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Cerco é “cruel” pelos amigos que se perdem e pela “pobreza” que se antecipa

Parte da população de Ovar está desanimada com o prolongamento do cerco sanitário local para contenção da covid-19, pela situação emocional “cruel”, que impede a despedida de amigos mortos, e pela paragem económica que antecipa “pobreza e fome”.

Natália Moreira é uma das munícipes que, nessa autarquia do distrito de Aveiro em estado de calamidade pública desde 17 de março, “estava acordada às quatro da manhã” a pensar nos efeitos da prorrogação da quarentena geográfica até 17 de abril, decretada esta madrugada em Diário da República.

Empregando três funcionárias num salão de cabeleireiro encerrado há semanas, embora apto a “atender clientes com as devidas condições de segurança”, a empresária já avançou para a suspensão temporária desses contratos de trabalho e prevê a perda de clientes que, dados os cortes salariais em curso, deixarão de frequentar o seu estabelecimento.

O desabafo sai-lhe sereno, mas num tom dolorido: “Caiu-me a ficha pela primeira vez quando liguei a uma amiga esta semana e ela me contou que o marido morreu. Já perdemos dois amigos e nem sabíamos. É uma coisa cruel, perder-se assim alguém e nem sequer lhe podermos fazer uma despedida. Mas o pior ainda está para vir. Aquilo que dizem por aí de que vai ficar tudo bem? É mentira, não vai nada! Vai ser uma desgraça, com muita pobreza e mais fome, e os que sobreviverem vão ter uma grande luta para se reerguerem”.

Rui Valente também não augura tempos fáceis e está ainda mais revoltado. É sócio-gerente da Extramidum, uma empresa de mobiliário e decoração em Esmoriz, e, além de adoptar o ‘lay-off’ para os seus dois funcionários efectivos, viu-se obrigado a dispensar um terceiro que estava ainda no período experimental.

“Não tinha outra hipótese, porque as lojas que fornecemos também estão fechadas e os cheques deixaram de cair. Mas acho isto do cerco ridículo. A câmara foi precipitada e o que se devia ter feito é impor medidas mais controladas nas empresas,”, defende.

Um dos aspectos que o empresário mais censura é o “absurdo de os sócios-gerentes não terem direito a ‘lay-off”, o que Natália Moreira também critica. Argumenta que “quem agora está a aplaudir o cerco sanitário, daqui a dois ou três meses vai acordar para a vida, ao ver as empresas de Ovar mandarem 10.000 trabalhadores para casa e instalar-se o caos geral, com salários cortados, desemprego e miséria”.

Rui conseguirá manter a empresa durante algum tempo porque sempre se acautelou com “uma certa almofada financeira” para fazer face a imprevistos, mas sabe que o mesmo não se aplica a quem tem “60 ou 70 empregados e paga rendas de 1.500 ou 2.000 euros por mês”. Suspender a cobrança de alugueres e outras medidas de adiamento também não são solução: “Não são justas para os proprietários que precisem das rendas para viver e só adiam o problema”.

Quem consegue encarar a situação com algum humor e o optimismo, mais para ajudar a levar os dias do que para iludir a realidade, é Vera Cardoso, que vive apenas com o marido e dois filhos, mas abre as portas também à irmã e ao cunhado, por todos residirem lado a lado, em duas casas geminadas que se servem de um terraço enorme para as crianças brincarem e os adultos apanharem ar fresco.

Enquanto Rui Valente diz que estar fechado em casa “é das piores sensações que se pode ter na vida”, por sentir falta das viagens constantes a Lisboa e das deslocações de negócios aos Açores e à Madeira, Vera conta que na primeira semana de isolamento quase não deu pelo tempo passar e só depois começou a preocupar-se mais, à medida que ia recebendo notícias da economia local.

“A nossa quarentena nem tem sido muito má, porque aproveitei para fazer uma revisão geral à casa e tenho sempre os miúdos para me entreter, ela com os trabalhos de casa de manhã, ele com jogos de tabuleiro, e, pelo meio, ainda os trabalhos manuais que a catequista tem enviado pela internet e umas bolachinhas caseiras que desaparecem num instante”, conta a residente de Arada, rindo-se dos ataques à dieta em período de quarentena.

Vera sente-se apreensiva, ainda assim, quanto aos efeitos da paragem económica a que o concelho está sujeito, sobretudo porque a produção da empresa onde trabalha, a Mazelpil, está dependente dos pedidos da Yazaki Saltano e essa unidade já se ressente da quebra de encomendas registada a nível mundial em todo o sector automóvel.

“Isso é o que me aflige mais, mas estou a tentar ver a coisa pelo lado positivo, até porque percebo esta questão do isolamento: a minha mãe é diabética, a minha sogra tem uma doença degenerativa e está muito débil, e, se alguém ficar infectado aqui em casa, pode ser muito mau”, explica.

Mudanças de hábitos vão-se assim aplicando a todos, numa postura partilhada em que o objectivo é “levar um dia de cada vez” e tentar superá-lo de forma mentalmente sã.

O Rui, por exemplo, perde alguma paciência com a esposa por a ver num regime de teletrabalho intenso relacionado com a protecção civil, mas procura compensá-la na cozinha ao assumir a confecção das refeições.

A Natália passou a fazer aulas de Pilates através da internet e reforçou as hostes locais de adeptos da lida doméstica, o que a leva a acreditar que, embora sem visitas, “as casas de Ovar por estes dias estão todas a brilhar”.

Vera começou hoje a aventurar-se na criação de uma horta doméstica, mas já faz planos para um bolo de chocolate económico e sem ovos que não deverá durar mais do que dois dias em casa. “Por este andar, vamos todos chegar ao fim do cerco a rebolar”, diz entre gargalhadas, “mas de certeza que há coisa piores do que isso”.

Texto: Alexandra Couto / Lusa via Notícias ao Minuto

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