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Ladrão que rouba a si mesmo

O que é um “filme-testamento”? Em rigor não há nenhuma definição, apenas possibilidades de percepção, sendo certo que essa dimensão testamentária está longe, muito longe, de coincidir com o facto factual de “derradeiros filmes”, não deixando de também o ser.

Até agora, eram dois os exemplos maiores de filmes que, logo quando os vi, me surgiram como “testamentários”, O Sacrifício de Andrei Tarkovski e The Dead de John Huston, cabendo ainda assinalar O Testamento de Orfeu de Jean Cocteau. Mas não posso deixar de citar um outro exemplo: quando em 1990 se deu o caso único de participarem no Festival de Cannes Sonhos de Akira Kurosawa e A Voz da Lua de Federico Fellini, especulava-se muito que o filme do japonês seria o seu último, coisa que de resto já se dissera a propósito do precedente Ran; pois bem pressentia e escrevi, que era sim “testamentário” o filme de Fellini, o que se veio a confirmar, enquanto Kurosawa ainda faria mais dois filmes, Rapsódia em Agosto e Madadayo/Ainda Não, este sim claramente um “filme-testamento”.

A esta tão particular lista acrescenta-se agora "Se fosse ladrão… roubava", de Paulo Rocha, obra surgida mesmo já postumamente, e este é um filme incomparável.

Se de todos os filmes que nos importam podemos dizer que são objectos singulares e diferente dos outros, nunca, em vez alguma, vi um filme assim.

"Se eu fosse ladrão… roubava" é uma história familiar, qual regresso às origens, a história do pai do realizador, personagem aqui de seu nome Vitalino (incrível nome, espantosa aparição de Chandra Malatich), mas é também, de modo inédito, uma autobiografia em cinema, incluindo excertos de quase todos os filmes de Rocha, de Os Verdes Anos (1963) a Vanitas (2004), apenas com excepção de O Desejado ou As Montanhas da Lua (1987), ausência sobre a qual muito se podia e pode especular. Isto já de si é espantoso mas ainda mais é o encadeamento dos diversos extractos, numa narrativa não linear é certo, mas ainda assim com recorrentes nexos e paralelismos.

Ouvi muitas vezes a Paulo Rocha um adjectivo que só a ele conhecia, “pasmoso” – pois bem, Se eu fosse ladrão…roubava é mesmo um filme de pasmar!

A primeira imagem é a de uma capela, logo trazendo à memória uma cena capital de todo o cinema de Rocha, uma de Mudar de Vida (1966), essa cena de corte que divide o filme em dois, quando Adelino descobre Albertina a roubar as esmolas na Albertina (Isabel de Ruth de novo) num local de nome memorável, a Capela de Nossa Senhora de Entre-as-Águas – cena que aparecerá mais tarde nesta revisão de autobiografia em filme.

Diga-se aliás que já Mudar de Vida, depois do “lisboeta” Os Verdes Anos, tinha também algo de regresso às origens, feito nas proximidades dos locais de família de Rocha, na zona de Ovar, em locais como o Furadouro e a Gafanha.

Só que desta vez vamos mesmo à história familiar, e entra-se directo na matéria relembrando a morte do avô e os seus incitamentos a que Vitalino parta para o Brasil – história que é desde logo enunciada pelo próprio realizador, em “voz off”. E do pai passamos ao filho, o próprio Paulo Rocha, com a cena que sempre retive como a mais emblemática do realizador, quando ele, no papel de Camilo Pessanha em A Ilha dos Amores (1982), dita o célebre verso inicial de Inscrição: “Eu vi a luz num país perdido. /A minha alma é lânguida e inerme. / Ó! Quem pudesse deslizar sem ruído! /No chão sumir-se, como faz um verme…”. Ele viu a luz num país perdido…

É simplesmente incrível a quantidade de rimas internas ao filme, por exemplo entre a morte do avô e a morte de Amadeo de Sousa-Cardoso, autor que Rocha abordou em Máscara de Aço contra Abismo Azul (1989), ambas no ano da peste de 1917. Há as idas para o Brasil e o regresso, como em O Rio do Ouro (1998). Há o regresso ao “local do crime”, quando mesmo no final deste filme há o célebre fim de Os Verdes Anos, com Júlio a matar a namorada, Ilda, e o famoso “Ai minha senhora!” dela. E há, obsessivamente os cemitérios e campas, na zona da família ou no distante Japão.

Mas é também insólito este título, Se fosse ladrão…roubava – que afinal também esse vem de um filme anterior.

Numa espantosa cena numa praia, Isabel Ruth surge alucinada, com os cabelos desgrenhados. Só esse momento merece alguma atenção: sempre se indicou a influência de Mizoguchi em Paulo Rocha; acontece que esse plano mais se aproxima de Kurosawa, mormente do desvario do velho rei no final de Ran. Ouve-se também uma cantilena: “Se fosse ladrão roubava/roubava aquela menina” e logo depois a mesma já em O Rio do Ouro – e a passagem imediata é para o baile de Os Verdes Anos. Enfim os exemplos são infindáveis e estou sempre a descobrir outras coisas a cada visão do filme.

Como é óbvio – e esse é um ponto de interrogação maior – compreendo e amo perdidamente este filme porque também vou reconhecendo os extractos dos anteriores neles incluídos, e não posso portanto imaginar qual será a reação de espectadores que irão ver o filme sem conhecimento dos outros, embora me pareça difícil não ser tocado pela sua beleza e o seu lado fúnebre.

Se eu fosse ladrão…roubava tem esta noite enfim a sua ante-estreia portuguesa na Cinemateca. E já agora citem-se as presenças tutelares de dois intérpretes no cinema de Rocha, Isabel Ruth e Luís Miguel Cintra, mas também, espantosa, de Márcia Breia, e de três colaborações capitais, de Regina Guimarães no argumento, de Acácio de Almeida na fotografia e de Edgar Feldman na montagem.

Repito: não conheço de todo um filme tão singular quanto este. "Se fosse ladrão…roubava" é deveras um filme pasmoso e extraordinário. (Ípsilon, 31.01.2014)

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