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Filomena Marona Beja num À Palavra intimista

A escritora Filomena Marona Beja veio a Ovar ao evento literário À Palavra no Museu de Ovar, proporcionar mais uma tertúlia em que o tempo da agradável e leve, mas intensa conversa recheada de marcas profundas da sociedade portuguesa e das suas realidades socias e politicas que atravessam a sua obra literária, passou demasiado depressa.

Nascida a 9 de junho de 1944 em Lisboa, no fim da guerra como lembrou, falou da sua infância, da profunda ligação a França e aos franceses. Uma relação partilhada no colégio francês que frequentou a partir dos seus seis anos de idade, onde aprendeu não só a liberdade, mas também a fraternidade, que diz estar esquecida. Por isso, sobre a situação politico em França, tem a esperança que haja forças que defendam os direitos e liberdades, perante as ameaças do avanço da extrema-direita. Lembrou no entanto que, “já houve outros colaboracionistas” ao longo da história francesa, numa referência entre a atual progressão de Le Pen e episódios da 2.º Guerra Mundial.

Formada em Biologia na Faculdade de Ciências de Lisboa, Filomena Marono Beja acabou por integrar um grupo de construções escolares no projeto do Mediterrâneo no âmbito da OCDE para quem trabalhou na investigação documental e depois de 1970 acabaria na Direcção-Geral das Construções Escolares, no Ministério das Obras Públicas. Uma experiencia profissional na área da documentação técnico-científica, que acabou por funcionar como uma espécie de “estágio”, para se lançar na escrita dos romances, o que veio acontecer em 1996, após um novo regresso aos Açores, terra da família para onde o seu bisavô tinha sido desterrado por Sidónio Pais, cuja história desta gente decidiu escrever ali mesmo na Horta.

Neste seu primeiro livro, As Cidadãs, publicado em 1998, o período de implantação da República está muito presente, nomeadamente o papel das mulheres. Um titulo marcante na obra da autora que valorizou muito iniciativas do género das do À Palavra, que aproximam escritores e leitores, neste caso, com a moderação de Carlos Nuno Granja, que foi desafiando a convidada a situar no tempo mais alguns títulos, como “Bute daí, Zé!” (2010), em que a escritora nos fez recordar episódios políticos como o assassinato do militante anti-rascista Zé da Messa na Rua da Palma em Lisboa ou um tempo em que o “Eléctrico 16”, nome de seu livro publicado em 2013, em que fala da vivência de um transporte que reunia operários e estudantes numa aprendizagem social e politica.

Referências a títulos dos seus livros que abriram apetite nos presentes em devorar as histórias por si contadas com rigor que exige a si própria, como fez questão de sublinhar.

Foram muitas as histórias que simpaticamente Filomena Marono Beja deixou dicas, como: Histórias vindas a conto; Betânia; Uma Terra Prometida; A Duração dos Crepúsculos ; Franceses Marinheiros e Republicanos; ou o seu mais recente livro, Um Rasto de Alfazema (2015).

Esta sessão do À Palavra de sexta-feira realizada de forma muito intimista, permitiu um contato tão genuíno com uma escritora avessa às novas tecnologias e com recurso ao computador para passar os seus trabalhos escritos a caneta em papel branco. Método de trabalho desta Senhora que encantou os presentes com quem partilhou a sua visão da vida e do mundo, para além do seu percurso literário, que viu ser premiado, a exemplo do livro A sopa (2004), com que viria a ganhar o Grande Prémio de Literatura DST ou a Cova do Lagarto (2007), galardoado com o Grande Prémio de Romance e Novela da APE/DGLB. JL

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