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Chuva não ensombra Festival Internacional de Marionetas

Talvez porque a chuva que caiu de manhã assim o aconselhasse, boa parte do público foi chegando com antecedência ao espectáculo de abertura do penúltimo dia do Festival Internacional de Marionetas de Ovar (FIMO), que está a decorrer em vários espaços públicos da cidade.

Eram apenas 15h30 quando a organização transferiu a programação para o Mercado Municipal, mas já era sabido, com vários dias de antecedência, que este era o ‘Plano B’ se as nuvens aparecessem. Por isso, ao ritmo da água que caía do céu, as famílias foram fazendo o itinerário até ao mercado. Muitas traziam crianças pelos braços ou ao colo. E logo se acomodavam nos bancos brancos que não faltaram e nos estofos dispostos em forma de meia lua, à frente dos artistas húngaros, franceses, espanhóis ou chilenos e seus preciosos bonecos e instrumentos.

Não, aquela ainda não era a apresentação do “TitiriBeatles Cabaret”, da companhia espanhola Periplo. Esta só começaria mais tarde, como estava previsto no programa que, apesar da chuva, foi cumprido. Na verdade, tratava-se de uma incursão da companhia vareira de teatro Contacto pelas marionetas.

Como que por instinto, os miúdos apercebiam-se que algo estava a acontecer e simplesmente sentavam-se onde poucas horas antes havia vendedoras de legumes e frutas. Dando razão a quem defendia, na altura da remodelação, que o espaço podia ser um ponto de encontro cultural.

Chove muito quando o Bigolies Teatre entra em cena a pedalar, causando sensação. O seu piano colorido atrai os olhares quando se transforma num teatro de marionetas. São as aventuras de “Pete and Pat”. De dentro do “pianopupp” começaram a sair personagens tão imprevistas como a própria peça. Uma marioneta articulada com pedaços de peluche e ainda um boneco com orelhas pontudas e olhos amendoados.

Tudo inerte, sem vida, até ao momento do toque delicado dos artistas. Como o Mikropodium, da Hungria. Aquelas figuras de madeira e fios ganham brilho e vida, como se algum nutriente poderoso as alimentasse através dos fios de plástico.

E que dizer da atrevida Sophia, do Teatrapo, do Chile? Conquistou toda a gente em Ovar. Apaixonou-se a apaixonou em cada um dos espectáculos. Francisco Obregon disses-nos que a Sophia queria ficar em Ovar, “porque foram todos muito simpáticos com ela. Eu também fiquei muito feliz por ter sido convidado para vir a Ovar. O público é maravilhoso”.

Sensação é também o termo certo para descrever o impacto causado pelos franceses do Theatre du Rugissant que se instalou na entrada do estacionamento da Biblioteca. Lá dentro, ofereceu-se um espectáculo intimista e familiar, por Arnaud Vidal na manipulação e Natacha Muet nas canções, assistidos pelo casal de filhos.

A companhia que se apresentou no FIMO veio dos Pirinéus franceses, munida de uma “carruagem mágica” de onde saíram bonecos sofisticados.

Paula Sousa, de 36 anos, trouxe os dois filhos: a Carla, de cinco anos, e o Filipe, de seis. Filipe não sabia dizer exactamente o que gostou mais, mas contou que havia adivinhado “que as marionetas só conseguem andar porque têm um imã nas mãos de madeira”. Sorriu, com a boca sem alguns dentes de leite, e respondeu que não consegue deixar de prestar atenção nos manipuladores que estão atrás dos bonecos. Menos científico que Filipe, Carla afirmou que se concentra apenas nos bonecos. Tenta entrar na história que está a ser narrada, embora não tenha muita paciência para fazer teatrinhos em casa. “A minha avó trouxe de Praga uma marioneta para mim, que é uma bailarina. Mas eu não gosto de brincar com ela”, disse, ao lado da mãe.

Perto dela, mais tímida, a Inês baixava a cabeça quando lhe perguntámos sobre os espectáculos, deixando à mostra apenas os cabelos louros muito cacheados. Mas quando ouviu a Carla dizer que tinha uma marioneta, puxou a camisola do pai, para sinalizar que também ela tinha desses bonecos em casa. E que, ao contrário da colega, brincava com eles. “Tenho um Pinóquio e um palhaço, que só são marionetas porque têm fios presos”, disse a menina de fato de treino azul escuro.

Pois é quase sem palavras que decorrem as sessões, apenas com doses de expressividade humana dissolvida em fios e pedaços de madeira esculpida.  E, mesmo com o Inverno a fazer uma visita, a encenação das lendas que os bonecos criam, povoadas de entes imaginários, foi mais uma vez capaz de vencer a “melancolia” da chuva.

O certame continua e encerra esta noite domingo. (Fotos: Luís Filipe Silva/UFO)

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