Domingo , 25 Fevereiro 2018
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Dia Mundial das Zonas Húmidas vs espírito BioRia – Álvaro Reis

Dia Mundial das Zonas Húmidas vs espírito BioRia – Álvaro Reis

Comemorou-se na sexta-feira o Dia Mundial das Zonas Húmidas, como forma de assinalar a adopção, em 1971, da Convenção de Ramsar, relativamente à qual o nosso país foi um dos signatários. Este diploma visava já, há quase meio século, despertar as consciências para a necessidade de proceder à conservação e à utilização sustentável deste tipo de ecossistemas.

O interesse pela gestão sustentável das Zonas Húmidas tem a ver com o facto destas se encontrarem entre os ecossistemas mais produtivos do planeta. Mais produtivos e simultâneamente mais ameaçados. Em todo o mundo são múltiplos os atentados cometidos contra as Zonas Húmidas. Lixos sólidos e efluentes não tratados são descarregados nos cursos e bolsas de água, principalmente rios, lagos, lagunas, lagoas, etc. Também a drenagem e enxugo de zonas aquáticas constituem outros factores muito importantes de degradação deste tipo de recursos naturais.

Contudo, além destes factores nocivos derivados da incúria do homem nas suas práticas diárias acresce a irresponsabilidade dos decisores políticos ao permitirem que estas áreas sejam alvo de uma exploração desregrada.

Em 2018 a comemoração da efeméride procura chamar a atenção para as Zonas Húmidas que se localizam na envolvência de núcleos urbanos e que estiveram na base do desenvolvimento dos mesmos. A Ria de Aveiro é um exemplo perfeito deste tipo de Zona Húmida, pois em seu redor implantou-se um elevado número de aglomerados populacionais que se foram transformando em vilas e cidades ao longo dos tempos. A Ria de Aveiro representou desde o século XII uma importante fonte de água, de recursos pesqueiros, de algas, de sal, que permitiu ao homem evoluir em termos económicos e sociais.

O Baixo-Vouga Lagunar é, dentro do espaço lagunar da Ria de Aveiro, uma Zona Húmida de características muito peculiares pela diversidade de biótopos aí existentes. Aqui proliferou, até um passado recente, uma fauna selvagem diversificada adaptada às condições naturais da região, mesmo quando sobre esta pesava o enorme fardo da poluição do ar e da água provenientes da indústria pesada instalada em seu redor e quando a caça era demasiadas vezes praticada de forma ilegal.

Actualmente, o Baixo-Vouga depara-se com outra ameaça à sua conservação. O denominado projecto BioRia, da iniciativa da Câmara Municipal de Estarreja, teoricamente criado para valorizar aquele espaço de Vida Selvagem, como aliás seria desejável e eu próprio preconizei desde o início da década de 80, constitui na prática um instrumento de delapidação dos recursos daquela Zona Húmida.

A passagem regular pelos trilhos de serventia aos campos agrícolas de praticantes de jogging, a realização de corridas e de provas outdoor de características paramilitares, como a infeliz iniciativa denominada BioRace Challenge, além de satisfazerem os interesses económicos de variadíssimas castas promovem o desaparecimento das espécies da fauna pela pressão que exercem sobre o meio ambiente (vem a propósito referir que estes comportamentos reforçam a minha ideia de que foi um erro gravíssimo ter acabado o serviço militar obrigatório em Portugal, pois o mesmo contribuiria para a satisfação integral destas necessidades físicas, mas então realizadas nos locais adequados, como seriam as unidades militares).

É preciso respeitar a natureza no Baixo-Vouga lagunar, acabando com projectos falaciosos, que no papel dizem uma coisa e no terreno fazem outra completamente diferente. Exemplos de gestão autárquica dos espaços selvagens como aquela que é feita no Baixo-Vouga revelam a importância deste tipo de gestão voltar a ser feita por organismos centrais do Estado ou sob apertado controlo da parte destes.

É preciso não fazer letra morta dos acordos internacionais assumidos, como aqueles que constam da Convenção de Ramsar.

Álvaro Reis, Eng.º

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