PolíticaSlider

A carta do gerente Miguel B. a pedir a intervenção da PIDE

É bem conhecido que, durante o Estado Novo, a PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado, a polícia política do regime), serviu-se de vários mecanismos de repressão para perseguir opositores e limitar a liberdade de expressão. No entanto, essa não foi a única forma de relacionamento com o povo português. Os registos demonstram casos de delação e outras interações com a PIDE por parte de cidadãos comuns, muitas vezes (mas não sempre) instrumentalizando-a para cumprir interesses pessoais ou satisfazer necessidades básicas do dia-a-dia.

Duncan Simpson, investigador britânico do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, mergulhou nos arquivos e encontrou 603 cartas de denúncia, 493 cartas de candidatura e 16 pedidos à PIDE. No livro “Tenho o Prazer de Informar o Sr. Director… — Cartas de Portugueses à PIDE (1958-1968)”, editado pela BookBuilders e lançado este mês, revela o que dizem essas missivas e de que forma os portugueses se serviram da PIDE.
As relações entre a PIDE e o mundo empresarial têm sido objecto de alguma produção historiográfica. Estes trabalhos focam-se principalmente na acção de vigilância e repressão da PIDE, exercida seja contra os empresários menos alinhados com o regime, seja contra aqueles trabalhadores que lutavam para melhores condições de trabalho e direitos laborais – neste caso, frequentemente a pedido das empresas, que pagavam à PIDE o “serviço”.
O corpus arquivístico contém um exemplo claro dessa dinâmica repressiva passado em Ovar. Em outubro de 1963, o gerente da empresa Miguel B. – Fábrica de Descasque de Arroz, em Ovar, pediu a intervenção da PIDE após constatar uma “tentativa de sabotagem” num dos motores da fábrica.
“Desejaríamos”, precisava, “que não voltassem a repetir-se actos desta natureza, sempre reprováveis mas mais reprováveis ainda na ocasião em que todos os esforços (…) se congrassam em volta d’Aquele [sic] que (…) enfrenta todas as ameaças para defender a integridade territorial de Portugal, cubiçada (…) pela escória internacional”. A PIDE respondeu positivamente ao pedido, mandando o Chefe de Brigada José Carvalho investigar o caso. Embora o incidente se revelasse menos sério do que inicialmente “temido” – por motivos que não precisam de ser detalhados aqui –, a simples presença da PIDE teve o impacto desejado. Como o admitiu abertamente o próprio gerente da empresa, “de qualquer modo, a intervenção desta Polícia não deixará de ter salutares efeitos preventivos”.

“Tenho o Prazer de Informar o Senhor Director… Cartas de Portugueses à PIDE (1958-1968)”, de Duncan Simpson promete, e cumpre, na apresentação de uma abordagem diferente a um tema ainda hoje relativamente sensível na sociedade portuguesa, a PIDE, a polícia política do Estado Novo. Sem colocar em causa o essencial do que conhecemos do tema, dá-nos uma dimensão diferente da realidade na relação da PIDE com a população comum, não numa perspectiva de cima para baixo, que normalmente conhecemos, enquanto entidade opressora e temida, mas debaixo para cima, nas várias formas como os cidadãos comuns de relacionavam, e aproveitavam daquela entidade.

Artigos Relacionados

Deixe uma resposta

Botão Voltar ao Topo