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Carlos Nuno Granja: “Escrever sempre foi um sonho”

O escritor vareiro, Carlos Nuno Granja, lançou quatro obras só este ano. Acabado de apresentar “Rima, rimão, rimonada”, em entrevista ao OvarNews, diz que balança entre a poesia e a escrita para crianças, antes de se aventurar no romance

Como está a ser a receptividade ao seu último livro?
O livro mais recente, “Rima, rimão, rimonada” vai entrar agora em distribuição. O anterior, mas também muito recente, “O Rei Belarmino não é tenor” está a ter bastante aceitação entre os pequenos leitores, bem como nas livrarias e escolas. O livro foi bastante requisitado na distribuição, o que demonstra o interesse que tem gerado. Para além disso, nas grandes superfícies livreiras (Fnac, Bertrand e El Corte Inglés) entrou directamente para os destaques, pelo que tem ajudado bastante a sua promoção. Contudo, pelos dados que tenho da Fnac, parecem-me números bastante animadores e que vão superar o sucesso de “A zanga das letras comadres”.

Quantos livros lançou este ano?  
Este ano lancei os livros infantis “O cágado sonhador que queria ser aviador” com a ilustradora ovarense Sara Alves, ” O Rei Belarmino não é tenor”, com ilustrações de um grande ilustrador português que se chama Sebastião Peixoto e ” Rima, rimão, rimonada”. Na área da poesia lancei “Chegaste primeiro”. Foram quatro livros portanto. Na carreira tenho 13 publicações efectuadas.

Como explica tanta produtividade?
A produtividade depende sempre de alguma disciplina, da vontade de escrever, de inventar histórias, de contar uma ideia e desenvolvê-la. De certa maneira, é a escapatória perfeita das rotinas diárias. Nem sempre me é possível por força das minhas actividades paralelas, da vida profissional e da vida familiar, mas regresso sempre para sobreviver. É o mesmo que com a leitura. Preciso de acalmar os pensamentos e é dessa forma que o consigo. Hoje posso afirmar que tudo o que estou a publicar já é muito mais recente e fruto de novas ideias. É assim que me tenho sentido bem. Em breve publicarei a minha prosa e será visível verificar esse turbilhão de ideias a soltarem-se para o papel.

É fácil conjugar a sua vida profissional com a escrita?
Não posso negar essa dificuldade. Escrever exige uma paz interior, um sossego mental e um recato (recanto também) diário. Um dia ou dois de distância para uma história criam uma barreira que pode influenciar o andamento da escrita. Mas com disciplina e vontade é possível superar. Ao mesmo tempo torna-se um desafio gratificante e chegar ao final, com o livro na mão, sinto-me feliz e com o sentimento de missão cumprida. Mas claro que não é nada fácil.

E a inspiração? De onde vem?
A inspiração vem de muitas leituras, declaradamente. Quanto mais histórias leio, quanto mais eu escrevo, mais vontade tenho de inventar, de dar tons às paisagens e características aos personagens. Nas histórias infantis pode ser uma palavra ou uma frase de um aluno ou das minhas filhas a desenvolver uma ideia. No poema depende muito dos estados de espírito. Quando estou triste sai melancolia e saudade, bem como outros sentimentos. Mas se estou contente, escrevo poemas para a infância e brinco com as palavras. Escrever romance exige uma aproximação diária à história e quanto mais se escreve maior é a vontade de prosseguir. Mas é preciso parar e voltar atrás, daí que queira sustentar a história antes de me aventurar a publicar este estilo. Em suma, a inspiração depende muito das vivências, da imaginação, das leituras, mas é muito feita de suor.

Escrever para crianças é muito difícil?
Há romancistas que assumem essa dificuldade. Eu não posso afirmar que o é para mim porque não o sinto. A dificuldade está sempre no vocabulário a usar, no chegar ao que elas gostam, no entretenimento que a história deve absorver e na mensagem que lhe pode estar adjacente. Não procuro nunca ensinar o que quer que seja. As crianças procuram os livros porque gostam daquele objecto, o livro. Estão formatadas para a leitura como algo que as vai relaxar. Na minha opinião, tentar ensinar algo será sempre uma tarefa árdua, pois o cérebro irá captar apenas por motivação. Se isso acontecer, tanto melhor, mas não é essa a função desta leitura. Pode sim, desenvolver o gosto pela escrita, aí assume claramente um papel essencial.

É mais do que para adultos, dizem…
Poderá ser mais difícil por via do tipo de escrita exigido e porque não é fácil baixar ao nível da leitura que a criança faz. Escrever para adultos obedece apenas à boa forma de escrever. No restante o escritor incute o seu cunho pessoal e vai por aí fora. Escrever para crianças é exigente por isso mesmo, é preciso ter piada sem ser engraçadinho, nem tentanto infantilizar ainda mais o texto.

Como é que se tornou escritor?
Escrevo poesia desde os meus nove anos. Sempre foi um sonho. O objecto livro, escrito por mim. Não podia faltar a este compromisso comigo mesmo. Esperei o tempo que achei por bem esperar. Sempre me disse que teria de ter a certeza que o primeiro livro, ou outros posteriores, seria um produto interessante de se colocar nas mãos de um leitor. Felizmente resultou e tive boas considerações aos meus primeiros livros, pelo que dei por mim num caminho sem paragem. Mas levei isso mesmo a sério de tal forma que iniciei as publicações aos 36 anos.Olhando para trás, fazia exactamente da mesma forma. Mas não é condição para outros escritores, claro. Mas muito do que tenho para trás já não era passível de vir em livro. Há uma maturidade que se ganha e nos faz ser mais selectivos.

Tem muitos projectos na cabeça?
Imensos. Não tenho tempo para os eregir a todos. É pena. Vou indo com calma e acalmando esta impulsividade. Não é hoje, é amanhã.

Quer falar sobre algum deles?
Tenho uma série que estou a escrever de literatura juvenil. Tenho o ilustrador a postos e à espera do texto. O tempo não tem sido bom conselheiro, mas vai seguir este ano. Para este ano tenho também um belíssimo projecto sobre Ovar, em literatura para a infância, que está a ser um excelente desafio. E vamos ver se finalmente vem o romance.

Os leitores pedem histórias ou temas? Já aconteceu um pedido transformar-se numa história ou num livro?
Os leitores pedem histórias, mas são muito profícuos nas sugestões. Já tive situações dessas. O pedido mais simples acaba em história. Não calhou acabar em livro, mas também pode acontecer.

Costuma mudar detalhes e textos depois de um livro estar escrito?
Sim, bastante. No momento da revisão detectamos pontas soltas e incongruências. A vantagem da revisão é mesmo essa, temos de ler variadas vezes. É um trabalho intenso e exaustivo, mas que nos ajuda a melhorar o texto e a torná-lo mais perfeito.

Pede palpites de outras pessoas antes de terminar um livro ou de o levar à editora?
Tenho três críticas poderosas em casa. E afianço que vestem o papel adequadamente sem contemplações.

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