Opinião

Procissão das Cinzas. Uma procissão com três séculos – Sofia Vechina (I)

Em 1634, Urbano VIII, permitiu, por disposição geral, que a Ordem Terceira de São Francisco pudesse instalar-se em vilas e pequenas povoações, mas os Estatutos Gerais só foram publicados em 1686, por Inocêncio V. Contudo, em Ovar a primeira mesa da Ordem Terceira foi eleita no dia 3 de dezembro de 1660, no seguimento do impulso dado pelo sermão realizado na Igreja Matriz de Ovar em 1659 por Frei Luís de São Francisco, conhecido como frade Pinheiro, da Ordem dos Frades Menores do Convento do Porto.

Inicialmente sediada na Igreja Matriz de Ovar, a Ordem Terceira ter-se-á transferido em 1662 para a Capela de Nossa Senhora da Graça, na qual preserva até aos nossos dias um retábulo dedicado a São Francisco. Tomaram como seu padroeiro São Luís, rei de França, e estiveram ligados ao Convento de São Francisco do Porto até 1787.

Em 1780, a Ordem comprou, ao alfaiate Pedro de Campos, a Casa do Despacho, como assim era designada documentalmente, tratando-se de um prédio de rés-do-chão, localizado na Rua da Graça (atual Rua Gomes Freire), que serviria para arrecadar as alfaias religiosas da Ordem e garantir todos os serviços de secretariado. Em 1882 a Sala de Sessões, do dito edifício, adquire treze nichos para acondicionamento das imagens utilizadas na Procissão das
Cinzas e em 1942 é-lhe acrescentado um novo piso. Presentemente acumula a função de Casa-Museu de Arte Sacra.

A Ordem Terceira de São Francisco, como assim foi designada, internacionalmente, até à promulgação da Regra de Paulo VI (24 de junho de 1978), atualmente, Ordem Franciscana Secular, é a responsável por três das cinco procissões quaresmais em Ovar:

1. A Procissão das Cinzas, mais conhecida por Procissão dos Terceiros, que se realiza no segundo domingo da Quaresma.
2. A Procissão dos Farricolos ou dos Fogaréus, também designada do Ecce-Homo, do Terro-Terro, da Cana Verde ou dos Penitentes, realizada na Quinta-feira Santa, com origem em 1682, permitiu confissões públicas de muitos penitentes de cabeça tapada, porém, em 1804, esta prática foi proibida devido ao escárnio e mal dizer que supostos penitentes lhe incutiam.
3. A Via-sacra, profundamente ligada desde a sua origem aos franciscanos, em Ovar, percorre, na Sexta-feira Santa de manhã, as catorze cruzes presentes nas principais ruas do centro da cidade, correspondente ao percurso das sete Capelas da Irmandade dos Passos de Nosso Senhor Jesus Cristo, construídas em meados do século XVIII.
Na impossibilidade, dado o âmbito deste trabalho, de analisar todo o percurso histórico e artístico desta instituição, debruçar-nos-emos sobre a Procissão das Cinzas. (Continua)

Sofia Nunes Vechina
Licenciada em História da Arte, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Mestranda em História da Arte Portuguesa, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Investigadora e inventariante do património religioso do concelho de Ovar. Investigadora do CEPESE.
(Foto: Procissão em 1910 – Arquivo Municipal de Ovar)

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