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	<title>Paulo Amaral, autor em OvarNews</title>
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	<description>Actualidade Vareira</description>
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	<title>Paulo Amaral, autor em OvarNews</title>
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		<title>Aprender a ler antes dos 6 anos? &#8211; Por Paulo Freitas do Amaral</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Amaral]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 11 Aug 2026 16:13:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#160; Há uma mudança silenciosa a acontecer na educação portuguesa que merece muito mais atenção do que aquela que tem recebido, porque, sem alterar necessariamente a idade em que uma criança entra na escola ou o momento em que começa formalmente a aprender a ler, está a modificar a forma como olhamos para os anos &#8230;</p>
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<p>Há uma mudança silenciosa a acontecer na educação portuguesa que merece muito mais atenção do que aquela que tem recebido, porque, sem alterar necessariamente a idade em que uma criança entra na escola ou o momento em que começa formalmente a aprender a ler, está a modificar a forma como olhamos para os anos que antecedem o primeiro ciclo e, sobretudo, para aquilo que pode e deve acontecer durante o pré-escolar.</p>
<p>Durante muito tempo, pareceu existir uma fronteira bastante clara: antes dos seis anos estava a infância, depois dos seis começava a escola e, com ela, a aprendizagem formal da leitura e da escrita. A criança podia ouvir histórias, brincar com livros, desenhar, cantar e desenvolver a linguagem, mas tudo isso era frequentemente encarado como uma preparação quase informal para aquilo que realmente começaria no primeiro ano de escolaridade. Hoje, porém, a própria política educativa portuguesa começa a olhar para essa preparação de outra forma, reconhecendo que a aprendizagem da leitura não começa necessariamente quando a criança aprende as primeiras letras, mas muito antes, através de um conjunto de competências linguísticas e de experiências com a linguagem escrita que se vão acumulando durante os primeiros anos de vida.</p>
<p>É aqui que surge o conceito de literacia emergente, que pode parecer uma expressão técnica destinada apenas a educadores e investigadores, mas que traduz uma ideia bastante simples: uma criança começa a construir as bases da leitura antes de conseguir ler formalmente. O contacto com os livros, a audição de histórias, o desenvolvimento do vocabulário, a capacidade de reconhecer sons, brincar com rimas, compreender que aquilo que se diz pode ser representado através da escrita e perceber progressivamente que as letras possuem uma relação com os sons da linguagem constituem experiências que não acontecem de repente no dia em que a criança entra no primeiro ano.</p>
<p>Em Portugal, esta mudança já encontra expressão concreta em programas e orientações recentes. O Plano Nacional de Leitura 2027 apoia o PROL, Programa de Literacia Emergente, que trabalha com crianças até aos seis anos, enquanto a Rede de Bibliotecas Escolares tem vindo igualmente a promover a literacia emergente e a defender o contacto precoce e continuado com livros, histórias, letras, sons e diferentes formas de linguagem escrita. A questão deixa, portanto, de ser apenas uma opinião de determinado professor ou de determinado pai mais preocupado com a educação dos filhos e passa a integrar uma visão institucional sobre aquilo que deve ser feito antes da aprendizagem formal da leitura.</p>
<p>Mas há aqui uma distinção que importa fazer, porque falar em aprender a ler antes dos seis anos pode facilmente ser interpretado como uma defesa da escolarização cada vez mais precoce das crianças, e não é disso que se trata. Não defendo que uma criança de quatro anos deva passar a manhã sentada diante de fichas de leitura, nem que os jardins de infância devam transformar-se em pequenas escolas primárias onde se antecipam conteúdos apenas para que os alunos cheguem ao primeiro ano aparentemente mais adiantados do que os outros.</p>
<p>O que está em causa é bastante diferente e, na minha opinião, muito mais importante: perceber que brincar também pode ser aprender e que uma criança pode desenvolver competências fundamentais para a leitura sem que ninguém lhe esteja a dar uma aula formal de leitura.</p>
<p>Quando uma criança de quatro ou cinco anos ouve diariamente uma história, aprende palavras novas, tenta contar aquilo que ouviu, reconhece o seu nome escrito, percebe que determinada palavra começa pelo mesmo som de outra, brinca com rimas ou começa a distinguir letras que vê repetidamente, não está simplesmente a passar o tempo enquanto espera pela escola. Está a construir ferramentas que serão posteriormente utilizadas na aprendizagem da leitura e da escrita.</p>
<p>Esta realidade obriga-nos também a olhar de outra maneira para aquilo que acontece dentro das famílias, porque a preparação para a leitura não depende exclusivamente da escola e começa muito antes de uma criança se sentar pela primeira vez numa carteira. Uma casa onde existem livros, onde os adultos conversam com as crianças, onde se lê uma história antes de dormir, onde se explicam palavras desconhecidas e onde existe liberdade para perguntar e descobrir é também um espaço de aprendizagem, ainda que ninguém esteja a utilizar manuais escolares ou a dar uma aula.</p>
<p>E esta questão torna-se particularmente importante quando pensamos nas desigualdades educativas, porque nem todas as crianças chegam ao primeiro ano com a mesma relação com a linguagem. Há crianças que cresceram rodeadas de livros, que ouviram histórias desde pequenas, que tiveram adultos disponíveis para conversar e explicar palavras e que chegam à escola já familiarizadas com aquilo que significa abrir um livro e acompanhar uma narrativa; outras chegam exactamente à mesma sala de aula tendo tido muito menos contacto com esse universo, não por falta de capacidade, mas porque tiveram oportunidades diferentes.</p>
<p>É por isso que a discussão sobre a literacia antes dos seis anos não deveria ser apresentada como uma competição entre crianças, em que uns pais procuram que os filhos leiam aos quatro anos e outros defendem que nenhuma letra deveria ser apresentada antes da escola. A questão verdadeiramente importante é garantir que todas as crianças tenham acesso às experiências que lhes permitem chegar ao primeiro ano mais preparadas para aprender, independentemente da família onde nasceram ou dos recursos económicos e culturais existentes em casa.</p>
<p>Talvez seja também aqui que Portugal tenha uma oportunidade para repensar algumas das suas prioridades educativas.</p>
<p>Temos discutido durante anos os resultados dos alunos na leitura, a falta de hábitos de leitura, as dificuldades de compreensão dos textos e a necessidade de melhorar o ensino do Português, mas muitas vezes concentramos a discussão no momento em que o problema já se tornou evidente, quando a criança está no primeiro ciclo ou mesmo vários anos depois. Talvez seja necessário começar a olhar para trás e perguntar o que aconteceu antes de essa criança chegar à escola, que contacto teve com livros, que vocabulário desenvolveu, quanto ouviu falar, quantas histórias ouviu e que relação construiu com a linguagem.</p>
<p>A verdade é que uma criança não chega ao primeiro ano como uma folha em branco à espera de receber a primeira aula de leitura. Chega com uma história linguística que pode ser extraordinariamente rica ou, pelo contrário, bastante limitada, e essa diferença pode ter consequências no modo como irá enfrentar aquilo que para o professor será uma aprendizagem nova, mas que para algumas crianças representa apenas a continuação de um universo que já conhecem.</p>
<p>Por isso, talvez devêssemos deixar de discutir apenas a idade em que uma criança deve aprender formalmente a ler e começar a discutir a idade em que deve começar a ter as melhores condições para aprender a ler.</p>
<p>São coisas diferentes.</p>
<p>Ensinar formalmente demasiado cedo pode ser um erro, sobretudo se significar transformar a infância numa sucessão de exercícios e obrigações; começar demasiado tarde a proporcionar experiências de linguagem e de contacto com os livros também pode ser um erro, sobretudo quando sabemos que os primeiros anos são fundamentais para o desenvolvimento linguístico e para a construção de hábitos que acompanharão a criança durante toda a sua vida escolar.</p>
<p>A solução não estará, portanto, em transformar uma criança de quatro anos num aluno do primeiro ano, mas em garantir que uma criança de quatro anos tenha aquilo de que precisa para chegar ao primeiro ano preparada para ser aluna.</p>
<p>É esta, talvez, a verdadeira novidade que começa a ganhar força em Portugal: não antecipar a escola, mas antecipar a atenção que damos à aprendizagem.</p>
<p>E quando se fala em aprender a ler antes dos seis anos, talvez seja precisamente isso que devamos entender.</p>
<p>Não significa que todas as crianças devam saber ler aos quatro ou cinco anos, nem que os jardins de infância tenham de abandonar o brincar para começar a ensinar conteúdos escolares de forma acelerada. Significa reconhecer que a leitura não nasce no primeiro dia do primeiro ano, que as palavras que uma criança ouviu durante os anos anteriores contam, que os livros que teve à sua disposição contam, que as histórias que lhe leram contam, que o vocabulário que adquiriu conta e que tudo aquilo que foi construindo antes de saber ler terá influência na forma como irá aprender a fazê-lo.</p>
<p>Portugal parece finalmente estar a olhar para esta realidade com maior atenção.</p>
<p>A questão que agora devemos colocar é se teremos coragem para levar essa mudança até às suas últimas consequências, garantindo que a literacia emergente deixa de ser apenas uma expressão utilizada em documentos e programas educativos e passa a fazer parte da cultura de todas as famílias, de todas as creches, de todos os jardins de infância e, sobretudo, daquilo que entendemos ser a primeira grande preparação de uma criança para o conhecimento.</p>
<p>Porque talvez a aprendizagem da leitura não comece quando a criança consegue ler a primeira palavra.</p>
<p>Talvez comece muito antes, no momento em que alguém lhe abre um livro e lhe mostra que, dentro daquelas páginas, existem palavras capazes de contar uma história.</p>
<p><a href="https://www.ovarnews.pt/wp-content/uploads/2025/05/Paulo-Freitas-Amaral-Prof.jpg"><img decoding="async" class="alignleft size-full wp-image-92759" src="https://www.ovarnews.pt/wp-content/uploads/2025/05/Paulo-Freitas-Amaral-Prof.jpg" alt="" width="860" height="460" srcset="https://www.ovarnews.pt/wp-content/uploads/2025/05/Paulo-Freitas-Amaral-Prof.jpg 860w, https://www.ovarnews.pt/wp-content/uploads/2025/05/Paulo-Freitas-Amaral-Prof-300x160.jpg 300w, https://www.ovarnews.pt/wp-content/uploads/2025/05/Paulo-Freitas-Amaral-Prof-768x411.jpg 768w" sizes="(max-width: 860px) 100vw, 860px" /></a><br />
Paulo Freitas do Amaral, Professor e Autor</p>
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		<title>Até quando sobreviverá Portugal na bandeira de Ceuta? &#8211; Por Paulo Freitas do Amaral</title>
		<link>https://www.ovarnews.pt/ate-quando-sobrevivera-portugal-na-bandeira-de-ceuta-por-paulo-freitas-do-amaral/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Paulo Amaral]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 02 Aug 2026 16:07:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Ceuta voltou a ocupar as manchetes. A crise migratória, a pressão sobre uma das fronteiras externas da União Europeia e as tensões diplomáticas colocaram novamente aquela pequena cidade africana no centro da atualidade. Contudo, entre imagens de vedações, patrulhas e embarcações, há um pormenor que passa despercebido à esmagadora maioria dos portugueses. Sobre os edifícios oficiais de Ceuta continua a tremular uma bandeira que guarda, há mais de seis séculos, uma das mais extraordinárias memórias da História de Portugal.</p>
<p>Talvez muitos se surpreendam ao descobrir que aquela bandeira conserva ainda o escudo português e as cores da antiga bandeira de Lisboa. O preto e o branco que hoje identificam Ceuta não foram escolhidos por acaso. Recordam a bandeira da cidade de Lisboa, levada pela grande armada de D. João I que, em agosto de 1415, partiu do Tejo rumo ao Norte de África para conquistar a cidade. A memória dessa expedição ficou perpetuada na própria bandeira de Ceuta, como se o tempo tivesse decidido conservar um testemunho silencioso do início da expansão portuguesa.</p>
<p>Foi dali que começou uma das maiores aventuras da História da Humanidade.</p>
<p>Quando D. João I decidiu atacar Ceuta, não estava apenas a planear uma campanha militar. Estava a abrir uma nova etapa na História de Portugal. Acompanhavam-no os infantes D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique, jovens príncipes que encontrariam naquela expedição uma experiência decisiva para o futuro do reino. O cronista Gomes Eanes de Zurara descreve o entusiasmo das tropas, a coragem dos combatentes e a rapidez com que a cidade caiu nas mãos portuguesas. Aqueles homens dificilmente imaginariam que estavam a escrever o primeiro capítulo de uma epopeia que levaria Portugal aos quatro cantos do mundo.</p>
<p>Ceuta transformou-se na primeira grande conquista ultramarina portuguesa. Muito antes de Vasco da Gama chegar à Índia, de Cabral avistar o Brasil ou das naus portuguesas alcançarem o Japão, foi naquela cidade africana que Portugal começou a afirmar uma vocação marítima e universal sem paralelo na Europa do seu tempo.</p>
<p>Mas essa conquista teve um preço elevadíssimo.</p>
<p>Durante mais de dois séculos, Ceuta exigiu homens, navios, armas, alimentos e recursos financeiros. Manter uma praça portuguesa em território africano implicava um esforço permanente, quase sempre esquecido quando se fala da expansão marítima. Gerações de portugueses combateram nas suas muralhas, perderam familiares e viveram convencidas de que defender Ceuta era defender o próprio reino.</p>
<p>Nenhuma figura simboliza melhor esse sacrifício do que o Infante D. Fernando. Capturado após a expedição a Tânger, permaneceu durante anos em cativeiro porque Portugal recusou entregar Ceuta em troca da sua libertação. O reino preferiu perder um príncipe a perder a cidade conquistada por D. João I. O Infante Santo morreria longe da pátria, tornando-se um dos maiores símbolos de fidelidade e abnegação da História portuguesa.</p>
<p>Décadas mais tarde, Luís de Camões transformaria em poesia a grande epopeia nacional. Embora <em>Os Lusíadas</em> celebrem sobretudo a viagem de Vasco da Gama, a verdade é que essa epopeia começou muito antes. Começou em Ceuta. Sem a conquista de 1415 dificilmente se compreenderia o impulso que conduziu Portugal ao longo da costa africana, ao cabo da Boa Esperança, ao Índico, ao Brasil e ao Extremo Oriente. Ceuta foi o primeiro degrau da aventura que Camões haveria de eternizar.</p>
<p>Também D. Sebastião encontraria em terras do Norte de África o seu destino trágico. Em Alcácer Quibir, não muito longe de Ceuta, desapareceu o jovem rei cuja morte mergulhou Portugal numa das maiores crises da sua História. A partir desse momento, o sonho africano iniciado por D. João I conhecia o seu episódio mais dramático. A perda da independência em 1580 acabaria por alterar profundamente o destino de Ceuta.</p>
<p>Quando Portugal recuperou a independência em 1640, a cidade decidiu permanecer fiel à Coroa espanhola. A soberania portuguesa terminava, mas a memória não. O escudo português permaneceu na bandeira e o preto e o branco da antiga bandeira de Lisboa continuaram a recordar a armada que atravessou o estreito de Gibraltar em 1415. É raro encontrar na História um símbolo oficial que tenha sobrevivido durante mais de seis séculos à mudança de soberania.</p>
<p>Hoje, quando as câmaras de televisão mostram Ceuta como um dos principais pontos de entrada de migrantes em território europeu, quase ninguém repara que aquela bandeira continua a contar uma história muito diferente. Conta a história de um pequeno reino que ousou atravessar o mar, iniciar a expansão ultramarina e mudar para sempre o curso da História mundial. Conta a história de reis, infantes, marinheiros, soldados, cronistas e poetas que fizeram daquela cidade o primeiro capítulo da extraordinária aventura portuguesa.</p>
<p>Até quando sobreviverá Portugal na bandeira de Ceuta? Ninguém o sabe. A História ensina-nos que nenhum símbolo é eterno. As bandeiras mudam, os escudos transformam-se e as identidades evoluem ao longo dos séculos. Mas, enquanto o escudo português permanecer ao centro daquela bandeira e enquanto o preto e o branco da antiga Lisboa continuarem a desafiar o tempo, Ceuta recordará ao mundo que foi ali, nas muralhas daquela cidade africana, que Portugal iniciou uma das mais extraordinárias epopeias da História da Humanidade. E há memórias que, mesmo quando deixam de pertencer a um país, passam definitivamente a pertencer à História.</p>
<p><a href="https://www.ovarnews.pt/wp-content/uploads/2025/12/Paulo-Freitas-do-Amaral.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft  wp-image-97798" src="https://www.ovarnews.pt/wp-content/uploads/2025/12/Paulo-Freitas-do-Amaral-1024x456.jpg" alt="" width="312" height="139" srcset="https://www.ovarnews.pt/wp-content/uploads/2025/12/Paulo-Freitas-do-Amaral-1024x456.jpg 1024w, https://www.ovarnews.pt/wp-content/uploads/2025/12/Paulo-Freitas-do-Amaral-300x134.jpg 300w, https://www.ovarnews.pt/wp-content/uploads/2025/12/Paulo-Freitas-do-Amaral-768x342.jpg 768w, https://www.ovarnews.pt/wp-content/uploads/2025/12/Paulo-Freitas-do-Amaral.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 312px) 100vw, 312px" /></a></p>
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<p><em><strong>Paulo Freitas do Amaral, </strong></em><strong>Professor, Historiador e Autor</strong></p>
<p>O conteúdo <a href="https://www.ovarnews.pt/ate-quando-sobrevivera-portugal-na-bandeira-de-ceuta-por-paulo-freitas-do-amaral/">Até quando sobreviverá Portugal na bandeira de Ceuta? &#8211; Por Paulo Freitas do Amaral</a> aparece primeiro em <a href="https://www.ovarnews.pt">OvarNews</a>.</p>
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		<title>As funções dos anéis de brasão ao longo da História &#8211; Por Paulo Freitas do Amaral</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Amaral]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 01 Jul 2026 21:48:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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<p>Os anéis de brasão, frequentemente designados por anéis sinete, constituem um dos objetos mais densos de significado simbólico e jurídico da história europeia. A sua relevância ultrapassa largamente a dimensão ornamental, inserindo-se num universo em que o poder, a identidade familiar e a legitimidade social se materializavam em sinais visíveis e duradouros. Numa época em que a escrita era privilégio de poucos e a autoridade se afirmava através de símbolos, o anel de brasão assumiu-se como um verdadeiro prolongamento da pessoa e da sua posição na ordem social.</p>
<p>A origem destes anéis remonta à Antiguidade, quando selos gravados eram utilizados para marcar bens e autenticar atos. Contudo, foi sobretudo na Idade Média que o anel de brasão adquiriu o seu significado pleno. Numa sociedade estruturada em torno da linhagem, da hierarquia e do costume, o brasão gravado no anel representava não apenas um indivíduo, mas uma família inteira, a sua história, os seus direitos e as suas pretensões. Ao ser pressionado sobre a cera quente de um documento, o anel não confirmava apenas a autenticidade do texto: afirmava a autoridade de quem o emitia e vinculava juridicamente a sua vontade.</p>
<p>O valor do anel de brasão residia, assim, na sua função de autenticação e na confiança coletiva depositada no símbolo que transportava. A posse do anel equivalia, em muitos contextos, à posse do poder. Por essa razão, o seu uso era reservado a reis, nobres, altos funcionários e dignitários eclesiásticos, para quem o sinete funcionava como instrumento indispensável do exercício da autoridade. O anel tornava-se, desse modo, inseparável da pessoa, confundindo-se com a sua identidade pública.</p>
<p>É neste quadro que se compreende o costume, hoje estranho aos olhos contemporâneos, de destruir o anel de brasão aquando da morte do seu titular. Quando o anel estava ligado a um cargo e não apenas a uma linhagem, a sua destruição simbolizava o fim definitivo da autoridade pessoal do falecido. Mais do que um gesto ritual, tratava-se de uma precaução jurídica e política, destinada a impedir que o selo continuasse a ser utilizado indevidamente. A quebra do anel marcava, assim, a cessação do poder e a necessidade de uma nova legitimação.</p>
<p>Diversa era a situação quando o anel de brasão pertencia à esfera familiar. Nestes casos, a regra da primogenitura impunha-se como princípio organizador da transmissão simbólica. O anel passava, quase sempre, para o primogénio, não apenas como objeto de valor material, mas como sinal da continuidade da casa e da responsabilidade de representar a família. Herdar o anel significava herdar um nome, uma memória e uma obrigação moral para com os antepassados e os descendentes.</p>
<p>Este mecanismo de transmissão evitava a dispersão dos símbolos heráldicos e assegurava a unidade da representação familiar. O primogénio tornava-se depositário de um legado que não lhe pertencia em exclusivo, mas que lhe era confiado para preservação. O anel de brasão funcionava, assim, como elo visível entre gerações, reforçando a ideia de permanência num mundo marcado pela instabilidade.</p>
<p>Com o advento da modernidade, da burocracia escrita e, mais tarde, das formas contemporâneas de autenticação, os anéis de brasão perderam progressivamente a sua função prática. Contudo, não perderam o seu significado simbólico. Permanecem como testemunhos materiais de uma época em que o direito, o poder e a identidade se exprimiam através de sinais concretos e duráveis. Ainda hoje, enquanto objetos heráldicos ou joias de tradição familiar, evocam uma conceção do mundo em que o símbolo não era mero ornamento, mas expressão visível da ordem social e da continuidade histórica.</p>
<p><em><strong>Paulo Freitas do Amaral</strong></em></p>
<p><em>Professor, Historiador e Autor</em></p>
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		<title>A amizade entre D. Afonso III de Portugal e São Luís, rei de França &#8211; Por Paulo Freitas do Amaral</title>
		<link>https://www.ovarnews.pt/a-amizade-entre-d-afonso-iii-de-portugal-e-sao-luis-rei-de-franca-por-paulo-freitas-do-amaral/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Paulo Amaral]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 08 May 2026 20:32:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A amizade entre D. Afonso III de Portugal e São Luís IX de França é um dos episódios mais luminosos da história medieval europeia. Não nasceu de alianças diplomáticas, mas de um vínculo humano e espiritual tecido na infância, sob o olhar atento de uma mulher de fé e inteligência rara: a rainha Branca de &#8230;</p>
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<p>A amizade entre D. Afonso III de Portugal e São Luís IX de França é um dos episódios mais luminosos da história medieval europeia. Não nasceu de alianças diplomáticas, mas de um vínculo humano e espiritual tecido na infância, sob o olhar atento de uma mulher de fé e inteligência rara: a rainha Branca de Castela.</p>
<p>Quando o jovem Afonso, filho de D. Afonso II de Portugal e de D. Urraca de Castela, se viu obrigado a procurar refúgio em França, foi recebido pela corte de Paris como um parente distante, mas depressa se tornou parte da família real. Branca de Castela, mãe de Luís IX e, por casamento, madrasta de Afonso, acolheu-o com ternura. A rainha, cuja devoção a São Francisco de Assis marcava o ritmo espiritual da corte, educou ambos os rapazes no mesmo espírito de oração, disciplina e serviço.</p>
<p>Afonso e Luís cresceram juntos. Reza a tradição que brincavam nos jardins do palácio, aprendendo desde cedo que a nobreza não se media apenas por títulos, mas pela virtude. Entre os dois formou-se uma amizade serena e profunda, marcada pela admiração e pela partilha de ideais. Luís, que mais tarde seria canonizado, deixava já entrever a pureza de caráter e o amor à justiça que definiriam o seu reinado. Afonso, mais reservado e atento, observava e aprendia.</p>
<p>Quando regressou a Portugal, em 1248, para assumir o trono deixado vago pela deposição do irmão Sancho II, D. Afonso trouxe consigo o exemplo do rei francês, com quem partilhara a juventude. O modelo de Luís IX — o monarca que servia Deus através da lei, da justiça e da moderação — tornou-se inspiração para o novo rei português. No modo de governar, na forma prudente com que consolidou o poder e no respeito pela Igreja, reconhece-se a marca da convivência com São Luís.</p>
<p>Mas há uma herança ainda mais visível: a espiritualidade franciscana. Branca de Castela, grande devota de São Francisco, mantinha estreita ligação com os frades menores, e o jovem Afonso nunca esqueceu essa influência. Quando empreendeu a conquista e a integração do sul do reino, levou consigo não apenas soldados, mas também os franciscanos. Foram eles quem acompanharam a expansão para o Alentejo e o Algarve, fundando conventos, pregando a paz e a reconciliação, e levando a luz da fé às novas terras portuguesas.</p>
<p>O reinado de D. Afonso III refletiu assim uma síntese rara entre política e santidade, entre razão de Estado e caridade cristã. A amizade de infância com São Luís de França e a educação sob Branca de Castela deram-lhe um sentido moral do poder que poucos príncipes do seu tempo possuíram. Ambos compreenderam que reinar é servir, e que a grandeza de um rei mede-se pela justiça e pela misericórdia.</p>
<p>A história recorda São Luís como santo e Afonso III como prudente e reformador. Entre o altar e o trono, unia-os a mesma fidelidade a um ideal que Branca de Castela lhes gravara na alma: o de que o poder, sem virtude, é apenas força, e que só a humildade pode torná-lo digno de Deus.</p>
<p><em><strong>Paulo <span class="termHighlighted">Freitas</span> do Amaral, </strong>Professor, Historiador e Autor</em></p>
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		<title>O RGPD mantém a direção da associação do meu bairro há 10 anos no poder &#8211; Por Paulo Freitas do Amaral</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Amaral]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 20 Apr 2026 13:11:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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<p>Há ironias difíceis de ignorar numa democracia. Uma delas é ver um instrumento criado para proteger os cidadãos, o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD), ser usado, na prática, como escudo para perpetuar opacidades e bloquear o escrutínio.</p>
<p>Na associação do meu bairro, a direção mantém-se no poder há uma década. Não por mérito necessariamente incontestado, mas por ausência de condições reais para uma alternativa democrática. Sempre que um sócio tenta apresentar um projeto alternativo e precisa de contactar outros membros, seja através de telemóvel ou morada, para expor ideias, debater propostas ou simplesmente reunir apoios, esbarra numa recusa sistemática: “RGPD”. Como se a proteção de dados pessoais impedisse qualquer forma de comunicação legítima entre associados e inviabilizasse, na prática, a construção de alternativas.</p>
<p>O problema não está no princípio da proteção de dados, esse é legítimo e necessário. O problema está no uso abusivo e instrumental desse princípio para impedir o acesso a informação essencial. Sem dados, não há fiscalização. Sem fiscalização, não há escolha informada. E sem escolha informada, a democracia torna-se uma formalidade.</p>
<p>Este fenómeno não se limita às pequenas associações locais. Em Portugal, têm surgido propostas que apontam no sentido de reduzir a transparência no financiamento partidário, limitando a divulgação de informações sobre quem financia quem. Ainda que apresentadas sob o argumento da proteção da privacidade, tais propostas levantam preocupações sérias: ao dificultar o acesso a estes dados, torna-se mais complexo o escrutínio público e enfraquecem-se mecanismos essenciais de combate à corrupção.</p>
<p>A opacidade, neste contexto, não protege cidadãos, protege estruturas de poder. E quando o acesso à informação é restringido, a confiança nas instituições degrada-se inevitavelmente.</p>
<p>Criou-se assim um paradoxo perigoso: leis pensadas para defender direitos individuais acabam, em certos contextos, por proteger instituições da responsabilidade pública. Do bairro aos partidos políticos, o resultado tende a ser o mesmo, menor transparência, menor participação e maior distância entre eleitos e eleitores.</p>
<p>A democracia não vive apenas de eleições. Vive de acesso à informação, de debate esclarecido e da possibilidade real de alternância. Sempre que um desses elementos é comprometido, mesmo que sob a forma de propostas e não de alterações efetivas, o risco é evidente.</p>
<p>O RGPD não deve ser descartado, mas precisa de ser aplicado com equilíbrio. Quando a proteção de dados é usada para bloquear o escrutínio em vez de proteger cidadãos, deixa de ser um instrumento de cidadania e passa a ser, em certos casos, um entrave à própria democracia e ao combate à corrupção.</p>
<p><a href="https://www.ovarnews.pt/wp-content/uploads/2025/12/Paulo-Freitas-do-Amaral.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft  wp-image-97798" src="https://www.ovarnews.pt/wp-content/uploads/2025/12/Paulo-Freitas-do-Amaral-1024x456.jpg" alt="" width="458" height="204" srcset="https://www.ovarnews.pt/wp-content/uploads/2025/12/Paulo-Freitas-do-Amaral-1024x456.jpg 1024w, https://www.ovarnews.pt/wp-content/uploads/2025/12/Paulo-Freitas-do-Amaral-300x134.jpg 300w, https://www.ovarnews.pt/wp-content/uploads/2025/12/Paulo-Freitas-do-Amaral-768x342.jpg 768w, https://www.ovarnews.pt/wp-content/uploads/2025/12/Paulo-Freitas-do-Amaral.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 458px) 100vw, 458px" /></a></p>
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<p><em><strong>Paulo Freitas do Amaral, </strong></em><em>Professor, Historiador e Autor</em></p>
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		<title>O sinal secreto dos miguelistas e a sua rede clandestina após 1834 &#8211; Por Paulo Freitas do Amaral</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Amaral]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 05 Mar 2026 17:28:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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<p>O sinal secreto dos miguelistas no século XIX permanece como uma das facetas mais discretas e fascinantes da memória política portuguesa. A Ordem de S. Miguel da Ala, refundada em 1828, antes mesmo de eclodir a guerra civil, organizava-se em núcleos dispersos pelo país, chamados capítulos, permitindo que o movimento legitimista se mantivesse vivo, nobre e religioso, mesmo quando confrontado com adversários e perigos.</p>
<p>Entre os sinais de reconhecimento, o mais eficaz e simples era o uso dos forros vermelhos nos casacos, cor que remetia diretamente ao brasão da ordem, evocando coragem, fidelidade e sacrifício. Após 1834, com a derrota militar e a passagem do miguelismo à clandestinidade, estes forros tornaram-se mais do que um detalhe de vestuário: eram marcas de pertença, laços de confiança entre famílias do Minho, como os da Casa do Guardal e da Casa do Entreposto, em Guimarães, que mantinham estes sinais discretos de reconhecimento entre aliados.</p>
<p>A simples observação de um forro vermelho podia bastar para identificar um aliado sem necessidade de palavras, um gesto carregado de significado, discreto, que mantinha viva a identidade política. A ordem estruturava-se em três estados – Cavaleiros, Comendadores e Grandes Cruzes –, refletindo a tradição da cavalaria adaptada aos tempos modernos, hierárquica e funcional, capaz de manter disciplina e coesão mesmo sob ameaça liberal.</p>
<p>Do outro lado, os liberais, organizados em Lojas sob a inspiração da maçonaria, seguiam o seu próprio modelo clandestino, dividido em Aprendizes, Companheiros e Mestres, provando que a sobrevivência de ambos os campos dependia da força de redes de confiança e sinais internos cuidadosamente mantidos.</p>
<p>O forro vermelho não era mero capricho nem ostentação; era um código de resistência, um modo silencioso de afirmar que se pertencia a uma tradição que não se apagava com a derrota. Famílias nobres do Minho, mantendo vivas estas práticas, tornaram-se guardiãs de uma memória secreta, transmitida de geração em geração.</p>
<p>Assim, mesmo quando os liberais consolidaram o poder, os sinais miguelistas continuaram a existir, discretos mas carregados de significado, lembrando que, para aqueles que acreditavam na legitimidade da causa, a ordem não era apenas um título, mas uma maneira de viver e de resistir.</p>
<p><em><strong>Paulo Freitas do Amaral, </strong></em>Professor, Historiador e Autor</p>
<blockquote class="wp-embedded-content" data-secret="ukPJTho9Ka"><p><a href="https://www.ovarnews.pt/a-fotografia-dos-herois-que-travaram-a-monarquia/">A fotografia dos heróis que travaram a Monarquia</a></p></blockquote>
<p><iframe loading="lazy" class="wp-embedded-content" sandbox="allow-scripts" security="restricted"  title="&#8220;A fotografia dos heróis que travaram a Monarquia&#8221; &#8212; OvarNews" src="https://www.ovarnews.pt/a-fotografia-dos-herois-que-travaram-a-monarquia/embed/#?secret=bJiQU7cS86#?secret=ukPJTho9Ka" data-secret="ukPJTho9Ka" width="600" height="338" frameborder="0" marginwidth="0" marginheight="0" scrolling="no"></iframe></p>
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		<item>
		<title>O maior artista português de arte sacra do século XX que caiu no esquecimento após 1974</title>
		<link>https://www.ovarnews.pt/o-maior-artista-portugues-de-arte-sacra-do-seculo-xx-que-caiu-no-esquecimento-apos-1974/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Paulo Amaral]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Feb 2026 23:34:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Há formas discretas de esquecimento que não resultam de proibição nem de censura explícita, mas antes de um lento afastamento da memória coletiva, quase imperceptível, que acaba por produzir efeitos mais duradouros do que qualquer interdição formal. A história cultural portuguesa do século XX contém alguns desses silêncios, e poucos serão tão reveladores como o &#8230;</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div>Há formas discretas de esquecimento que não resultam de proibição nem de censura explícita, mas antes de um lento afastamento da memória coletiva, quase imperceptível, que acaba por produzir efeitos mais duradouros do que qualquer interdição formal.<br />
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A história cultural portuguesa do século XX contém alguns desses silêncios, e poucos serão tão reveladores como o caso de um artista cuja obra permanece amplamente visível em instituições nacionais e internacionais, embora o seu nome raramente surja no discurso público contemporâneo. Refiro-me a <b>António Lino</b>, cuja trajetória artística levanta uma questão que importa colocar com serenidade intelectual: como pode um criador com reconhecimento internacional significativo ter praticamente desaparecido da consciência cultural do seu próprio país.</div>
<div></div>
<div>A resposta não pode ser encontrada na ausência de obra nem na irrelevância artística. Pelo contrário, os factos disponíveis indicam uma presença invulgarmente consistente em espaços de elevada centralidade simbólica. Uma das suas pinturas encontra-se na Basílica da Natividade, em Belém, lugar que a tradição cristã identifica como o local do nascimento de Jesus Cristo, circunstância que representa, por si só, um grau de reconhecimento internacional raramente alcançado por artistas portugueses do seu tempo. Em território nacional, intervenções artísticas suas integram o Santuário de Fátima, os vitrais do Paço dos Duques de Bragança, painéis em edifícios do Estado, representações simbólicas em tribunais portugueses e gravuras inseridas na Cidade Universitária de Lisboa, acompanhando diariamente milhares de cidadãos que frequentemente desconhecem a autoria das obras que observam.</div>
<div></div>
<div>Não estamos, portanto, perante um artista esquecido por falta de relevância histórica, mas diante de um fenómeno mais complexo, no qual a permanência material da obra contrasta com o progressivo desaparecimento do autor da narrativa cultural dominante. Tal fenómeno torna-se inteligível quando considerado à luz da profunda transformação política ocorrida em Portugal após 1974. A transição para a democracia implicou necessariamente uma revisão crítica do passado recente e das estruturas culturais associadas ao regime anterior, processo historicamente compreensível e politicamente legítimo. Contudo, como frequentemente sucede em períodos de rutura, a necessidade de redefinir referências coletivas conduziu por vezes a simplificações interpretativas que tenderam a associar a avaliação cultural ao posicionamento político dos seus protagonistas.</div>
<div></div>
<div>A ligação institucional e estética de António Lino ao contexto do Estado Novo e à figura de <b>António de Oliveira Salazar</b> terá contribuído decisivamente para esse afastamento gradual. Não se tratou de censura formal nem de exclusão deliberada declarada, mas antes de um processo difuso de desvalorização, traduzido na escassez de estudo académico, na limitada divulgação mediática e na ausência de reavaliações críticas que normalmente acompanham figuras artísticas de relevância comparável. Assim se produziu um paradoxo digno de reflexão: numa sociedade democrática que justamente rejeitou a censura política, consolidou-se um silêncio cultural que acabou por desempenhar função semelhante ao esquecimento institucional.</div>
<div></div>
<div>A questão que daqui decorre ultrapassa largamente a figura individual do artista. Trata-se de saber se a apreciação estética deve depender do contexto político em que a obra foi produzida ou da qualidade intrínseca da criação artística. A tradição cultural europeia oferece múltiplos exemplos de criadores cuja importância histórica não foi anulada pelas circunstâncias ideológicas do seu tempo, precisamente porque a maturidade cultural das sociedades reside na capacidade de distinguir entre compreensão histórica e julgamento sumário. Recordar não equivale a legitimar; estudar não implica concordar; reconhecer valor artístico não significa reabilitar sistemas políticos.</div>
<div></div>
<div>Uma democracia segura de si mesma não necessita de reduzir a complexidade do passado para afirmar os seus princípios. Pelo contrário, demonstra maturidade quando consegue integrar criticamente todas as dimensões da sua herança cultural, incluindo aquelas que suscitam desconforto ou debate. Ignorar determinadas figuras não corrige a história, apenas a simplifica, e toda simplificação excessiva empobrece inevitavelmente o conhecimento coletivo.</div>
<div></div>
<div>Talvez o caso de António Lino revele, em última análise, menos sobre o artista do que sobre a forma como Portugal ainda dialoga com o seu século XX. O tempo histórico suficiente já decorreu para permitir avaliações mais serenas, menos condicionadas pela proximidade emocional das ruturas políticas. Reexaminar trajetórias artísticas não significa rever consensos democráticos fundamentais, mas apenas reconhecer que a cultura nacional é sempre mais ampla do que as circunstâncias políticas que a atravessam.</div>
<div>Uma comunidade cultural madura não teme revisitar o passado com espírito crítico e equilíbrio intelectual. Teme apenas que o silêncio substitua o conhecimento e que o esquecimento, em vez do estudo, passe a determinar aquilo que as gerações futuras julgam digno de memória.</div>
<div><a href="https://www.ovarnews.pt/wp-content/uploads/2025/05/Paulo-Freitas-Amaral-Prof.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft  wp-image-92759" src="https://www.ovarnews.pt/wp-content/uploads/2025/05/Paulo-Freitas-Amaral-Prof.jpg" alt="" width="467" height="250" srcset="https://www.ovarnews.pt/wp-content/uploads/2025/05/Paulo-Freitas-Amaral-Prof.jpg 860w, https://www.ovarnews.pt/wp-content/uploads/2025/05/Paulo-Freitas-Amaral-Prof-300x160.jpg 300w, https://www.ovarnews.pt/wp-content/uploads/2025/05/Paulo-Freitas-Amaral-Prof-768x411.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 467px) 100vw, 467px" /></a></div>
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<div><strong>Paulo Freitas do Amaral</strong></div>
<div>Professora, Historiador e Autor</div>
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		<item>
		<title>O papel dos militares em estados de calamidade na nossa História</title>
		<link>https://www.ovarnews.pt/o-papel-dos-militares-em-estados-de-calamidade-na-nossa-historia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Paulo Amaral]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 12 Feb 2026 17:29:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#160; Em 1755, quando Lisboa ainda ardia e o chão mal deixara de tremer, soldados patrulhavam ruas cobertas de escombros, removiam cadáveres e impunham ordem numa cidade devastada. Em 2026, 2 800 militares atravessam águas turvas, desobstruem estradas submersas e resgatam populações isoladas pelas cheias. Separados por quase três séculos, estes dois momentos revelam uma &#8230;</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p>Em 1755, quando Lisboa ainda ardia e o chão mal deixara de tremer, soldados patrulhavam ruas cobertas de escombros, removiam cadáveres e impunham ordem numa cidade devastada. Em 2026, 2 800 militares atravessam águas turvas, desobstruem estradas submersas e resgatam populações isoladas pelas cheias. Separados por quase três séculos, estes dois momentos revelam uma continuidade profunda na História de Portugal: em estados de calamidade, os militares são chamados a servir a população.</p>
<p>O terramoto de 1 de novembro de 1755 foi uma das maiores catástrofes da Europa moderna. Sismo, tsunami e incêndios sucessivos destruíram grande parte da capital do império português. A resposta do Estado, dirigida por Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro Marquês de Pombal, foi rápida e estruturada. O Exército foi mobilizado para impedir saques, garantir segurança e restabelecer a autoridade numa cidade mergulhada no caos.</p>
<p>A presença militar foi decisiva. Tropas patrulharam ruas, criaram cordões de segurança e asseguraram o cumprimento das medidas impostas pelo governo. Participaram na remoção de escombros e na eliminação de focos de insalubridade, transportando muitos cadáveres para o mar para evitar epidemias. A disciplina e a cadeia de comando militar tornaram-se instrumentos essenciais para evitar o colapso social.</p>
<p>Mas o papel dos militares não terminou na fase de emergência.</p>
<p>A reconstrução de Lisboa foi confiada a engenheiros militares altamente qualificados: Manuel da Maia, brigadeiro e engenheiro-mor do Reino; Eugénio dos Santos, capitão de engenheiros; e Carlos Mardel, tenente-coronel. Nenhum era coronel, embora essa designação seja por vezes repetida de forma imprecisa. Todos pertenciam ao Corpo de Engenheiros Militares, que reunia o saber técnico mais avançado da época.</p>
<p>Sob a sua direção nasceu a Baixa Pombalina, concebida segundo princípios de racionalidade urbana e inovação estrutural. A chamada “gaiola pombalina”, estrutura interna de madeira pensada para conferir resistência sísmica aos edifícios, tornou-se símbolo dessa modernidade construtiva.</p>
<p>E aqui surge um episódio particularmente revelador: segundo tradição amplamente referida na historiografia, foram utilizados militares para testar a resistência das novas estruturas. Tropas terão sido mandadas marchar ritmicamente junto ou no interior dos edifícios em construção, provocando vibrações que simulavam abalos sísmicos. Não se tratava ainda de ciência experimental nos moldes modernos, mas de um ensaio empírico pioneiro — um gesto que unia disciplina militar e inovação técnica ao serviço da segurança pública.</p>
<p>Quase 270 anos depois, o país enfrenta cheias severas que afetaram várias regiões. A resposta voltou a envolver as Forças Armadas. Cerca de 2 800 militares encontram-se no terreno, apoiando populações, removendo destroços, assegurando transportes, montando infraestruturas provisórias e colaborando estreitamente com a Proteção Civil e autarquias.</p>
<p>A diferença entre 1755 e 2026 reside nos meios tecnológicos; a continuidade está na função. Ontem como hoje, as Forças Armadas disponibilizam capacidade logística, engenharia, rapidez de mobilização e uma cadeia de comando eficaz — elementos cruciais quando as estruturas civis se veem pressionadas por acontecimentos excecionais.</p>
<p>Outras calamidades marcaram a nossa História — como as cheias de 1967 na região de Lisboa ou grandes incêndios florestais nas últimas décadas — e também aí os militares desempenharam papéis relevantes. Mas é na comparação entre o terramoto que redesenhou Lisboa e as cheias atuais que se percebe com maior nitidez essa linha de continuidade histórica.</p>
<p>Em estados de calamidade, o país não pede guerra; pede organização. Não exige força ofensiva; exige capacidade de servir. E, ao longo da nossa História, os militares portugueses têm sido chamados, repetidamente, a cumprir essa missão.</p>
<p>Entre o chão que tremeu em 1755 — onde soldados testavam as próprias estruturas que ajudavam a erguer — e as águas que hoje sobem, permanece uma certeza: nas horas mais difíceis, a disciplina, a engenharia e o sentido de missão continuam a ser um dos pilares da resposta nacional.</p>
<p><em><strong>Paulo Freitas do Amaral, </strong></em> Professor, Historiador e Autor</p>
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		<title>Um ramo de flores nas Presidenciais de 1986 &#8211; Por Paulo Freitas do Amaral</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Amaral]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 15 Jan 2026 09:30:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>As eleições presidenciais de 1986 ficaram para a História portuguesa como um dos momentos mais intensos e decisivos da nossa jovem democracia. O confronto entre Mário Soares e Freitas do Amaral foi duro, polarizador e politicamente clarificador. Mas foi também, e isso hoje surpreende muitos, um confronto marcado por gestos de civilidade, respeito institucional e &#8230;</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>As eleições presidenciais de 1986 ficaram para a História portuguesa como um dos momentos mais intensos e decisivos da nossa jovem democracia. O confronto entre Mário Soares e Freitas do Amaral foi duro, polarizador e politicamente clarificador. Mas foi também, e isso hoje surpreende muitos, um confronto marcado por gestos de civilidade, respeito institucional e educação democrática que parecem pertencer a outro tempo.<br />
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<p>Entre os episódios menos lembrados, mas profundamente simbólicos, está o envio de um ramo de flores por Maria Barroso e Mário Soares a Freitas do Amaral, felicitando-o pela campanha realizada. O gesto não ocorreu no auge da disputa verbal, mas num momento em que os resultados já estavam definidos e a democracia saía vencedora. Não era um ato de estratégia mediática, nem um cálculo de imagem. Era, simplesmente, um gesto de cortesia entre adversários políticos que se reconheciam mutuamente como legítimos.</p>
<p>Em 1986, o país estava dividido. As opções políticas eram claras e as paixões estavam à flor da pele. Ainda assim, havia uma consciência quase instintiva de que a luta eleitoral terminava nas urnas e que, a partir daí, começava uma outra responsabilidade: a de preservar o respeito pelo adversário e pela própria democracia.</p>
<p>Freitas do Amaral representava uma visão conservadora e institucional do Estado, profundamente ancorada na tradição jurídica e na estabilidade. Mário Soares surgia como o rosto do socialismo democrático europeu e da integração plena de Portugal no projeto comunitário. Eram projetos distintos, até opostos em vários pontos, mas nenhum dos protagonistas confundia o adversário com um inimigo.</p>
<p>O ramo de flores enviado por Maria Barroso e Mário Soares simboliza essa cultura política hoje rara. Não apaga a dureza da campanha, nem relativiza as divergências ideológicas. Mas lembra que existia uma fronteira clara entre o combate político e a dignidade pessoal.</p>
<p>Comparando com o presente, a diferença é gritante. As campanhas eleitorais tornaram-se, em muitos casos, arenas de desqualificação pessoal, de suspeição permanente e de hostilidade verbal. A cortesia passou a ser confundida com fraqueza e o respeito com conivência. O adversário deixou de ser alguém com quem se discorda para passar a ser alguém a destruir.</p>
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<p><strong>As Presidenciais de 1986 ensinam, por isso, uma lição que vai muito além dos resultados eleitorais.</strong> Mostram que é possível disputar o poder com intensidade sem abdicar da educação, da elegância e do respeito mútuo. Que a democracia não se mede apenas pela liberdade de escolha, mas também pela forma como os vencidos são tratados e os vencedores se comportam.</p>
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<p>O ramo de flores não mudou o resultado das eleições. Mas permanece como um símbolo poderoso de uma época em que a política portuguesa, mesmo nos seus momentos mais tensos, ainda sabia ser humana, cortês e institucionalmente madura.</p>
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<p>Talvez seja tempo de voltar a olhar para 1986 e não para repetir o passado, mas para recuperar o que nele havia de melhor.</p>
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<p><strong>Paulo Freitas do Amaral, Professor, Historiador e Autor</strong></p>
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		<title>A IA vai dar um “Ambrósio” a cada português e reduzir despesas… só depende do Governo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Amaral]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 09 Jan 2026 15:41:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#160; Portugal discute o futuro da mobilidade como quem muda a cor das cortinas enquanto a casa precisa de obras estruturais. Fala-se de ajustes no cartão do navegante, de pequenos remendos tarifários e de anúncios simpáticos para conferências de imprensa, mas evita-se o essencial: criar legislação clara, ambiciosa e funcional que permita a circulação de &#8230;</p>
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<p>Portugal discute o futuro da mobilidade como quem muda a cor das cortinas enquanto a casa precisa de obras estruturais. Fala-se de ajustes no cartão do navegante, de pequenos remendos tarifários e de anúncios simpáticos para conferências de imprensa, mas evita-se o essencial: criar legislação clara, ambiciosa e funcional que permita a circulação de automóveis conduzidos por Inteligência Artificial. É aqui que está a verdadeira revolução económica e social ao alcance das famílias portuguesas.</p>
<p>Imagine-se uma família comum. Dois cônjuges, dois empregos, destinos diferentes, mas horários desencontrados. Hoje, essa família precisa de dois carros. Dois seguros, dois impostos, duas manutenções, dois créditos automóveis, dois problemas de estacionamento. Amanhã, com um veículo autónomo devidamente legislado, o cenário muda radicalmente. O carro leva um cônjuge ao trabalho, regressa a casa e, pouco depois, transporta o outro. Um só automóvel substitui dois. A poupança mensal é evidente, a médio prazo é esmagadora e, à escala nacional, o impacto económico seria profundo.</p>
<p>Este não é um exercício de futurologia. Em Los Angeles, os Ubers já circulam sem condutor humano, integrados no trânsito urbano, recolhendo passageiros reais, em ruas reais, todos os dias. O mesmo acontece noutras cidades norte-americanas e asiáticas. Na China, por exemplo, Shenzhen opera linhas de metro totalmente conduzidas por Inteligência Artificial, sem maquinista, com milhões de passageiros transportados em segurança todos os meses. O sistema funciona, é fiável e demonstra que a automação não é um risco experimental, mas uma realidade consolidada quando existe enquadramento legal e visão estratégica.</p>
<p>A indústria automóvel percebeu isso melhor do que muitos governos europeus. A XPeng abriu a porta a uma nova geração de veículos eléctricos e inteligentes a preços verdadeiramente acessíveis, entre os 18 000 e os 24 000 euros. Não se trata de carros de luxo para elites urbanas, mas de automóveis pensados para a classe média, equipados com sistemas avançados de condução assistida e preparados para uma autonomia cada vez maior. Com escala, concorrência e legislação adequada, estes valores podem tornar-se comuns no mercado europeu.</p>
<p>Se o Governo português tiver visão e coragem política para ir além das pequenas reformas anunciadas, se perceber que o futuro não passa apenas por ajustes tarifários no transporte público, mas por uma transformação estrutural da mobilidade, então Portugal pode ganhar uma vantagem inesperada. Legislar para permitir automóveis conduzidos por IA não é favorecer multinacionais tecnológicas. É aliviar o orçamento das famílias, reduzir o número de veículos por agregado, diminuir o trânsito, baixar emissões e libertar tempo e recursos.</p>
<p>A questão central é simples. Queremos continuar a gerir o século XXI com leis pensadas para o século XX ou queremos preparar o país para o que já está a acontecer no mundo real. A mobilidade autónoma não elimina empregos de um dia para o outro, não substitui o transporte público e não resolve todos os problemas. Mas cria opções. E opções significam liberdade económica.</p>
<p>Um dia, mais cedo do que muitos pensam, a frase deixará de soar a brincadeira publicitária e tornar-se-á rotina quotidiana. Ambrósio, leve-me ao destino. Quando isso acontecer, não será mérito da tecnologia, que já existe. Será mérito, ou responsabilidade histórica, de quem hoje decide se Portugal quer liderar, acompanhar ou ficar para trás.</p>
<p><em><strong><a href="https://www.ovarnews.pt/wp-content/uploads/2025/05/Paulo-Freitas-Amaral-Prof.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-full wp-image-92759" src="https://www.ovarnews.pt/wp-content/uploads/2025/05/Paulo-Freitas-Amaral-Prof.jpg" alt="" width="860" height="460" srcset="https://www.ovarnews.pt/wp-content/uploads/2025/05/Paulo-Freitas-Amaral-Prof.jpg 860w, https://www.ovarnews.pt/wp-content/uploads/2025/05/Paulo-Freitas-Amaral-Prof-300x160.jpg 300w, https://www.ovarnews.pt/wp-content/uploads/2025/05/Paulo-Freitas-Amaral-Prof-768x411.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 860px) 100vw, 860px" /></a>Paulo Freitas do Amaral</strong></em></p>
<p>Professor, Historiador e Autor</p>
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