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Memórias no centenário de Beatriz Campos

Para assinalar os 100 anos de Beatriz Campos, pintora, desenhista e ceramista que nasceu em Ovar a 14 de Outubro de 1915 e faleceu a 31 de Maio de 2009, o Museu de Ovar organizou uma exposição a que designou “100 horas de Beatriz”, que fechou no passado sábado, com uma tertúlia subordinada ao tema “Lembrando a mulher”.

A convite do moderador Carlos Granja, Manuel Bernardo e o Padre Manuel Pires Bastos, que substituiu Alberto Lamy, animaram uma conversa que prendeu a atenção dos presentes sobre memórias da vida social, artística e familiar de Beatriz Campos.

Manuel Pires Bastos realçou a dedicação desta mulher à arte, “apesar de incompreendida”, através da qual expressava “o que sentia sobre a sua terra e suas gentes”. Destacou também a sua participação a vários níveis na comunidade, nomeadamente, a sua relação com o Museu de Ovar. Uma dedicação que Manuel Bernardo aprofundou com uma abordagem à história da imprensa local e regional na qual, neste caso, no jornal “Noticias de Ovar”, onde Beatriz Campos e Coentro de Pinho se viriam a conhecer e a casar.

Manuel Bernardo, da divisão da Cultura, Biblioteca e Património Histórico da Câmara ovarense, lembrou que, aos três anos de idade, Beatriz Campos foi viver com a família para Algés “e lá foi fazendo o seu caminho nas artes, tendo o pai como o seu primeiro mestre”.

Em 1938, teria a sua primeira participação numa exposição colectiva. De regresso à sua terra, encontrou uma “Ovar muito pobre, com a pesca já em decadência e alguma fome no Furadouro, numa época em que tudo estava a mudar, no fim da guerra, sociedade em transição”. “A arte que até aí não merecia atenção da imprensa, começava a ocupar lugar nos jornais”, lembrando este investigador a curiosidade do jornal Noticias de Ovar (1949) dirigido por Coentro Pinho, ter anunciado uma “exposição de Beatriz Campos no Porto, que era mais reconhecida fora da sua terra”.

Ambos os oradores destacaram a força e a capacidade de Beatriz Campos, que resistiu a todas as dificuldades da época na terra em que nasceu, que a poderiam empurrar para o destino de uma limitativa vida doméstica, quando na Sociedade de Belas Artes era premiada e reconhecida. Mas, como lembrou Pires Bastos, “ela esteve sempre a trabalhar”, por isso, acrescentou Manuel Bernardes, que se fez acompanhar de autênticas relíquias da imprensa local, “em 1958, fez uma grande exposição com mais de 300 pelas de arte”.

O contributo de Beatriz Campos e Coentro de Pinho na realização do sonho de José Augusto Maia, para criação do Museu de Ovar, foi igualmente enaltecido por ambos conhecedores da história local, como tendo sido conseguido “por gente muito modesta”.


A exposição

A arte de Beatriz Campos que faz parte do acervo do Museu de Ovar foi a base da exposição que esteve patente ao público entre os dias 14 e 18 de outubro para homenagear esta artista ovarense. No momento da inauguração o vereador da cultura da Câmara Municipal de Ovar, Alexandre Rosas, que reconheceu disponibilidade desde a primeira hora para uma tal homenagem a Beatriz Campos, que pela sua relação com a artista, falou dela como a sua “segunda avó”, destacou ainda a parceria entre o Museu e a Câmara para que ambas as partes realizassem diferentes momentos no âmbito do centenário do nascimento de Beatriz Campos a quem a Câmara  quer dar nome de rua.

O momento da inauguração ficou ainda assinalado pelas palavras do director do Museu de Ovar, Manuel Cleto, que se mostrou orgulhoso pelo contributo da instituição a que preside, para mais esta “justa homenagem a Beatriz Campos” e pelos testemunhos de Manuel Silva, um dos fundadores do Museu de Ovar ainda vivo, que reuniu em livro as suas memórias sobre meio século em que fez parte dos órgãos sociais. Um contributo que vai ser editado com apoio da Câmara para homenagear os obreiros do sonho que José Almeida Maia tornou possível há mais de meio século.

José Lopes

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