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Conjunto escultórico ganha forma em quatro velhos cedros

O dia 19 de Janeiro de 2013 foi medonho. Dos quatro Cedros centenários que se impunham no adro de entrada do cemitério de Ovar, nas traseiras da Igreja Matriz, os do lado esquerdo partiram por cima e os do lado direito inclinaram-se devido ao vento ciclónico que soprou.

Nessa manhã de temporal, Marcos Muge deslocou-se de Aveiro para Ovar e foi directamente à Igreja Matriz porque “ainda estava a trabalhar na conservação e restauro da tribuna do Senhor dos Passos, dentro da Capela do Pretório, no interior da Igreja Matriz”, recorda. Tendo observado, nessa manhã, a enorme devastação de árvores tombadas e partidas espalhadas até à porta do cemitério Municipal, quando “olhei para o estado em que estavam os cedros, tive a visão do que havia de vir a ser”, recordou o artista.

Nesse dia e nos dias seguintes, tudo fez com a Paróquia e a Câmara Municipal de Ovar para impedir o corte das centenárias árvores.  Depois de terminar a intervenção de Conservação e Restauro do que estava a fazer na Igreja Matriz, em 21 de Agosto de 2013, iniciou então o trabalho de escultura na primeira árvore, por iniciativa pessoal sem ter informado ninguém.

Alguns dias depois começou a ter a visita de amigos, entre os quais, de Joaquim Barbosa, que dias depois acompanharia Salvador Malheiro ao local para ver a obra a ser executada. na altura, o candidato a presidente da Câmara Municipal de Ovar gostou do que viu e prometeu que se ganhasse as eleições daria todo o apoio para a concretização da obra, por se tratar de um projecto original, em árvores plantadas e que cresceram em Ovar, elaborado por um artista de Ovar.

Marcos Muge chama a atenção que o cemitério municipal de Ovar é de 1836, mas os muros e portão foram-no em 1860 e as árvores foram plantadas nessa altura. “Os cedros simbolizam a força e a imortalidade, daí terem sido escolhidos para este local”, explica. “É muito bonito e muito resistente”, acrescenta.
Do conjunto que inclui 4 esculturas de grandes dimensões onde antes eram quatro frondosas árvores, a primeira obra a ficar concluída foi, ainda em 2013, “As Mãos de Deus e os 10 Mandamentos Revelados a Moisés”.

Quem está de frente para a entrada do cemitério, do lado esquerdo encontra duas áArvores que vão simbolizar o Antigo Testamento: A que está pronta e uma outra na qual Marcos Muge está a esculpir “A Missão e vida do Profeta Elias”. Ainda não dá para vislumbrar o que vai ser, mas o escultor ovarense explica: “A mão do Profeta Elias está a ser alimentada por um corvo, bem como outras referências alusivas ao seu legado na História, descritas na Biblia”. Por trás, como cenário, o escultor que também é ceramista, já concluiu e aplicou um dos paineis de azulejo nas laterais do portão principal do cemitério municipal de Ovar.

Deste lado, está o Anjo do Espírito Santo e a inscrição em latim “Effundam de spiritu meo super omnem carnem (Atos 2,17)”, cuja tradução é “Derramarei o meu Espírito sobre toda a carne viva (Atos 2,17)”.
marcos mugeDo lado direito da mesma entrada, temos mais duas árvores que darão forma a duas obras relacionadas com o Novo Testamento. “Na primeira, vai ficar a Mão do Menino de Jesus segurando uma vela, ou seja, ele é a luz do mundo, e na quarta árvore vou esculpir a Mão Ressurreição e a crucificação”. Ou seja, “Jesus nasce e morre aos 33 anos e ressuscita e esta árvore de Cedro vai simbolizar a sua vitória sobre a morte”, esclarece.  O outro painel de azulejos que está do lado direito é o Anjo da Ressurreição que aponta para o céu e diz em latim “Ego sum resurrectio et vita (João 11,25)”, cuja tradução para português é “Eu sou a Ressurreição e a Vida (João 11,25)

E assim, “temos a Bíblia sintetizada em quatro esculturas de grandes dimensões, num local privilegiado e fazendo o aproveitamento de árvores que iam para lenha”, destaca o autor.

Inauguração no Centenário das Aparições

A paróquia de Ovar, a quem Marcos Muge nunca se cansa de agradecer o apoio na pessoa do padre Manuel Pires Bastos, tem planos para o conjunto escultórico que está a nascer. No próximo ano, comemora-se o centenário da aparição do Anjo no sítio dos Valinhos e em 2017, o primeiro centenário da aparição de Nossa Senhora aos pastorinhos. Marcos Muge revela que a sua obra deverá ser inaugurada nessa altura, incluída nessas comemorações.
Outro apoio importante que Marcos Muge pede para que seja referido é o prestado pela empresa F. Ramada através do Amigo Dr. João Natária, que lhe facultou o material dum andaime F. Ramada para poder continuar o seu trabalho com mais condições de segurança, depois do artista ter sofrido um acidente em finais de 2013. *com Diário de Aveiro

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