Segunda-feira , 18 Junho 2018
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Vestidos feitos na Murtosa ajudam a proteger meninas africanas (DA)

Vestidos feitos na Murtosa ajudam a proteger meninas africanas (DA)

Maria do Rosário Cruz não segura as lágrimas só de imaginar todas aquelas centenas de meninas africanas, de sorriso estampado no rosto, com os vestidos feitos na Murtosa pelo grupo local do projecto “Dress a Girl Around the World”.

“Não vou aguentar as emoções”, diz ela, comovida, enquanto Carminda Matos não esconde o entusiasmo: “Acalentamos o sonho de ir a África entregar, em mão, os vestidinhos feitos aqui na Murtosa”.

A verdade é que estas duas mulheres, amigas há mais de 45 anos, nunca pensaram que volvido apenas um ano após a criação do grupo, este fosse o que mais vestidos faz a nível nacional. Carminda Matos, orgulhosa, aponta algumas razões para este sucesso do qual beneficiam muitas meninas que vivem abaixo do limiar de pobreza em vários países de África. Há muitos grupos de voluntárias em Portugal que colaboram com a organização “Dress a Girl Around the World”, mas todos se debatem com a falta de tecidos para transformar em lindos vestidos.

“O nosso caso é diferente, porque os emigrantes, em especial dos Estados Unidos da América, estão sempre a enviar tecidos, linhas, fitas e botões decorativos, elásticos e centenas de cuequinhas para podermos trabalhar”, desvenda Carminda, sob o olhar atento de Maria do Rosário Silva que transformou a garagem da sua residência, na Torreira, para acomodar uma máquina de corte e cose e outra de costura. “Quando pensei em criar este grupo, convidei logo a Maria do Rosário que é filha de mãe modista e sempre teve muito jeito para costurar”, conta Carminda, garantindo que quando precisa de material basta-lhe fazer um apelo na página do grupo no Facebook para logo “choverem tecidos, botões e elásticos”.

Carminda e Maria do Rosário estudaram juntas, mas depois a Maria emigrou para os Estados Unidos da América (EUA), casou e mudou-se para o Canadá. “Regressou há ano e meio a Portugal, sensivelmente, reatando a nossa amizade” que foi fundamental para o sucesso do grupo. “Aceitou de coração aberto o meu primeiro convite e comigo abraçou a causa”, conta Carminda, confessando que nunca pensou “atingir tamanho sucesso”. A boa vontade dos murtoseiros, principalmente, e dos nossos emigrantes nos Estados Unidos e do Canadá tem sido fundamental, que têm respondido estrondosamente”.

A importância da etiqueta
Depois das duas terem decidido apontar agulhas ao projecto, a primeira reunião de costura solidária decorreu logo em setembro do ano passado, no Centro Paroquial da Murtosa, com cerca de 20 pessoas. “As pessoas vão aparecendo e ficam apaixonadas pelo projecto, pois sabemos este é o primeiro vestido novo que essas meninas recebem na vida e, muitas vezes, será o primeiro e único”, vinca Carminda.

A confecção dos vestidos é feita com materiais doados. Tendo os vestidos, as duas procuraram encontrar uma retrosaria que as ajudasse, tendo encontrado em Pardelhas uma que se prontificou para ser “o nosso ponto de entrega/recolha”. Ali deixam kits, contendo cada um, um tecido já cortado para um vestido, tecido para o bolso e forro, fita ou manga e a etiqueta. Assim, quando as voluntárias chegam é só costurar o vestido”.

Carminda alerta para a importância da etiqueta. “Tem uma função especial, por isso é costurada em cada vestido em lugar visível e os pastores das igrejas locais garantem que se regista uma redução no índice de violência sexual contra as meninas”. Eles acreditam que os predadores não arriscam, ao pensar que as meninas são protegidas por uma ONG e afastam-se delas”. Sendo meninas até aos 12 anos as principais destinatárias dos vestidos costurados pelas voluntárias do projecto “Dress a Girl Around the World” que, por viverem em comunidades muito pobres, são muitas vezes vítimas de agressão sexual. Uma das principais missões do projecto fundado pela americana Rachel Eggum Cinader, em 2009, é precisamente proteger o corpo destas crianças, afastando assim os predadores sexuais. Além dos vestidos, as meninas recebem dentro de cada bolso umas cuecas. Ao lado dos vestidos, agora também já se fazem calções para os rapazes (shorts).

Quanto ao sonho de ir a África, Carminda acredita que possam surgir empresas com vontade de patrocinar esta viagem, “concretizando este desejo”.

Embaixadora nacional elogia
Em Portugal, o projecto “Dress a Girl Around the World” já vestiu 6.247 meninas desfavorecidas de 12 países em África. A brasileira Vanessa Campos, 49 anos, é a embaixadora da organização em Portugal. Em contacto com o nosso jornal, não regateia elogios ao grupo da Murtosa: “Tem feito um trabalho impecável, destacando-se do todo nacional, por ser dos mais activos e produtivos, pois tem facilidade em arranjar tecidos”.

Vanessa conta que já se deslocou a África para proceder à entrega de muitos vestidos. “As meninas adoram, não param de sorrir e não querem tirá-los”. Além dos vestidos, as meninas recebem dentro de cada bolso umas cuecas. Vanessa explica que “não faz sentido mandar um vestido se elas não têm cuequinhas. Muitas nunca viram uma cuequinha na vida”. A embaixadora do “Dress a Girl Around The World” conta que “a última entrega foi em São Tomé e Príncipe e a carinha das meninas quando viram as cuecas é fantástica. Pela expressão, elas não sabiam para que servia aquilo”.

Aliás, para fazer prova da entrega, normalmente tira algumas fotos das meninas envergando os seus vestidos novos, felizes, rindo muito. “Da última vez, as meninas correram para dentro da escola após tirarmos a foto, pois pensavam que o vestido era só para foto”. “Ficaram imensamente felizes quando lhes dissemos que não, que era para elas, para sempre”. É por isso que é normal ver quem costura comover-se ao ouvir as histórias das entregas dos vestidos.

(ler notícia integral in Diário de Aveiro)

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