Opinião

E agora, Furadouro?

A Praia do Furadouro (zona sul) deixou de existir, ou na melhor das hipóteses, está pelo menos prestes a desaparecer, deixando para trás uma existência milenar. Já todos sabíamos que o mar era dono absoluto do seu areal durante o Outono, o Inverno e a Primavera, mas parece que também alugou (perpetuamente?) a sua permanência durante o Verão.

Penso que ninguém se encontrará surpreendido com esta realidade até porque os sinais eram mais que evidentes. Nos últimos tempos, o mar tinha causado cada vez mais estragos na costa do Furadouro, ocasionando estragos materiais em bares e moradias na zona à beira-mar. Os paredões constituem, neste preciso momento, a derradeira barreira ao avanço marítimo! No entanto, é altura de não cedermos à ilusão gratuita porque isso não seria honesto da nossa parte. A Praia do Furadouro está em estado terminal, e num prazo de vinte ou trinta anos, o mar poderá mesmo colocar em causa as primeiras moradias localizadas à beira-mar.

Que causas estão por detrás deste avanço marítimo impiedoso? São várias, mas elencaria sobretudo três. A primeira, sem dúvida, está relacionada com o aquecimento global e com o derretimento dos grandes icebergues do Árctico, da Antárctida e da Gronelândia, Naturalmente, o nível das águas aumenta, e este processo irá continuar nas próximas décadas. A segunda razão prende-se com o facto de muitos terem permitido construções clandestinas em cima de potenciais zonas dunares, fragilizando assim as protecções naturais. Claro que não sabemos se este foi o caso concreto do Furadouro, mas por exemplo, sabemos que noutras áreas do concelho este fenómeno infelizmente aconteceu, e claro hoje temos uma factura a pagar por tal irresponsabilidade. Em terceiro lugar, a passividade do Estado Português e de Bruxelas tem constituído outro factor negativo.

Não vejo uma acção enérgica de ambas as partes em efectuar grandes intervenções no litoral. Logicamente, as câmaras municipais estão praticamente sozinhas nesta batalha desigual contra a hegemonia marítima. É claro que, através dos seus modestos orçamentos, podem reforçar os paredões com novos pedregulhos ou mandar tractores para reporem as dimensões do areal. Até podem recorrer a alternativas inéditas como os geotubos. Mas, na verdade, estas pequenas intervenções, embora necessárias, só servem para atenuar o problema a breve prazo.

É necessário mais envolvimento do Estado Português e da União Europeia. Da nossa parte, defendemos uma solução à holandesa que abrange a construção de diques ao longo da nossa costa. É claro que estamos a falar de um elevado investimento, mas sinceramente não vejo outras hipóteses para este problema que é muito sério e que coloca em causa a defesa e a integridade do território nacional.

Esmoriz já viu a sua antiga capela da Praia a ser engolida pelo mar, agora é o Furadouro que se arrisca a perder para sempre o seu areal milenar.

(in Cusquices de Esmoriz / Foto: beachcam.pt) 

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