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Palmeiras de todo o mundo crescem no centro vareiro

palm1Cobras extremamente venenosas, mamíferos temíveis e insectos desconhecidos foi coisa que não nos cruzou o caminho enquanto vestimos a pele de exploradores numa caminhada por aquele exuberante verde.

As palmeiras têm aqui uma fascinante presença, formando um ecossistema único em Ovar, na região Centro e, muito provavelmente, em Portugal.

Sim, leu bem, esta bela e rara massa vegetal fica em pleno centro da cidade vareira e é, com toda a certeza, o mais próximo que estivemos da floresta amazónica.

Mesmo estando em pleno centro da cidade de Ovar, a sua posição geográfica permite-lhe a entrada de generosa radiação solar, e dada a sua variação topográfica, há dois patamares de jardins com palmeiras de todo o mundo, algumas delas com características únicas.

A paixão que deu origem a este verdadeiro oásis começou em 2009, quando Rafael Azevedo realizou uma viagem à Jamaica. “Fiquei fascinado”, conta ao nosso jornal. “Mal cheguei a Portugal”, continua o proprietário ovarense, “comprei uma planta idêntica à que vi lá – uma Palmeira Real, de Cuba, muito comum nas Caraíbas”.

Não encontrou bem aquilo que queria, “mas apenas uma muito parecida, a palmeira australiana”. Plantou-a, mas correu mal, pois “no primeiro inverno, ficou literalmente tostada”. Concluiu que os hortos vendem-na em Portugal para fins ornamentais, para o interior de centros comerciais, ou para o calor do Algarve.

palm2Hoje, Rafael Azevedo sabe que “o clima em Ovar não permite a criação de algumas espécies que tenho aqui, excepto em alguns micro-micro-climas”, como aquele que conseguiu criar numa zona elevada do jardim da sua residência, no centro da cidade. “Algumas das plantas que tenho aqui, se plantadas no Parque Urbano, morreriam no inverno”, sentencia.

Então, como é possível, neste local, este oásis? Rafael Azevedo avança uma explicação: “Este sítio está virado a sul, está protegido de norte e as plantas protegem-se umas às outras”. “À medida que vão crescendo, vão obtendo cada vez mais protecção das folhas umas das outras”, acrescenta. Ali, existem plantas que, em tese, só sobrevivem do paralelo de Lisboa para sul.

Para o ajudar a conseguir o desiderato de plantar, com sucesso, palmeiras tropicais, muito auxiliou a descoberta do site da International Palm Society, a quem pediu ajuda para salvar aquela palmeira. “Mesmo assim, não foi possível”, lamenta Rafael Azevedo, que recolheu os contactos de outros fãs da espécie. “Conheci muita gente que me ajudou imenso”, adianta.

O jardim de palmeiras começou a ganhar forma. Mais tarde, “fui a um evento na Tailândia, onde conheci outras pessoas”, e a partir daí, “tomei contacto com várias hipóteses das inúmeras espécies de palmeiras que há no mundo e não parei enquanto não descobri os hortos que as vendessem”.

palm3Inicialmente, começou por trazer árvores de médio porte que ia buscar, designadamente, ao sul de Espanha, depois, alugando uma viatura de maior capacidade, trouxe árvores de pequeno porte e, mais recentemente, árvores a partir da semente. Hoje, Rafael Azevedo orgulha-se de “ter as diversas fases do desenvolvimento da palmeira: tenho a semente que germina, tenho a planta pequena, média e grande”. Tirando uma ou outra, “em Ovar tenho palmeiras de grau intermédio, nesta zona baixa, e numa zona de cota superior e abrigada estão as de porte maior”.

À medida que circulamos pela pequena floresta, Rafael Azevedo vai discorrendo as espécies presentes: dos andes colombianos, a palmeira mais alta do mundo que chega aos 30 metros de altura, da Austrália, da Nova Zelândia, do deserto mexicano, do Irão, Senegal, India, EUA, Bolivia”. Etc.

Há aqui as vulgares tamareiras que se dão bem no sul de Portugal e Espanha, “que aqui vivem bem mas nunca chegam à tâmara, pois não têm calor contínuo suficiente para produzir o fruto”.

São muitas, belas, elegantes e exóticas e todas têm um nome. Rafael Azevedo conhece-as a todas e pelo seu nome científico: A palmeira grega por excelência, parente da palmeira das Canárias que tem sido dizimada pelos escaravelhos, está aqui também, mas é muito diferente de outras parentes de outras proveniências, desde o norte de África a Israel.

Mais à frente, temos uma palmeira do Brasil, outra do Chile “cujo fruto permite produzir um vinho”, explica. “Tenho uma outra aqui cujo fruto permite fazer uma geleia e outra cujo fruto tem sabor a ananás”. E muitas outras, belíssimas, de folhas em espinha, recortadas, abertas, duas a duas, três a três, altas, mais baixas, pequenas e adultas.

Um espectáculo surpreendente que desfila perante os nossos olhos que de outra forma (leia-se observá-las no seu habitat) seria praticamente impossível.

“Tenho aqui várias pérolas, mas não tenho uma preferida”. Algumas são muito curiosas. Rafael conhece-lhes os segredos: “Esta é vermelha enquanto é juvenil e depois torna-se verde, tenho outras de madagáscar que são magníficas”, aponta.

Tem uma do deserto do México que é “outra das minhas preferidas”. “Neste momento, não manifestam grande esplendor, mas dentro de 2, 3 ou 4 anos, vamos ver”. O local, para já, mantém uma certa discrição mas, em breve, quando estas palmeiras de todo o mundo começarem a crescer, será difícil esconder este exótico espaço, embora privado, mas de inegável importância botânica.

Rafael Azevedo ocupa ali mais de 90 por cento do tempo livre disponível que tem para si. “Em vez de ir para o ginásio correr e fazer pesos, fico aqui a tratar delas e chego ao fim do dia cansado e igualmente a pingar”.

No fim da visita, ficamos com a certeza de que este é um dos segredos mais bem guardados do centro vareiro, onde, acredite ou não, estão 200 palmeiras de todo o mundo, assim divididas: uma centena em 1.200 metros quadrados e outras 100 em 150 metros quadrados, numa espécie de jardim suspenso num patamar mais elevado.

Eis algumas das espécies que ali se encontram:

Ravenea rivularis
Ravenea glauca
Ravenea krociana
Ravenea madagascariensis
Dypsis decipiens
Dypsis onilahensis
Dypsis plumosa
Dypsis decaryi
Dypsis madagascariensis
Archontophoenix Cunninghamiana
Archontophoenix Alexandrae
Archontophoenix Purpurae
Archontophoenix Tuckeri
Archontophoenix Cunninghamiana var Illawara
Archontophoenix Myolensis
Licuala Peltata var Sumawonghi
Burretiokentia Hapala
Laccospadix australasica
Lytocarium weddelanium
Lytocarium hoeney
Ptychosperma elegans
Cyphophoenix nucele
Cyphophoenix elegans
Chambeyronia macrocarpa
Chambeyronia hookeri
Thrinax radiata
Woodyetia bifurcata
Jubaeopsis caffra
Alagoptera arenaria
Syagrus sancona
Syagrus rommanzofiana
Syagrus coronata
Syagrus schyzophila
Howea forsteriana
Howea belmoreana
Rhopalostylis Baueri var cheesemani
Rhopalostilis sapida Auckland
Rhopalostilis sapida Great Barrier Island
Prichardia Hillebrandii
Prichardia minor
Bismarckia nobilis
Ceroxylon Quindiuense
Ceroxylon Parvifrons
Ceroxylon Amazonicum
Ceroxylon Ventricosum´
Ceroxylon Alpinum
Sabal yapa
Sabal mauritiformis
Sabal causiarum
Sabal minor
Sabal bermudana
Sabal dominguensis
Sabal palmetto
Sabal rosei

O escaravelho da Palmeira

Rafael Azevedo esteve atento à praga do escaravelho da palmeira que chegou a andar pelas redondezas. “Cheguei a apanhar escaravelho vivo, a voar, aqui, provavelmente, um dos que dizimou uma palmeira aqui da frente”, recorda. “Normalmente, o escaravelho pega nas árvores médias e de grande porte. Aqui tenho apenas juvenis, desde que não se faça cortes, lançando o cheiro no ar, eles não vêem”.

O escaravelho veio da Ásia, chegou à Grécia, seguiu pelos caminhos dos países do sul. Chegou há três anos ao Algarve, demorou um ano a chegar a Lisboa e outro ano a chegar ao Porto. E não desaparece, pois não têm predadores.

“Ou as pessoas se mentalizam e investem num tratamento adequado ou então é o fim. Os espanhóis, da zona de Andaluzia, estão muito evoluídos no tratamento das palmeiras afectadas”. Mas em Espanha, realça, “a palmeira é um elemento ornamental que nos entra pelos olhos nas cidades e, portanto, não as imaginamos sem elas, e eles tiveram de meter mãos à obra”.

Aqui nem tanto. “Já vi palmeiras em jardins de palácios no Porto a serem dizimadas alegremente”. Em Ovar, “há casos e casos. No Furadouro, há uma residência antiga, cujo proprietário salvou as suas duas palmeiras, mas investiu. Foram atacadas e ainda foram a tempo”.

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