelo Norte com menos 14 graus de temperatura média durante o dia, só mesmo com algo quentinho com 52% para aquecer…

Rosendo Costa
Um Vareiro em Pequim

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