Domingo , 19 Novembro 2017
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PORQUÊ? – Paulo Bonifácio

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Porquê, em 1906, a revista mensal Serões dedicar tão extenso artigo, onde fala amplamente de Ovar?

“Porque motivo deixei eu, num Agosto torrido, as campinas de arrosaes do termo de Estarreja pela densa poeira das estradas que levam á villa de Ovar – essa assustadiça terreola que fugida ao oceano, estacou alli, dispersadamente, entre canaviaes sombrios e ralos pinhaes de chão areento?”

“Porque motivo, num invernoso Janeiro, desci do vagão e patinhei minhas sapatolas na enlameada gare de Ovar?; e, atravessando por entre saias ensacadas e viscosas de varinas maltrapilhas, cabeceando em lívidas caras, com dedadas de sombra, de homens encapuzados em burel, me atolei na lama antipathica dessa villa abafada em nevoeiro? Porque?”

“Porque me disseram que vivera ahi, havia anos – quarenta – um homem de espirito triste que amava a solidão e era meigo no convívio de almas simples e bondosas. Um idealista que sofria do mal de viver – elle que não encontrara na terra almas como a sua havia creado para amar. Esse homem era um escritor portuense, de corpo franzino, mãos estreitas, face pallida e olhar sem riso, que morrera precocemente, aos 32 annos, deixando romances escritos numa língua pobre e numa prosa comum, mas composto com tão afável simplicidade e tal harmonia, nas paisagens doces e nos caracteres suaves, que deles irradiava para o leitor a poesia das coisas vagas e delicadas, e também a do amôr romantizado que é a que melhor entende e de que mais se agrada o coração português. Esse homem era Julio Diniz.”

Foto: Estação de Ovar no passado. Por João Barbosa de Lima (1839 – 1867), baseado numa fotografia do estúdio Pinto & Ferreira. Fonte wikipedia

(Continua)

Anthero de Figueiredo in Serões
Fev. 1906

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