Domingo , 24 Setembro 2017
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Professores do concelho dão a cara contra injustiças das colocações

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Residente em Esmoriz e com o marido a trabalhar no Porto, Cláudia Pinto viu-se colocada em Arganil, a 140 quilómetros de casa, forçada a reviver o que enfrentou há 14 anos, quando iniciou a profissão.

Com dois filhos, um deles “ainda em amamentação”, a professora diz-se confusa quanto ao que vai fazer, confessando à Lusa “jamais” ter imaginado que, 14 anos volvidos, “voltaria ao ponto de partida”.

“Sinto que está cada vez pior, não encontro nenhuma estabilidade. Adiei ao máximo ter filhos, sabia que nunca iria estar a 15 minutos da creche deles mas, mesmo sabendo que este ano ficaria pior, nunca pensei que fosse tanto”, lamentou.

Andreia e João, um casal de docentes do quadro e com muitos anos de serviço, ela de Física e Química e ele de Artes Visuais e Geometria, chegam à Escola Secundária Leal da Câmara, em Rio de Mouro. Foram 523 quilómetros numa viagem iniciada às 08.30 em casa, em Cortegaça, Ovar, que passou por Vila Nova de Paiva, onde João foi colocado, e tem nova paragem nos arredores de Lisboa, onde ficou Andreia. Gosta do ambiente da nova escola, mas está a centenas de quilómetros da sua residência. Além de todos os transtornos, os 1100 euros mensais dela e os 1200 dele não chegam para sustentar três casas. O que fazer? Exigir “justiça” junto do Ministério da Educação, dizem. Trezentos quilómetros para o regresso, um depósito de gasóleo não chega, mais portagens, jantam pelo caminho, que ao almoço comeram “umas coisas”. Entram em casa às 23.30.

Em declarações ao DN, diz que “se visse que os colegas menos graduados não ficaram mais perto de casa do que eu, conformava-me, mas muitos dos que estão atrás de mim ficarão melhor”, diz Andreia Avelar, há 18 anos no ensino. Não se queixa dos primeiros anos a lecionar, ficou relativamente perto da residência. As coisas complicaram-se a partir de 2012, mas suportou as deslocações para o Restelo e para Agualva-Cacém, com esperança de que se aproximasse do lar. E assim aconteceu: no ano passado ficou em Vila Nova de Gaia, a 12 minutos da habitação que entretanto o casal comprou. “Pensámos que tínhamos estabilizado”. Também pensaram que chegara o momento de ter um filho.

Na última quarta-feira foram lançados os restantes horários na chamada Reserva de Recrutamento 01, “horários que estavam nas minhas preferências/escolhas (mais perto da minha residência) foram dados a colegas com menor graduação do que a minha”, protesta João Tenreiro. A casa em Cortegaça foi renovada – João Tenreiro é arquiteto – para acolher toda a família. Ele é pai de uma adolescente, da qual tem a guarda partilhada. “Uma das razões por que optei pelo ensino foi também para poder estar mais tempo com a minha filha, participar na sua educação.”

A coordenadora do Sindicato dos Professores do Norte (SPN), Manuela Mendonça, explicou que na base da situação está a alteração de procedimento do Ministério da Educação do processo de colocação dos docentes.

“Ao contrário do que sucedeu nos últimos 11 anos, em que havia mais horários a concurso porque eram todos, os completos e incompletos, considerados ao mesmo tempo, este ano só os de 22 horas foram tidos em conta pelo ministério”, explicou.

O Bloco de Esquerda, representado pelo deputado Luís Monteiro, distribuiu um documento dirigido ao presidente da Assembleia da República, em que questiona a “alteração dos procedimentos do concurso”, o facto de “não ter sido publicitada” a alteração antes do concurso e para saber da “disponibilidade do ministério para resolver ou minorar” os problemas causados.

(Foto: DN)

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