Opinião

Uma outra experiência em meio escolar está a ganhar forma de livro

Depois do trabalho de compilação de textos que deu origem ao livro com o título “Vivências de uma comunidade escolar – partilhadas através da imprensa”, impresso em dezembro de 2012, uma outra experiência de intervenção em meio escolar, está a ganhar forma de livro com o título “Plataforma Moodle – Como espaço de debate entre as comunidades escolares”. Ambas as experiências, resultam ainda de uma realidade entretanto alterada pela evolução da rede escolar que deu lugar a um novo Agrupamento de Escolas de Ovar.

Este projeto, que reúne momentos de intervenção de uma comunidade escolar através de uma Plataforma Moodle. Trás à memória um período de grande afrontamento do então governo e ministério da educação aos profissionais docentes, mas curiosamente torna-se tão atual, quando com outro governo e outro ministro da educação, os docentes voltam a ser alvo de um não menos afrontamento, como representam as medidas de desvalorização da Escola Pública e de ataque à dignidade destes profissionais da educação, a quem Nuno Crato quer impor uma prova de avaliação, para já, dirigida a uma geração de professores que pela sua precariedade laboral, poderiam estar mais vulneráveis a tais objetivos que no final, visam essencialmente, deixar profissionais com menos de cinco anos de serviço, ainda que, muitos deles com mais de uma década de dedicação ao ensino, no desemprego como consequência dos cortes neste serviço público.

A introdução que justifica este novo projeto, que quer ver a luz do dia lá para Abril deste ano, e que tem prefácio da profª Theresa Jorge, que lecionou até à sua aposentação na Escola Básica António Dias Simões. Afirma que, “Esta é uma curiosa experiência de debate e intervenção cívica ensaiada em meio escolar, no espaço virtual proporcionado pela Plataforma “Moodle” do Agrupamento de Escolas de Ovar que foi iniciado surpreendentemente em torno do polémico e contestado modelo de Avaliação de Desempenho dos Docentes (ADD) durante o ano letivo 2008/2009.

Após o pontapé de saída dado no Conselho Pedagógico do Agrupamento com a proposta de suspensão do processo de Avaliação dos docentes e as repercussões que se seguiram nesta comunidade educativa, surgiu simultaneamente um “atrevido” desafio para se partilhar o espaço de debate na página do Agrupamento que nunca tinha atingido, e eventualmente ninguém esperaria que ganhasse tal forma e dimensão, mesmo que demasiado efémera. No entanto, tal espaço virtual em meio escolar, permitiu um importante envolvimento na intervenção e debate por parte de todos quantos quiseram assumir os seus pontos de vista, e assim os partilhar com a comunidade escolar, num momento, em que indiscutivelmente a participação ativa no âmbito do exercício de cidadania numa escola pública democrática está longe de ser uma prática coerente e exemplar.

Ainda que reconheça, que um dia se viria a sobrepor uma certa tendência para a necessidade de contenção nesta experiência, a verdade é que se foram partilhando pontos de vista, escrevendo, neste caso, muito do que ia inquietando a alma de profissionais, mesmo, como se afirmou também no “Moodle”, não se quisesse ficar a falar sozinho, mas tal acabaria por ser inevitável, remetidas rapidamente ao silêncio as vozes dos docentes que ousaram sem medo, exprimir opinião como algumas que aqui se recordam.

Naturalmente que não se pode concluir que a adesão dos docentes a debater uma temática que a si dizia essencialmente respeito, num espaço como o “Moodle” do Agrupamento (então com sede na Escola EB 2,3 António Dias Simões) tenha merecido uma numerosa participação. Ainda que a novidade que acabou por representar tal “atrevimento” na página virtual do Agrupamento, fosse seguida com curiosidade por toda a comunidade com acesso ao “Moodle”, que recebiam na sua caixa de correio eletrónico, todos os contributos e mensagens acrescentadas à polémica que tinha naturalmente como alvo o governo e o respetivo ministério da educação. A verdade é que este grupo de “corajosos”, que não temeram dar a cara, ficou limitado a um pequeno número de intervenientes, e tal como a própria evolução do processo, após manifestações, negociações, reformulações do modelo da ADD e inevitáveis divisões no seio deste grupo profissional, a participação diluiu-se e acabou por se esfumar. Perdeu-se assim a riqueza de um espaço que podia ser valorizado com a continuação do debate, tal como o tempo hoje continua a mostrar ser atual e necessário manter-se vivo, no exercício de cidadania, da democracia e da defesa da escola pública.

Toda esta experiência no seio da comunidade escolar se ficou indiscutivelmente a dever a uma extraordinária e decisiva “dica” lançada por um docente de forma muito acutilante, sob o título “Vamos lá conversar…”. Uma espécie de “manifesto” de inquietação que se veio a revelar decisivo para despoletar um animado debate, mas sobretudo, a suportar e a de certa forma, legitimar aquele espaço na Plataforma “Moodle” como um fórum aberto à participação de docentes e não docentes, mesmo sobre um tema que era essencialmente do interesse dos docentes, ainda que a defesa da democracia e da escola pública justificasse a intervenção de todos.

Assim, após um curto espaço de tempo em que alguns docentes entraram no fórum, foi-se, mesmo que de forma quixotesca, procurando insistir em não deixar cair tal “deixa”, como espaço de debate. Desde textos mais ou menos elaborados, aos escritos em “discurso” direto no “Moodle”, passando por recorrer a informação diversa e tentativas de pesquisas, ou ainda aos mails que se multiplicaram neste rico período de debate e argumentos sobre o modelo da ADD, que divulgavam “autenticas teses” a desmistificar o modelo de avaliação imposto, entre outras temáticas da educação. A tudo, um pouco se foi recorrendo para de certa forma, alimentar a curiosidade, que este espaço virtual despertou junto da comunidade educativa que a ele teve acesso.

As questões da democracia e do exercício de cidadania em meio escolar, há muito vêm merecendo atenção de especialistas e investigadores. Mas as mais recentes transformações, na escola pública, na sequência da implementação do novo Estatuto da Carreira Docente (ECD) que teve como ponto alto de indignação, o polémico modelo de ADD, acabou por contribuir decididamente para despertar os profissionais da educação para a realidade de um certo acomodamento no incentivo ao verdadeiro exercício de cidadania, pelo menos, de forma muito marcante ao longo do ano letivo 2008/2009 em que a luta contra tal modelo contestado, foi mais visível e determinante para uma certa “derrota” política na época, que os governantes nunca quiseram assumir, ainda que o sabor de um temporário recuo da tutela se tenha tornado demasiado amargo, transformados que foram em “bombos” da festa os pedagogos neste país, alvos fáceis de politicas de austeridade e suas consequências na degradação e precariedade laboral na escola pública, independentemente da alternância governativa.

Entre as muitas e variadíssimas experiências que se multiplicaram no país e marcaram profundamente o ano letivo 2008/2009, o Agrupamento de Escolas de Ovar viveu também intensamente o processo de contestação ao modelo de Avaliação. Uma corrente que rapidamente se alargou à participação da comunidade educativa através da Plataforma “Moodle”, que se transformou no palco privilegiado de debate e de testemunho das inquietações que transbordaram dos profissionais da educação, até aí aparentemente “amordaçados”.

Porque se trata de uma experiência merecedora de alguma reflexão, procura-se aqui, através desta compilação de participações no “Moodle”, estimular o interesse pelo aprofundamento de uma forma de intervenção em meio escolar, que foi partilhada por docentes e não docentes e acabou muito para além da temática inicial que deu origem a tal envolvimento da comunidade escolar. Ainda que se tenha de admitir, que por este mesmo facto, de ter ido para além do que lhe deu origem, tenha perdido algum interesse.

Uma conclusão que salta á vista de imediato nesta experiência, é que valeu a pena, porque vale sempre a pena contrariar o acomodamento ou a indiferença. Ainda que tenha voltado a imperar o silêncio profundo nos docentes, pelo menos neste capítulo, porque há muito deixaram de se voltar a pronunciar neste espaço que valia a pena insistir no debate democrático. Não restam dúvidas dos contributos dados também por este Agrupamento, através de variadíssimas iniciativas e ações, para ajudar a “derrotar” um modelo inicial de avaliação que veio dividir os professores e que foi assente em critérios e objetivos essencialmente economicistas, que nada veio contribuir para melhorar as políticas educativas e o sistema de ensino em Portugal.

Ainda que no decorrer desta forma de intervenção, se tenha manifestado a convicção de não querer ficar a falar sozinho, a verdade é que assim se acabou, mesmo demorando a tomar verdadeira consciência disso, bem como da recomendação da direção do Agrupamento, que foi feita no sentido de que tal espaço no “Moodle”, não fosse para alem do objetivo para que foi criada esta Plataforma, que visava potencializar o ensino e aprendizagem online por todos os atores do ensino básico e secundário, através da apropriação generalizada da Plataforma “Moodle”, como um sistema criado por Martin Dougiamar, que vem sendo desenvolvido em modelo de comunidade de voluntários, como aliás vinham funcionando tantos outros projetos em meio escolar.

Concluindo, as comunidades escolares do Agrupamento de Escolas de Ovar apropriaram-se conscientemente da Plataforma “Moodle” para potencializar não só o ensino e aprendizagens, mas também o exercício de cidadania e o debate de ideias entre si, como um bom exemplo de partilha, incluindo, o de diferentes sentimentos e estados de alma que o tempo não atenuou, bem pelo contrário…”
José Lopes

01/01/2014

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