CulturaSlider

Que comece a dança no Centro de Arte de Ovar

[themoneytizer id=”16574-1″]

A dança é uma das artes privilegiadas do Centro de Arte de Ovar e, esta sexta-feira, pelas 22 horas, sobe ao palco mais um espectáculo de excepcional qualidade, uma coprodução do CAO, no âmbito da Rede 5 Sentidos, “Lento e Largo” da dupla de coreógrafos e bailarinos Jonas e Lander.

A 24 de maio, “Brother” de Marco da Silva Ferreira chega ao Centro de Arte após ter passado por vários palcos do mundo. Em junho, no dia 15, a Companhia Paulo Ribeiro apresenta “Walkink with Kylián – Never Stop Searching”.

“Lento e Largo” teve a sua estreia no Festival Guidance 2019. Com um ambiente cénico baseado e influenciado pelo trabalho de Hieronymous Bosch, Jonas&Lander inscrevem performers robóticos e humanos para criar um apocalipse visual. Numa paisagem irreal, ambas as entidades irão socializar, dançar, beijar, ordenar e obedecer, de igual para igual. São explorados os limites de virtuosismo performativo, mais ou menos subtil, de cada performer.

A capacidade robótica de voar sobre a audiência contrasta com, por exemplo com a capacidade humana de beijar dilatando e esbatendo as fronteiras de acção de cada organismo. Estes robôs irão dar músculo a um universo absurdo vestindo e expondo materiais orgânicos como peles, escamas ou chifres inspirados na taxidermia pária de Enrique Gomez de Molina. Lento e Largo é uma qualidade específica da música clássica que descreve um determinado andamento e atmosfera inundados pela melancolia. A amplitude desta atmosfera influencia as acções e coreografias que podem transbordar do palco até os limites da sala.

“Brother” é uma criação para 7 intérpretes que estabelece uma relação de complementaridade com o anterior trabalho HU(R)MANO, que também esteve em palco no Centro de Arte de Ovar. Em ambos, o foco é a dança existente em contexto de grupo, mas descolam-se uma da outra nas referências temporais e nos processos de composição. Se em Hu(r)mano se abstractiza e se formaliza a dança contemporânea urbana, em Brother olho para uma ancestralidade comum e procuro pontos de afinidade e similaridade que sobreviveram às passagens geracionais e que estão reminiscentes nos corpos e na dança que ainda hoje se desenvolve.

“Brother” compõe-se através do mimetismo constante entre os intérpretes que é gerador de movimento, comportamentos e padrões. Desenvolve-se vocabulário não-verbal que se regenera e se transforma ao longo do tempo através de compromissos ou desbloquedores que individualmente cada um manifesta. Surgem e desvanecem pontes móveis entre o agora e o longínquo.

Paulo Ribeiro acredita que há coreógrafos que têm mão divina. Que revelam nas suas obras o que há de sobrenatural no humano e expõem essa revelação com uma evidência vital. Paulo Ribeiro acredita que o coreógrafo checo Jií Kylián é um anjo. Descobriu que a melhor maneira de se abeirar desse assombro seria dedicar-lhe uma peça, esta peça, Walking With Kylián. Never Stop Searching. Queria aproximar-se do homem por detrás da obra.

Mais: Queria aproximar-me da sensação que as suas peças me transmitem, dessa impressão de algo que se suspende no ar, uma linguagem mais esvoaçante, mais ágil e mais etérea. Ao mesmo tempo, tem uma densidade meio tribal, ritualística, e nesse sentido já se aproxima mais de mim. Jií Kylián nasceu na cidade de Praga em 1947 e é uma das referências maiores da dança mundial no século XX. Ao render-lhe tributo, Paulo Ribeiro parece olhar para o passado, mas se olharmos mais de perto percebemos que Walking With Kylián é uma peça onde o coreógrafo português não abdica do futuro. Ao caminhar com Kylián, ao trabalhar sobre as diferenças que os aproximam, Paulo Ribeiro dá mais um passo no sentido da sua própria reinvenção.

Artigos relacionados

Deixe uma resposta