João Manzarra e Ana Guiomar: 48 horas para desaparecer um bocadinho no Centro de Portugal
Dois dias podem parecer pouco para uma viagem, mas chegam para trocar as rotinas por uma mão-cheia de novas experiências, descobrir lugares inesperados e, no regresso, trazer boas histórias para contar. Ana Guiomar, João Manzarra e João Kopke aceitaram o desafio de desaparecer durante 48 horas no Centro de Portugal. A aventura pertence-lhes, mas o convite estende-se a todos os que procuram uma experiência memorável.
Quarenta e oito horas. Dois amanheceres, dois entardeceres e a oportunidade de nos concedermos o raro privilégio de deixar as horas fluir sem urgência. No calendário, são apenas dois dias. Na memória, podem ocupar um lugar desproporcionadamente maior. Um itinerário pode traçar-nos o caminho, mas não consegue antecipar o encanto de uma paisagem, o sabor de uma descoberta, o contacto humano ou a emoção de conhecer um lugar que até então só conhecíamos de nome.
Talvez seja essa a melhor forma de olhar para o tempo que se arruma, por exemplo, num fim de semana: não como o intervalo entre duas semanas de trabalho, mas como a oportunidade de descobrir novos mundos. Dois dias para trilhar um caminho de montanha, percorrer um castelo medieval, perder a noção das horas numa floresta com o seu quê de mistério ou entregar o passar do tempo aos prazeres da boa mesa. Na realidade, não é preciso ir muito longe para sentir que estivemos verdadeiramente fora.
Ana Guiomar, João Manzarra e João Kopke aceitaram explorar esse mundo de possibilidades no Centro de Portugal. Durante 48 horas, o trio embarcou numa viagem feita de paisagens, património, gastronomia e desafios inesperados, inspirada na campanha “Centro de Portugal. Desapareça um bocadinho”. A aventura tem os seus protagonistas e o seu percurso, mas deixa uma pergunta a quem a acompanha: e se, no próximo fim de semana, fosse a nossa vez?
DIA 1
Ovar e Aveiro: há segredos nas fachadas e poesia nas águas
Tudo começa com um envelope e um convite à perspicácia: “Há histórias que não estão nos livros. Estão nas paredes.” Em Ovar, Ana Guiomar e João Manzarra recebem pequenos fragmentos de azulejos e a missão de identificar as fachadas a que pertencem. A cidade transforma-se num enigma a decifrar. A dupla descobre um património cuja beleza se oferece ao olhar de todos, mas cujos pormenores nem sempre merecem a atenção devida.
O desafio é também uma sugestão para quem visita Ovar: percorrer as ruas com tempo para apreciar a extraordinária variedade de padrões, cores e motivos que fazem da azulejaria uma das expressões mais reconhecíveis da identidade local.
E, porque a história de uma cidade também se conta pelos sabores que são património de gerações, a missão seguinte conduz os protagonistas a uma confeitaria tradicional, onde os espera a delicada arte do Pão de Ló de Ovar. Nos ingredientes, técnicas e gestos aperfeiçoados pela experiência, descobrem que esta especialidade, reconhecida desde 2016 como Indicação Geográfica Protegida, deve tanto à simplicidade da receita como ao saber de quem a executa. Experimentar uma das etapas da confeção e provar o resultado tornam-se, naturalmente, os momentos mais apetecíveis da missão.
A viagem prossegue para Aveiro. Ali, o cenário urbano cede protagonismo à paisagem lagunar. Desta feita, o envelope invoca o espírito de Camões e propõe uma descoberta poética da ria. A bordo de uma embarcação movida a eletricidade e dispensando por momentos os telemóveis, os participantes devem identificar um som, um movimento e uma surpresa. Um exercício de atenção que restitui importância àquilo que habitualmente nos escapa: a cadência da água, o voo de uma ave, as pequenas alterações de uma paisagem em permanente transformação.
Aveiro oferece outras maneiras de prolongar essa descoberta. Dos canais e das embarcações tradicionais às fachadas Arte Nova, passando pelas antigas marinhas de sal e pelas ruas da Beira-Mar, a cidade conserva testemunhos de uma relação secular com a ria. E há ainda os ovos-moles, cuja doçura dispensa grandes apresentações, mas dificilmente isenta de uma prova.
Bussaco: os caminhos de uma floresta com séculos de história
A Mata Nacional do Bussaco, na Mealhada, reserva uma mudança de cenário e uma prova de orientação sobre duas rodas. Munidos de um mapa e de três pistas, os participantes, acompanhados por um anfitrião local, devem encontrar o destino final de um percurso de bicicleta que serpenteia entre árvores centenárias. Interpretar as indicações e trabalhar em equipa são condições para cumprir a missão, embora o maior desafio talvez seja resistir à tentação de se demorarem em cada recanto.
Afinal, o Bussaco é um daqueles lugares onde a natureza aprendeu a conviver com a história. Ali, erguem-se árvores monumentais, vindas de diferentes latitudes, fontes escondem-se entre a vegetação e humildes construções recordam-nos um outro tempo: aquele em que os Carmelitas Descalços procuravam nestas encostas o recolhimento da vida monástica.
Quem quiser seguir o exemplo dos protagonistas encontrará motivos de sobra para dedicar algumas horas à mata. O Vale dos Fetos, a Fonte Fria, com a sua monumental escadaria, e o miradouro da Cruz Alta oferecem sucessivas razões para prolongar a caminhada. De permeio, as ermidas e as capelas da Via Sacra testemunham a presença religiosa que moldou este espaço. No coração da floresta, a exuberância neomanuelina do Palace Hotel do Bussaco contrasta com a austeridade do vizinho Convento de Santa Cruz, compondo um conjunto de rara singularidade.
A visita ganha ainda outro significado desde que a Mata Nacional do Bussaco recebeu, em julho de 2026, a certificação de Floresta Terapêutica, a primeira da Península Ibérica. Um reconhecimento que valoriza a relação entre a experiência da natureza, a saúde e o bem-estar.
E, estando na Mealhada, seria difícil ignorar um dos grandes emblemas gastronómicos da região: o leitão assado da Bairrada, acompanhado por um espumante local. Uma tentação que, por si só, justificaria prolongar a estadia.
Mas o primeiro dia da aventura tem ainda reservado um encontro com os sabores da terra. Na Quinta Filippa, no concelho de Leiria, é preciso procurar os ingredientes na horta, conhecer os produtos disponíveis e participar na preparação da refeição, sob a orientação de quem domina os segredos da cozinha. Os protagonistas descobrem o prazer de transformar aquilo que a terra oferece num momento de partilha.
Uma forma de hospitalidade que vale a pena procurar nas muitas quintas, unidades de turismo rural e projetos gastronómicos do Centro de Portugal.




