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A Noite Mágica do Carnaval de Ovar – Correio do Leitor

Está na hora de dar um murro na mesa e dizer basta! Meus senhores e amigos, a autointitulada Noite Mágica do Carnaval de Ovar NÃO É ISTO, nem NUNCA o foi!!

No dia em que o sucesso da festa passou a ser medido pela quantidade de gente na rua, em detrimento da qualidade, perdeu-se o rumo e o respeito por uma tradição arrancada a ferros das mãos dos foliões e transformada num evento sem proporções.
O meu profundo respeito por todos os que participam na organização do maior evento da nossa cidade, em especial da referida Noite Mágica, mas NÓS não podemos continuar a participar nesta farsa, e a assobiar para o lado como se nada fosse. Esta não é a NOSSA Noite Mágica.

Para as gerações mais novas, que sempre viveram “esta” Noite Mágica, a do Carnaval de 2020 foi apenas mais uma. Porventura com mais gente, mais DJ’s reputados, copos de plástico mais resistentes e uma pulseira para puderem entrar na Festa. O que muitos não saberão é a que a “Noite Mágica” não é, nem nunca foi, ISTO!

Recuemos um pouco no tempo. Vá lá, um pouco mais. Nas décadas de 80 e 90, as festas de Carnaval eram realizadas em moradias e associações vareiras. Grupos de amigos e conhecidos juntavam-se para “brincar ao Carnaval”, aproximando gerações e gerações de foliões em torno de uma, ou várias festas, literalmente mágicas. Algures em meados dos anos 90 tive o privilégio de participar numa dessas Festas, num Mansão ovarense, onde o Carnaval se respirava em cada sala, em cada música, em cada fantasia. Terá sido, sem o saber, a Noite mais Mágica, do meu Carnaval de Ovar. Nos anos seguintes, as discotecas tomaram conta das festividades carnavalescas, concentrando foliões após uma breve passagem pelo centro da cidade. Até chegarmos a 2004. Nesse ano, a Noite de segunda para terça-feira tornou-se Mágica. Outros saberão explicar melhor do que eu os contornos financeiros/sociais da situação, mas a partir da noite em que a Banda tocou em frente ao chafariz do neptuno, o Carnaval de Ovar nunca mais foi o mesmo.
Mas nunca foi apenas uma noite. Amigos e conhecidos juntavam-se durante semanas nas garagens e casas uns dos outros, para preparar as suas fantasias (ou maquetes, como é apropriado dizer-se), para “desfilavam” noite dentro, do largo do Tribunal até ao Café Progresso e mediações. Era um Carnaval paralelo ao oficial, um que a única regra era ser feliz! E ter a “melhor” fantasia. Sem prémios ou hierarquias. Apenas a certeza de uma infinita diversão. Foi assim durante anos, até se ter institucionalizado o evento.

Envolto num mito de insegurança, mediatismo e outras coisas que tal, a autarquia assumiu para si a “organização” da Noite Mágica. Aos poucos, os desfiles improvisados de maquetes com uma qualidade incomparável ao que se vê por estes dias nas ruas da nossa cidade, foram sendo relegados para segundo e terceiro plano. As ruas, totalmente repletas de curiosos e festivaleiros, já não permitiam os alegres desfiles improvisados e aos poucos os foliões vareiros (ou ovarenses, como preferirem) foram-se refugiando lá para os lados do Parque de Estacionamento Júlio Dinis – paredes meias com a Adega Social e o atual My Spot – onde, mesmo sem o brilho das fantasias do início do século, se manteve, o que restava da nossa da folia e o seu respetivo acompanhamento musical, composto por marchinhas de carnaval, samba, música popular brasileira e latina, naturalmente, a música popular portuguesa.
Mas, pouco a pouco a festa organizada também chegou a esse beco tão tradicional do nosso Carnaval, obrigando-nos a participar em algo que não é nosso, nem nunca foi. Com uma qualidade musical altamente questionável, na qual a banda-sonora que criou a Noite Mágica foi totalmente substituída por ritmos mais pesados e repetitivos, perdeu-se o que restava desse mítico espírito carnavalesco vareiro.
Se é costume dizer-se que só faz a festa quem lá está, não é menos verdade que o estilo musical atrai um determinado público. E outro estilo musical irá atrair outro. De maneira alguma querendo estereotipar comportamentos, mas as evidências de quem assiste há mais de 20 anos à degradação da nossa Noite Mágica, estão lá para quem as quiser constatar.

Os autores dessa mítica segunda-feira do Carnaval de Ovar – tanto as centenas ou milhares que se juntavam para mostrar as suas fantasias, como aqueles que, bem cedo, ocupavam o seu lugar na beira da estrada para os ver passar – não podem permitir mais que se maltrate o legado de uma festa que outrora, foi a Melhor Festa de Rua do nosso país! NÓS que ajudamos a criá-la, fomos colocados de parte, trocando a folia vareira por efeitos de luz e sonoros, barracas de venda de bebidas alcoólicas e de comida, como se os restaurantes e bares da nossa cidade fossem incapazes de o fazer.

Podemos ter belas fotografias de concentração humana para mostrar, mas, ao percorrer as ruas da cidade nessa noite, facilmente se percebe que a realidade alarmante com que nos deparamos é bem diferente.

Urge iniciar um debate público sobre o futuro desse bem coletivo, denominado de Noite Mágica. A situação degradante a que chegamos é insustentável. Podemos atrair um vasto público, mas não é, nem pode ser, esse o público do Carnaval de Ovar.
Nesta noite têm-se multiplicado as discotecas a céu aberto pela cidade, na mesma proporção das bebedeiras, ressacas, sujidade e dimensão da tenda da Cruz Vermelha no Mercado Municipal.

Longe da demagogia ou da utopia, fica uma primeira proposta para resgatar a Noite Mágica para a sua essência. Acabar com a contratação de DJ’s e recuperar as marchinhas de carnaval, o samba, a música popular brasileira e latina e, naturalmente, a música popular portuguesa com recurso às Bandas locais e aos grupos e cantores locais que sentem e o promovem o NOSSO Carnaval. Para que, nessa noite, possamos voltar a circular nas nossas ruas com orgulho e alegria.

Cláudio Sousa (Ovar)

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