
Projeto culmina a 2 de agosto com uma celebração aberta à comunidade, reunindo oficinas, exposição, mercado regional, cinema e música.
Em São Vicente de Pereira Jusã, no concelho de Ovar, a arte tem servido de ponto de encontro entre gerações, memórias e diferentes formas de olhar o território. É este o propósito de Raízes Vivas, um projeto de arte comunitária que, ao longo dos últimos meses, tem vindo a envolver habitantes, associações e comércio local num processo criativo coletivo, culminando numa grande celebração no próximo dia 2 de agosto, no Largo de São Lourenço.
Mais do que produzir objetos artísticos, o projeto procurou criar espaços de escuta, diálogo e participação, valorizando as histórias, os saberes e as práticas culturais da freguesia.
“O que nos interessava não era chegar com uma ideia fechada, mas construir o projeto a partir das pessoas e com as pessoas“, explica Maria Coutinho, responsável pelo Raízes Vivas. “Desde o início quisemos perceber quais eram os interesses da comunidade, que memórias queria preservar e de que forma a arte poderia aproximar diferentes gerações.”
A intervenção começou precisamente por esse trabalho de escuta e mapeamento dos interesses culturais da população. A partir daí nasceu um conjunto de oficinas participativas onde tradição e contemporaneidade se cruzaram, dando origem a experiências como Moagem com Memória, dedicada ao Moinho dos Arinhos; Bolinhos da São, uma oficina de cozinha tradicional; Fios com Alma, centrada no croché; São Vicente Muda de Cor, de expressão plástica; e Cortes e Retalhos – Quadros Vivos dos Dias de São Vicente.
Para Maria Coutinho, um dos aspetos mais importantes do projeto foi precisamente esse encontro entre diferentes saberes.
“Há um património imaterial muito rico nas nossas aldeias que nem sempre é valorizado. Quando colocamos lado a lado quem domina um ofício tradicional e quem experimenta linguagens artísticas mais contemporâneas, acontece uma troca muito bonita. Todos aprendem com todos.”
A escolha de desenvolver o projeto numa freguesia rural foi também intencional. Segundo a responsável, levar práticas artísticas participativas para territórios periféricos representa uma forma de afirmar que a criação cultural não pertence apenas aos grandes centros urbanos.
“Intervir numa aldeia é também um gesto político. Estes territórios não são margens da cultura; são lugares onde existe conhecimento, criatividade e vontade de participar. O nosso trabalho passa por criar condições para que essas vozes sejam ouvidas e reconhecidas.”
O momento final do projeto acontecerá no dia 2 de agosto, transformando o Largo de São Lourenço num espaço de encontro e celebração. Ao longo do dia será possível visitar a exposição dos trabalhos realizados nas oficinas, participar em atividades criativas, conversar com os participantes, conhecer produtores locais através de um mercado regional, assistir a um concerto e acompanhar uma mostra de filmes independentes realizados por mulheres naturais de São Vicente.
A iniciativa pretende ser, acima de tudo, uma festa da comunidade e um momento de devolução pública do trabalho desenvolvido ao longo dos últimos meses.
Maria Coutinho acredita que o verdadeiro impacto do projeto vai muito além do evento final.
“O mais importante não é aquilo que fica exposto, mas as relações que se criaram durante o processo. Quando as pessoas se encontram, partilham histórias e constroem algo em conjunto, nasce um sentimento de pertença que dificilmente desaparece. É isso que esperamos que permaneça em São Vicente.”
Inspirado na ideia de que a qualidade de um país também se mede pela forma como cuida dos seus territórios rurais, Raízes Vivas procura afirmar a cultura como um instrumento de participação democrática, proximidade e desenvolvimento local.
A organização deixa ainda um agradecimento a todos os participantes, associações, coletividades, comerciantes e parceiros locais que contribuíram para tornar o projeto possível, sublinhando que esta é uma iniciativa construída “por muitas mãos” e que só faz sentido através da participação da comunidade.





