Quarta-feira , 22 Novembro 2017
Ler também:
O “hovercraft” mais famoso do mundo é de Válega (DA)

O “hovercraft” mais famoso do mundo é de Válega (DA)

Não é um avião, não é um barco, mas antes uma nave que flutua a centímetros do solo e que exige alguma destreza física para ser pilotada. No Reino Unido, onde foi inventado, chamam-lhe hovercraft, em Espanha é um aerodeslizador, e em Portugal, na falta de um termo específico no léxico para descrever um “veículo de colchão a ar”, usa-se o original.

Na verdade, muito poucos conhecem este meio de locomoção que sobrevoa qualquer superfície, seja terra, rio ou mar. Nesse nível de conhecimento, a região de Aveiro poderá ser uma excepção graças ao esforço, trabalho e dedicação à causa de Carlos Camoesas. Residente em Válega, concelho de Ovar, fundou a “OvarCraft” e ali produziu os primeiros hovercraft telecomandados em Portugal que são “só” considerados dos melhores do mundo, em vários fóruns internacionais da especialidade na Internet.

Tudo começou em 1991 quando viu, numa revista, fotografias da primeira corrida de Hoovercraft em Portugal, na Figueira da Foz. “Fiquei atordoado com aquilo”, recorda ao Diário de Aveiro.

Controlador aéreo e militar na reserva, Carlos Camoesas fez dos anexos da sua casa, em Válega, um mundo à parte. Aquelas portas estão fechadas e não se abrem a qualquer um. Carlos protege as suas criações de nautiomodelismo como se fossem filhos ou segredos de Estado. “Já me quiseram comprar hovercrafts, mas eu só aceito vender vinte ou mais da cada vez, porque sei que no momento em que vender um e virem como se faz, no mês seguinte o mercado estará inundado de aparelhos iguais ao meu feitos na China”, ri-se.

Conta-nos então que aviões e a aeronáutica em geral sempre foram as suas paixões, tendo sido formador no Centro de Formação Militar Técnica da Força Aérea da Ota, em Alenquer, mas acabou por se radicar no concelho de Ovar após os anos em que prestou serviço no Aeródromo de Manobra n.º 1, em Maceda.

Também não lhe faltam os imprescindíveis conhecimentos de aerodinâmica e mecatrónica – ramo da engenharia que aborda a manutenção, reparação e adaptação de equipamentos diversos, na área da eletricidade, eletrónica, controlo automático, robótica e mecânica.

Nesse ano, “fiz um com 40 cm, mas era impraticável, pois capotava com qualquer ondulação ou vento”. “Fui ampliando até verificar que 1/4 de escala era o tamanho ideal” e assim ficou até hoje.

Depois de encontrar o tamanho ideal, foi tempo de dar vida ao hovercraft, aplicando-lhe todo o manancial de conhecimentos técnicos que possui. Um motor de motosserra ou equivalente, movido a gasolina de qualquer posto de abastecimento, com 3,5 cavalos de potência e 14 mil rotações. Ao motor ainda introduziu algumas pequenas adaptações e agora “isto anda que se farta”.

 

Um hovercraft pode ficar caro

O material não pode ser pesado, tendo optado pelo carbono e pelo kevlar, uma fibra sintética de aramida muito resistente e leve. Mas não se ficou por aqui. O piloto obedece ao comando à distância. O capacete, as mãos e os lemes estão coordenados e tudo funciona em consonância. Se o comando manda virar à direita, o boneco (piloto) vira a cabeça, as mãos e o volante para a direita. Mecânica e electrónica numa união que oferecem um realismo impressionante.

“O meu primeiro hovercraft não tinha piloto e ia sempre a direito”, recorda mas, hoje, atingiu um nivel de perfeição que é reconhecido a nível mundial, que já valeu a Camoesas algumas invejas. “Em especial dos ingleses”, admite. “Custou-lhes a aceitar que um português conseguisse fazer um protótipo de hoovercraft como eles nunca conseguiram, apesar de ter sido lá inventado”, ri-se.

Considerado como o melhor fabricante de modelos de hovercraft do mundo, revela que já teve “várias propostas de compra, mas pouco crediveis, digamos assim”. Houve um americano que o sondou quanto a preços por unidade, mas o mentor da OvarCraft não se deixou iludir: “Só aceito encomendas de vinte ou sucessivas encomendas de vinte”, respondeu-lhe. “Sempre tive amigos em Espanha, França, Bélgica, Holanda, mas ingleses e americanos nem por isso”, reconhece. “Penso que eles querem pôr as mãos num dos meus hovercraft e poucos dias depois, é certinho que os chineses iam estar a reproduzi-lo”.

Em 1996, chegou a tentar, em parceria com a única equipa portuguesa de hovercraft, a Super-Polyester, que chegou a ser campeã nacional de Formula 2, mas não se revelou viável.

Nunca pensou verdadeiramente em preços, mas se um fabricante inglês pediu um milhar de libras por um hovercraft bastante mais rudimentar que o Predator, imagine-se quanto vale o trabalho da Ovarcraft.

O hovercraft a que Carlos Camoesas chamou de “Predator” causa sensação onde quer que se desloque para uma demonstração. Tudo pára a olhar para o protótipo a evoluir na água, na terra, no asfalto, onde quer que seja. E há ainda as reacções que emocionam o “pai” dos aparelhos. “A que mais me impressionou aconteceu em 2013, na ExpoTrakinas, em Aveiro, quando estava a fazer uma demonstração e reparo que há uma criança a olhar fixamente para o boneco”, conta. “Reduzi a velocidade, aterrei o hovercraft junto dele e pus o piloto a mexer. Foi então que a criança começou a falar com o boneco”. Para realismo estamos conversados.

Estes são os prémios de que Carlos Camoesas mais se orgulha. “No modelismo não há prémios”, explica, acrescentando que “os encontros são amigáveis, sem competição e organizados por associações de vários pontos do país”.

Ovarcraft ou o trocadilho certo

Carlos Camoesas também assina o seu trabalho com o nome de OvarCraft. É ele próprio que nos explica que Ovar fica a dever-se ao facto de se encontrar sediado em Válega, no concelho vareiro. Craft significa artesanato ou trabalho manual e artesanal, mas também pode significar ofício ou habilidade.

“Pareceu-me o trocadilho certo”, justifica Carlos Camoesas. É que, além do Predator, há mais para descobrir na oficina do Ovarcraft: Barcos moliceiros também executados à escala, botas para patins em linha em carbono, caneleiras super-leves e ainda há a reprodução de um concept design do Audi R8 Catamaran com reprodução fiel dos interiores.

Associado do T.E.A.M – Truques & Engenhocas Associação Modelismo, de Ílhavo, Carlos Camoesas e o Predator são muitas vezes vistos nos encontros que se realizados no Jardim Oudinot, na Gafanha da Nazaré. Também se desloca a vários encontros em diversos pontos do país. As idas aos encontros de modelismo são compensadores, mas obrigam a uma grande logística, pois a acompanhar o protótipo vai uma mala de ferramentas recheada e uma bancada para fazer a assistência que for preciso.

 

(Ler artigo completo in Diário de Aveiro)

Deixe uma resposta