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Válega: Escritora Maria Azenha vence Prémio Literário Glória de Sant’Anna

A escritora Maria Azenha venceu a 12.ª edição do Prémio Literário Glória de Sant’Anna, que distingue o melhor livro de poesia em língua portuguesa publicado no último biénio, com a obra “A Casa da Memória”, anunciou hoje a organização.

De acordo com o júri, o livro premiado, editado pela Urutau, constrói-se em torno da relação entre “ferida e memória”, explorando uma poética marcada pela fluidez e pela recusa de uma estrutura temporal linear, em que “passado, presente e futuro coexistem num mesmo plano enunciativo”.

“A poetisa opera deslocamentos anacrónicos, de forma que os elementos históricos (batalhas, reis), contemporâneos (guerras, migrações) e temporais (o decorrer do tempo), ocupam simultaneamente o mesmo espaço. A poesia torna-se, assim, arqueologia do presente”, descreve Vincenzo Paglione, na apreciação crítica da obra.

Segundo o tradutor e ensaísta, especialista em estudos latino-americanos, “a escritora chega a atingir a essência da criação poética, onde tudo se apresenta como insondável”, e o “poema deve ser o que é, sem origem nem destino”, abrindo-se a múltiplas interpretações e expondo temas como a solidão do indivíduo, a família enquanto lugar de dor e memória e a modernidade como “corpo exposto, privado de vitalidade”.

O crítico literário galego Xosé M. Eyré, outro dos elementos do júri, sublinha a dimensão sonora da obra, referindo que o livro se apresenta ao leitor como “uma cascata de musicalidade”, em que o ritmo e a cadência verbal evocam o movimento contínuo da água, elemento que associa à memória e à própria vida.

“Através dos olhos entram as sequências sonoras que se desenrolam no cérebro como as ondas do mar, subindo e descendo naquele ritmo que nunca cessa”, acrescenta.

o coração dos espelhos

há um espelho que canta

e bate na cara e

sangra

atiro o desenho da sombra

da escrita

ao primeiro degrau. e os olhos das aves

cegam.

é uma escada

de

luz

e

trevas

uma escada de água.

atiro a segunda pedra

à sombra

do segundo degrau

avanço na ondulação difícil da casa.

el coração dos espelhos é alto

tão alto

Além do valor pecuniário de três mil euros, o prémio inclui a atribuição de uma gravura original com o retrato da poetisa Glória de Sant’Anna, da autoria do pintor e ilustrador Rui Paes.

A lista final desta edição integrou ainda os autores Rita Tormenta, Andrea Fernandes, Maurício Rosa, José Gardeazabal, Francisco Guita Jr. e Rui Sobral.

A cerimónia de entrega do prémio terá lugar a 23 de maio, na Capela de São Gonçalo, em Válega, no concelho de Ovar, distrito de Aveiro.

O júri da edição de 2026 foi constituído ainda pelo moçambicano Matteo Angius, bibliotecário e pesquisador da biblioteca do instituto Camões, pelos portugueses Jacinto Guimarães, do Grupo de Ação Cultural de Válega, e Andrea Paes, poeta e ourives, além de Xosé M. Eyré, e Vincenzo Paglione.

O Prémio Literário Glória de Sant’Anna é um galardão internacional de poesia, promovido pelo Grupo de Acção Cultural de Válega em colaboração com a família de Glória de Sant’Anna, que visa distinguir anualmente obras publicadas no espaço lusófono.

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