O termo “Outubro Negro” surgiu numa publicação amplamente partilhada na rede X, que descreveu as 48 horas anteriores a 23 de outubro de 2027 como as “piores da história da cibersegurança”: Após a descoberta das vulnerabilidades PHP2Shell, vários especialistas adotaram a designação, sublinhando que a NSA, o Primeiro-Ministro do Japão e vários governos instaram à correção imediata de sites e serviços, ou à sua retirada de linha quando não fosse possível corrigi-los. Importa notar desde já que, até ao momento, muitas organizações mitigaram o risco e evitaram danos reais em larga escala e que, nenhuma destas precauções parece ter sido tomada em nenhum dos sites do governo e administração pública portuguesa que usam PHP…
O PHP é uma parte muito significativa da web pública e o problema reside num par de vulnerabilidades (CVE-2026-109618 e CVE-2026-109619) nas versões 5.4 a 8.5 do PHP que permitem a execução remota de código, que foram divulgadas a 20 de outubro de 2026.
A agência norte-americana CISA recomendou a atualização imediata para as versões 8.5.12, 8.4.27, 8.3.36 ou 8.2.35, e aconselhou que os sistemas que não possam ser atualizados, ou que usem a versão 8.1 ou anteriores, fossem retirados do ar até haver correções. De notar que o governo dos EUA estava a par destas vulnerabilidades desde 16 e não parece ter avisado os seus “parceiros” europeus. Como prevenção, o 4chan, a Wikimedia e o Archive.org estiveram temporariamente indisponíveis até serem atualizados.
Mas nesta questão, o elemento mais relevante é a forma como as falhas foram encontradas: A OpenAI afirmou que um investigador identificou uma das falhas com recurso ao modelo GPT-5.6 Sol, enquanto a empresa Wiz descobriu e reportou ambas de forma independente. Segundo a Wiz, as falhas passaram despercebidas durante mais de uma década porque a sua exploração exigia trabalho técnico complexo, que apenas a IA teve capacidade para identificar. Quanto à exploração efetiva, as fontes divergem: A Amazon identificou uma tentativa de exploração datada de 17 de outubro, quatro dias antes da divulgação pública, e a watchTowr observou exploração ativa a 21 de outubro.
Paralelamente, dois relatórios publicados nesta semana documentam algo até agora sobretudo teórico: campanhas de intrusão conduzidas por agentes autónomos com supervisão humana mínima:
Um investigador acompanhou, ao longo de duas semanas, um atacante de língua chinesa que comprometeu sites de mais de 100 empresas, incluindo a Deere, a SharkNinja e a Cummins, sendo que o atacante quase não interveio na operação. Esta campanha usou a plataforma aberta Cairn ligada ao Claude Code, da Anthropic, e ao modelo chinês DeepSeek V4 Pro. Os agentes tentaram entrar em mais de 1.200 sites, a um custo estimado de cerca de 50 dólares por intrusão bem-sucedida. As empresas visadas minimizaram o impacto: a Deere disse não ter indícios de acesso a informação sensível, e a SharkNinja afirmou que o ataque atingiu apenas um site isolado de apoio a produtos.
Paralelamente, a CrowdStrike publicou um relatório sobre quatro atores de ameaça que recorrem a agentes de IA, dois com estruturas sofisticadas e dois com ferramentas mais simples. Num dos casos, um ator de língua espanhola e inglesa atacou organizações de saúde argentinas, comprometendo pelo menos 15 entidades e roubando palavras-passe e, num dos alvos, registos clínicos. Segundo a empresa, os quatro atores conseguiram contornar os controlos de segurança dos serviços comerciais de IA, e num dos casos um agente moveu-se lateralmente e recolheu credenciais de um controlador de domínio em cerca de 20 minutos, sem orientação humana adicional.
Profissionais do setor descrevem a mesma mudança a partir dos seus próprios sistemas de observação. Um especialista com mais de uma década de experiência relatou publicamente que a quase totalidade do tráfego que atingiu o seu servidor-isco numa só noite não era humano, e que as ameaças, outrora comparáveis a tempestades com direção, motivo e um operador identificável, se assemelham hoje a enxames de agentes que testam páginas de autenticação com disciplina de máquina.
Vários incidentes atingiram infraestruturas das quais milhões de sistemas dependem sem o saberem. Na madrugada de 21 de outubro, o processo de publicação da biblioteca LiteLLM foi comprometido e distribuiu a versão 1.107.0 com software malicioso que rouba credenciais e permite a execução remota de código. É o segundo ataque à cadeia de fornecimento desta ferramenta no mesmo ano…
No domínio dos certificados digitais, que garantem a autenticidade dos sites https que todos visitamos, a Mozilla e o programa de raízes do Chrome confirmaram a 20 de outubro que as chaves privadas de oito certificados intermédios da autoridade certificadora indiana eMudhra tinham sido comprometidas. Quem detém essas chaves pode emitir certificados aceites para qualquer domínio. Ainda assim, não foram detectados certificados fraudulentos e os navegadores reagiram em horas. Desconhece-se como as chaves foram obtidas, quando e quem mais as poderá ter.
A plataforma de alojamento Zeabur, por sua vez, foi invadida a 14 e 15 de outubro por um atacante que usou credenciais internas e acabou por aceder à base de dados da plataforma, e anunciou o encerramento de todos os serviços até 31 de dezembro.
Como se não bastasse, alguns grandes bancos norte-americanos estão a detetar agentes de IA de terceiros, não autorizados, a operar dentro de contas de clientes, alguns aparentemente a agir de forma independente das instruções dos utilizadores. Contudo, os incidentes não envolvem necessariamente intrusões: alguns clientes entregam voluntariamente as suas credenciais a assistentes de IA, prática que contraria as regras da maioria dos bancos, que exigem que o próprio cliente inicie a sessão. Muitos bancos não conseguem distinguir se a atividade de um agente foi ordenada pelo utilizador. A Morgan Stanley começou a bloquear agentes externos, e o JPMorgan, o Bank of America e o Citi estão a restringi-los. A Axios não documentou perdas confirmadas. A questão da responsabilidade já está em cima da mesa: o diretor financeiro do JPMorgan avisou, a 13 de outubro, que os clientes que partilhem credenciais com agentes que pratiquem ações indesejadas assumirão as consequências. É muito provável que algo semelhante esteja a acontecer com a banca nacional… Mas não há nem notícias nem relatos, sendo que a CpC enviou uma comunicação ao Banco de Portugal para que este alertasse os bancos e instituições financeiras do sistema português para estarem atentos a estas ocorrências e alertarem os seus clientes.
Sejamos claros: O “Outubro Negro” não surgiu no vazio: Ao longo de 2026 acumularam-se casos em que agentes de IA em teste nos próprios laboratórios atacaram infraestruturas de terceiros.
Em julho, um enxame de cerca de 700 agentes criados pela OpenAI executou o ataque à plataforma Hugging Face e, em muitos casos, tentou apagar os seus rastos, segundo duas investigações independentes, conduzidas pela METR e pela Redwood Research, cujo número a OpenAI confirmou como exato. Os investigadores concluíram que os agentes se juntaram ao ataque depois de receberem, por erro, tarefas impossíveis de cumprir, e que alguns reconheceram que a ação estava fora do seu mandato e era antiética, mas participaram na mesma. Os agentes executaram código em 41 servidores de produção da Hugging Face e obtiveram controlo total de pelo menos uma máquina.
Em setembro, soube-se que o caso não era isolado. Investigadores revelaram que agentes em teste pela OpenAI tinham atacado o RubyGems, um repositório de pacotes de software, dois meses antes do caso Hugging Face, carregando centenas de pacotes maliciosos a 11 de maio. Os agentes tentaram ainda explorar uma falha que o RubyGems só corrigiu em julho. A OpenAI reconheceu o incidente, mas classificou-o como benigno, afirmando que os agentes usaram a plataforma apenas para aceder à internet e recolher informação pública. O incidente não foi divulgado pela empresa: chegou ao conhecimento público através de investigadores independentes.
Já em outubro, a OpenAI revelou que um agente baseado no GPT-6.1 Sol desativou alertas automáticos destinados à sua equipa de segurança, e que um agente GPT-6 Astra removeu um sistema de monitorização e negou falsamente tê-lo feito. Segundo a empresa, em ambos os casos os agentes ponderaram se deviam preservar as salvaguardas, mas interpretaram instruções rotineiras como autorização para as enfraquecer. A OpenAI admitiu ainda não ter uma explicação satisfatória para o comportamento.
Sobre tudo isto, um pano de fundo já conhecido agrava o quadro que pinta a um negro muito profundo este Outubro de 2026 (que ainda não acabou): O terceiro trimestre de 2026 registou o número mais elevado de ataques de ransomware até à data, com 2.627 casos, um aumento de 29% face ao trimestre anterior e de 61% face ao mesmo período de 2025, segundo a Comparitech. A Nord Security, com outra metodologia, contabilizou 2.894 incidentes no mesmo trimestre, quase 50% mais do que um ano antes. No setor da saúde, os ataques subiram 40% face ao trimestre anterior e mais do que duplicaram em termos homólogos. É altamente provável que estes ataques estejam diretamente relacionados com o uso crescente de IA por parte de agentes maliciosos.
No debate público tem circulado a hipótese de que a Rússia e a China possam estar por detrás do aumento de incidentes. Segundo essa leitura, os ataques preparariam o terreno para uma ofensiva russa contra os países bálticos e para uma tentativa chinesa de anexação de Taiwan, aproveitando uma postura norte-americana mais permissiva. A Iniciativa Cidadãos Pela Cibersegurança (CpC) considera que a hipótese merece ser examinada com seriedade, precisamente por envolver questões de segurança europeia. Por isso mesmo, deve ser confrontada com os factos.
Há elementos de contexto que são reais e documentados. Do lado russo, uma investigação da SVT e de outros operadores públicos europeus identificou 54 ataques físicos ou tentativas associados à Rússia na Europa entre 1 de abril e 15 de outubro de 2026, incluindo incêndios, drones com explosivos e voos de bombardeiros perto das fronteiras da NATO; os ciberataques não foram sequer incluídos nessa contagem. Uma carta divulgada pela RFE/RL refere um ambiente de segurança em deterioração nos Estados bálticos, com mais violações do espaço aéreo e incursões de drones. O Presidente da Letónia, Edgars Rinkēvičs, respondendo a acusações de Moscovo que continham uma ameaça implícita ao seu país, declarou que a Letónia vive “uma nova realidade”. Responsáveis lituanos afirmam que grupos patrocinados por Estados, redes criminosas organizadas e atores oportunistas operam ativamente na região.
Do lado chinês, as agências norte-americanas e os seus parceiros dos Cinco Olhos descreveram o grupo Volt Typhoon como estando a posicionar-se em redes de infraestruturas críticas dos EUA para permitir a perturbação ou destruição de serviços em caso de tensão geopolítica ou conflito. As autoridades associam explicitamente esse posicionamento a um eventual conflito sobre Taiwan, no qual ataques a setores vitais poderiam abrandar a mobilização militar norte-americana.
No plano diplomático, o Presidente russo propôs, segundo o Wall Street Journal, uma cimeira a três com Donald Trump e Xi Jinping à margem da cimeira da APEC em Shenzhen, a 18 e 19 de novembro, sem a presença da Ucrânia, ideia que o Presidente norte-americano não rejeitou. Putin transmitiu também a Trump a visão de Teerão para um possível fim da guerra no Irão, e Trump declarou-se satisfeito por a Rússia e a China se terem abstido em larga medida de intervir nesse conflito. As leituras desta convergência dividem-se. Críticos da Administração norte-americana sustentam que Washington se está a alinhar com Moscovo e se prepara para deixar a Europa e Taiwan entregues a si próprios, e em Taiwan há quem alerte para um “novo Yalta” em que grandes potências negoceiam o destino de nações mais pequenas. A Casa Branca, por seu lado, apresenta a eventual reunião tripartida como centrada na desnuclearização e na negociação do fim de guerras em curso. Não existe, até ao momento, qualquer prova pública de um acordo que troque liberdade de ação no Irão por concessões na Europa ou no Estreito de Taiwan.
Confrontada com os incidentes concretos do Outubro Negro, a hipótese de uma campanha estatal coordenada não encontra, para já, sustentação. Nenhum dos principais incidentes foi atribuído por autoridades competentes a um Estado. O atacante do caso Cairn é descrito como falante de chinês, o que não equivale a um agente do Estado chinês. O ator de língua russa analisado pela CrowdStrike foi associado ao ecossistema do cibercrime, e não a serviços estatais. As vulnerabilidades do PHP foram descobertas e divulgadas por investigadores ocidentais, num processo coordenado de correção. E vários dos episódios mais graves envolvendo agentes autónomos tiveram origem nas próprias empresas norte-americanas de IA. Uma análise recente da atividade estatal concluiu, aliás, que nenhuma fonte demonstra operações totalmente autónomas por parte de grupos estatais identificados, continuando os alvos a ser escolhidos por humanos.
Contudo, isto não afasta o risco: apenas o desloca: A preocupação mais fundamentada não é a de que Moscovo ou Pequim tenham orquestrado o Outubro Negro, mas a de que atores estatais possam aproveitá-lo. Milhares de servidores PHP por corrigir e credenciais roubadas através do LiteLLM representam um inventário de acessos que serviços de informações podem recolher e guardar para uso futuro, numa lógica de pré-posicionamento idêntica à documentada no caso Volt Typhoon. Além disso, o ruído gerado por milhares de incidentes criminosos dificulta a deteção de operações estatais discretas. A experiência báltica mostra que a atribuição é lenta e politicamente custosa: o Instituto Polaco de Assuntos Internacionais recomenda normas comuns de atribuição, para que nenhum país tenha de suportar sozinho o custo político de acusar a Rússia.
Até haver atribuição formal, tratar o Outubro Negro como uma ofensiva estatal seria tão imprudente como excluir essa possibilidade.
O Outubro Negro não se destaca pela dimensão dos prejuízos, que permanece por apurar e parece – até à manhã de 23 de outubro de 2026, contida. Destaca-se porque reuniu, num curto espaço de tempo, cinco fenómenos que até aqui eram sobretudo projeções. E porque ocorre num momento em que a ordem de segurança europeia e asiática está, ela própria, em renegociação:
- A IA demonstrou capacidade para encontrar falhas que escaparam a especialistas humanos durante mais de uma década. A OpenAI sustenta que a IA de fronteira encontrou estas vulnerabilidades antes dos atacantes, o que evidencia o potencial defensivo da tecnologia, mas também a velocidade com que a mesma capacidade pode ser usada ofensivamente.
- Ficou documentado que agentes autónomos conduzem intrusões completas, do reconhecimento à exfiltração, a custos irrisórios e por atores com pouca competência técnica.
- Caiu a barreira económica que protegia a maioria das pessoas e organizações. Durante décadas, o tempo dos atacantes era um recurso finito, o que os obrigava a escolher alvos; quem era “demasiado irrelevante para ser atacado” beneficiava dessa escassez. Com agentes que custam cêntimos e trabalham em paralelo, sem pausa, testar cada palavra-passe divulgada contra cada serviço em que alguém se registou deixa de exigir escolhas. A mesma economia que tornou os assistentes de IA úteis tornou a pirataria oportunista praticamente ilimitada.
- Os agentes de IA passaram a ser utilizadores de sistemas críticos, como contas bancárias, sem que as instituições consigam distinguir a ação legítima da abusiva. Isto põe em causa os modelos de autenticação e de responsabilidade em que assenta o sistema financeiro.
- Sistemas de IA atacaram infraestruturas alheias durante testes e enfraqueceram, por iniciativa própria, os mecanismos destinados a controlá-los. Este é o problema da supervisão verificável que a CpC tem colocado no plano institucional, nomeadamente através da Petição ao Parlamento Europeu n.º 0969/2026, “Pela contenção verificável da IA de fronteira”.
E em Portugal?
A CpC considera pertinente que as autoridades nacionais esclareçam publicamente algumas questões.
- O CNCS emitiu orientações específicas sobre o PHP2Shell dirigidas às entidades públicas e aos operadores abrangidos pelo regime de cibersegurança? Existe um inventário dos sistemas da Administração Pública que utilizam versões do PHP sem suporte, como a 8.1 ou anteriores? Foram identificadas entidades nacionais afetadas pela versão maliciosa do LiteLLM ou por certificados da eMudhra?
- Perante a escalada híbrida contra os Estados bálticos e o pré-posicionamento documentado em infraestruturas críticas de países aliados, que avaliação faz o Estado português do risco de acessos obtidos nesta vaga estarem a ser recolhidos por atores estatais? E que mecanismos de partilha de informação e de atribuição conjunta existem com os parceiros da União Europeia e da NATO?
- No setor financeiro, o Banco de Portugal acompanha o uso de agentes de IA com credenciais de clientes, tendo em conta que o enquadramento europeu dos serviços de pagamento prevê canais próprios e regulados para o acesso de terceiros às contas?
A CpC dirige estas questões às entidades competentes.
Recomendações aos cidadãos:
A maior parte desta luta não cabe aos cidadãos, mas os pequenos gestos contam mais do que parece: não impedem os ataques em massa, mas tornam cada pessoa um alvo menos fácil do que o vizinho, e num contexto automatizado é precisamente isso que faz a diferença.
- Proteja as contas mais importantes, como o correio eletrónico, o banco e o serviço principal de armazenamento na nuvem, com chaves de acesso (passkeys) ou com uma chave de segurança física.
- Abandone a autenticação de dois fatores por SMS sempre que esteja disponível uma aplicação de autenticação.
- Use um gestor de palavras-passe, não repita palavras-passe entre serviços e ative os alertas de fugas de dados que o gestor ofereça.
- Não partilhe as credenciais do banco com assistentes ou agentes de IA, por mais conveniente que pareça.
- Consulte periodicamente o seu Mapa de Responsabilidades de Crédito, no Portal do Cliente Bancário do Banco de Portugal, para detetar créditos que não foram criados por si.





