Opinião

Festa de Halloween simbólica

“A partir de hoje, estou, oficialmente aposentada! Ufa, pensei que nunca mais chegava!” Com esta declaração partilhada na sua página no Facebook, a professora da Escola EB 2,3 António Dias Simões (Agrupamento de Escolas de Ovar), Theresa Jorge, desabafou, ao fim de 37 anos de serviço, um inegável alivio, por  se livrar do clima que se vêm instalando nas escolas e vem transformando os profissionais da educação neste caso dos docentes, numa espécie de trabalhadores indiferenciados do Estado.

Para quem se entregou, dedicou com entusiasmo e contagiante alegria à comunidade escolar, educativa e local, é sintomática a ansiedade de ir embora, manifestada por esta professora de 60 anos de idade, que concluiu em 1978 a sua formação em Filologia Germânica, no ramo Anglística na Universidade do Porto. O ambiente cinzento que se vêm impondo nas escolas, proporcionado por políticas e reformas que continuam a descaraterizar e a desacreditar a Escola Pública, são naturalmente sinais compreensíveis para tanto desalento e desencanto ao fim de uma carreira profissional em que se forma o futuro de um país.

Muitos dos docentes, a exemplo da geração de Theresa Jorge, com mais ou menos anos de serviço, que ainda continuam no ativo ou que nos últimos anos vem batendo a porta a tanta indignidade e ultraje perante a comunidade e a opinião pública, de que vêm sendo alvo, na linha da fragilidade e descaraterização da Escola Pública. Estes docentes foram determinantes para garantir a gestão e dinâmicas das escolas, quando, pelo seu profissionalismo, pelo seu voluntarismo, pela sua dedicação à causa da Educação e pelo respeito aos alunos e comunidades locais, assumiram e ultrapassaram com muito sacrifício e dedicação em cada ano letivo as consequências dos vazios provocados pelas politicas experimentais dos sucessivos governos e ministros da educação, que culminaram na desvalorização de toda a disponibilidade de mulheres e homens dedicados ao ensino, à democracia e exercício de cidadania na escola.

São docentes com o mesmo espirito de colaboração e disponibilidade como o que foi manifestado por Theresa Jorge ao longo de quase quatro décadas de serviço público, que marcaram e deixam saudades na escola, cada vez mais pobre na promoção do exercício de cidadania e de uma democracia ativa, sem medos, capaz de servir de referência para as novas gerações de alunos e mesmo colegas docentes, cada vez mais sujeitos à precariedade e à ameaça do desemprego que limita a liberdade, até de pensamento. Inquietante cenário, que em alguns casos, mesmo em prejuízo próprio, é motivo mais que justificado para ir embora, e assim dizer basta a tanta humilhação e indignidade com que se tratam profissionais da Educação, cada vez mais sujeitos à pressão de mais cortes orçamentais e seus nefastos efeitos na qualidade da escola, deixando antever mais instabilidade e desresponsabilização do Estado no serviço público que deve ser a Educação.

Neste caso particular, e mesmo num momento em que em poucos meses, entre o fim do ano letivo de 2012/2013 e o novo ano, já foi batido o recorde de aposentações de professores: só a Escola António Dias Simões viu partir um significativo lote de professores da “velha guarda” pedagógica, tão afrontada nos últimos anos de serviço, que aqui se recordam: Joaquim Lebre, Manuela Oliveira, Rosa Figueiredo, Alzira Beça, Deolinda Matos, Alda Luzia ou ainda Amílcar Braga. A aposentação de Theresa Jorge, mesmo com o seu desabafo de desencanto nesta fase final da sua carreira profissional, deixa um estranho vazio nesta escola a que a docente de Inglês ficou ligada há 30 anos, desde a criação da Escola Preparatória de Ovar.

A despedida da professora Theresa, que teve como companheira nestes últimos dias de viagem para o último dia de trabalho, a professora de educação física, Odete Sousa, pode ter passado despercebida da comunidade escolar e educativa, ou até dos governantes, que para a escola só veem a necessidade de mais cortes orçamentais. Mas muito simbolicamente, quis o calendário que determinou oficialmente a sua aposentação, que tal acontecesse em ambiente alusivo à tradição anglo-saxónica, que juntamente com as colegas do grupo de Inglês, durante alguns anos veio contribuindo para influenciar e dinamizar pedagogicamente em meio escolar atividade e eventos sobre o “Dia das Bruxas” ou a Festa de ‘Hallowen’ que, este ano, através de um concurso “Símbolos Mágicos do Hallowen” acabou por assinalar a sua última atividade escolar com envolvimento do grupo de colegas professoras de Inglês 2º ciclo. Uma tradição naturalmente assumida com grande entusiasmo, por quem nasceu nos EUA e veio para Portugal (Ovar) com quase 13 anos, para continuar os estudos no Colégio Nossa Senhora da Esperança, em que viria mais tarde a dar aulas de Inglês ainda antes de terminar o seu curso.

Depois de acabar o curso, e num tempo em que se valorizavam e dignificavam mais as especializações dos profissionais da Educação, ao contrário dos novos tempos em que estes trabalhadores são usados para “tapar buracos” e “pau para toda a colher” nas escolas e agrupamentos, situações tantas vezes indignas a que se sujeitam para ganhar o “pão”.  A professora Theresa deu aulas de Inglês e Português na Escola Preparatória de S. João da Madeira durante três anos até ir para a Escola Preparatória João Afonso, em Aveiro, para fazer “estágio” durante dois anos, sendo posteriormente colocada em Ovar até finalmente chegar o seu dia da aposentação. Um dia que, ironicamente, parece ter devolvido a alegria que os últimos anos de políticas contra os professores, tinham roubado, nomeadamente desde a teimosia do contestado modelo de avaliação de desempenho dos docentes, contra o qual esta professora de Inglês também se destacou a contestar. Um momento de afronta a estes profissionais, que de certa forma, foi ponto alto de reflexão, e sobretudo de um sentimento de descrédito e desmotivação que invadiu as escolas perante tanta intolerância, como consequência de medidas de governantes que apostaram na desvalorização, descrédito e humilhação dos professores aos olhos da opinião pública.

Ao serviço da Escola Preparatória de Ovar e depois como patrono António Dias Simões, o empenhamento de Theresa Jorge manifestou-se nas mais diversificadas áreas, incluindo a da gestão escolar, em que integrou várias equipas no Executivo do então Conselho Diretivo, tendo-se estreado como Vice-presidente numa equipa da direção, formada só por mulheres no triénio 1984/1987 com as colegas, Maria José Vaz e Lívia Lobo. Seguiram-se outros mandatos entre 1989/1991 e ainda como Secretária no triénio 1991/1994 em que terminou como Presidente em substituição do então presidente, professor Manuel Cardoso. Durante alguns anos assumiu o cargo de Diretora de Turma.

Ainda a nível dos órgãos de gestão, foi Delegada de Disciplina/Coordenadora de Departamento durante muitos anos no Conselho Pedagógico, participação que terminou no ano letivo 2008/2009.  Na Assembleia de Escola foi membro entre 1999/2002 e no Conselho Geral fez parte desde o ano 2008 até 2013 já no novo Agrupamento de Escolas de Ovar.

Dos projetos mais significativos em que a professora esteve envolvida na escola, destacam-se os seguintes:
– Entre os anos letivos de 1992/93 e 1993/94 no âmbito da então Área Escola, participou num projeto sobre Património (com a professora Irene Fonseca que era Diretora de Turma) – tendo sido feitos desdobráveis e postais ilustrados com legendas em inglês que foram expostos no Turismo e enviados para os E.U.A. e Reino Unido para divulgação.
– Em 1994/95 participou no projecto “Um abraço sem fronteiras” (com o professor José Manuel) aprovado pelo Instituto de Inovação Educacional tendo havido intercâmbio de trabalhos com uma turma Espanhola e contacto com os respectivos professores.
– No ano 1997/98 dinamizou com a colega, professora Teresa Andrade o projeto “Uma Escola Irmã em Angola”.
– E em 1998/99 integrou o projeto PAO (Património Arquitetónico de Ovar e Associação dos Amigos do Azulejo dinamizado pelo professor Manuel Cleto, que envolvia alunos de várias turmas.
– Lecionou ainda uma turma que desenvolveu o projeto RIAEDU (com a professora Fátima Regalado).

Na componente cultural, já que não havia festas, de Natal ou outras, convívios, eventos e iniciativas diversificadas em meio escolar e na comunidade, que a professora Theresa Jorge não estivesse sempre disponível a colaborar, participar e envolvida na organização. Esta sua intervenção esteve umbilicalmente ligada à década, entre 1991 e 2000 em que a Troupe de Reis da Escola EB 2,3 António Dias Simões se afirmou na tradição do Cantar os Reis em Ovar. Um dos projetos mais marcantes que teve como impulsionadores os elementos do grupo de Educação Musical da escola, como os docentes Maria José Soares e António Barros, que dirigiu a parte instrumental, e ainda a colaboração na organização de Carmo Seixas, Alzira Beça. Projeto integrado num riquíssimo património cultural da cidade de Ovar, com a particularidade de um muito próprio ritmo de cantar os Reis em que Theresa Jorge, foi autora das letras reiseiras daquela que viria a ser conhecida como a “Troupe dos Professores” e que representou uma interessante novidade nesta tradição ovarense em que foi envolvida a comunidade escolar e local.

Em época de Carnaval a folia igualmente fervilhava num conjunto de docentes que habitualmente se fantasiavam de forma muito vistosa. Um grupo que contava com Theresa Jorge, Carmo Seixas, Alda Luzia e Manuela Marques. Um bom exemplo de relação prática com as tradições locais, em que durante vários anos estas professoras folionas se tornaram presença habitual com fatos carnavalesco sempre renovados e muito coloridos a passearem-se entre a escola e as ruas da cidade dum entrudo também característico que foi evoluindo.

Neste vasto percurso de intervenção multifacetada, consta ainda o exercício de cidadania como autarca num mandato na Assembleia de Freguesia de Ovar entre 2000/2004 e um outro na Assembleia Municipal de Ovar até 2008.

Livre de um certo pesadelo em que se sentem a viver muitos dos colegas que por diferentes razões e motivações se obrigam a aguentar mais uns tempos, a atividade de lecionar no atual quadro de degradação da Escola Pública e consequentemente dos seus profissionais. A professora agora aposentada tem ainda mais razões para ser feliz, não só por ser avó, mas, porque vai poder cantar, não para “seus males espantar”, mas para, agora ainda mais livre, partilhar a sua renovada alegria, felicidade e vontade de viver, no seio de um coletivo musical, como é o “Canto Décimo”. Projeto musical que integra desde 2004 com o mesmo espirito de dedicação e paixão que ofereceu à Escola Pública durante uma vida de trabalho docente dedicado ao Inglês. A disciplina curricular que alimentou a tradição de Hallowen em meio escolar, como a exposição recheada de imaginação dos alunos do 2º ciclo, que as suas colegas de grupo e da escola António Dias Simões, professoras Josefina Ventura ou Augusta Pinto, continuam a garantir dinamizar. Foi certamente a melhor prenda de despedida, mesmo de uma escola que lamentavelmente já deixa poucas saudades para quem se aposenta ou reforma.

Em jeito de despedida, recorda-se das letras da própria autora de sempre para a Troupe de Reis da Escola EB 2,3 António Dias Simões quando no último ano da sua saída á rua, se cantava no “primeiro número”:
(…)
A tradição está na alma
Da nossa gente que a sente
E jamais pode acabar
Vamos lá participar
Ativamente!

Mãos à obra, pés a caminho
Canta, toca e ensaia afinadinho
Um maestro a preceito
Cantares, com ou sem jeito
Levaram a água ao seu moinho.

A “nossa gente” acarinhou
Deu-nos força, bateu palmas
Com vontade renovada
Prolongámos a jornada.

“Quem corre por gosto não cansa”
Diz o povo e com razão!
Aqui estamos com orgulho
P´ra manter a tradição!

Enquanto o tradicional “número despedida” deixava sempre a vontade de voltar.
(…)
Vamos andando
Com alegria, sim senhor
Um até sempre
Para todos o melhor
E terminamos com emoção
Bisando o nosso refrão…
Viva, viva, viva, o ano 2000
Levanta a taça, para brindar
À concórdia e à amizade
Desejamos de verdade
E sem chalaça, queremos seja p´ra durar!

José Lopes

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