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A realidade do pós-pandemia: novos comportamentos e implicações na recuperação económica

A pandemia de COVID-19 tem o potencial para perturbar, em alguns casos, permanentemente a nossa relação com o trabalho. As consequências a curto prazo, especialmente no ano transato, foram súbitas e severas. Mundialmente, milhões de pessoas perderam o emprego ou foram colocadas em regime de lay-off, enquanto outras foram obrigadas a transformar as suas casas em escritórios improvisados. Por outro lado, muitos outros sendo considerados trabalhadores essenciais puderam manter um semblante de normalidade, nomeadamente médicos e enfermeiros, mas também outras ocupações menos óbvias e lembradas como trabalhadores da recolha do lixo.

Explorar os novos comportamentos

Todas estas mudanças vieram acelerar tendências pré-existentes no trabalho remoto e automação. Mas o impacto nos nossos comportamentos também se refletiu na nossa vida pessoal, tendo acelerado a nossa preferência por compras online ou até o uso acelerado de sites de encontros online.

Esta mudança de comportamentos irá forçar o tecido empresarial a adaptar-se. Alguns modelos de negócio saíram reforçados enquanto outros terão que necessariamente reinventar-se.

Reformular o modelo de negócio

Um exemplo em Portugal é o chamado comércio tradicional, normalmente localizado nas zonas centrais ou históricas de cada localidade. Os repetidos confinamentos e restrições no horário de funcionamento e lotação, tornaram virtualmente impossível para muitos lojistas sustentar os custos. Em alguns casos isto forçou os comerciantes a seguirem a tendência crescente do e-commerce e a colocarem os seus produtos online.

Hoje em dia, é possível criar um site personalizado de forma simples e fácil, mas isto implica necessariamente custos iniciais para a sua construção e custos recorrentes para a sua atualização e promoção, o que poderá justificar a preferência por plataformas pré-existentes, habitualmente denominadas por web-shops, que não são mais do que agregadores de vários produtos de diferentes vendedores. As mais famosas a Amazon, o eBay ou o AliExpress são amplamente conhecidas pelos portugueses.

Segundo a Associação da Economia Digital, em 2017 apenas 39% das empresas portuguesas tinham uma presença online. Em 2020 este número cresceu exponencialmente e fixou-se nos 60%. Este crescimento deve-se sobretudo ao aumento das micro e pequenas empresas na internet.

Turismo, a galinha dos ovos dourados

O sector da hotelaria e alojamento local foi fortemente impactado, tendo sofrido fortes perdas desde o início da pandemia. Em algumas zonas do país, como o Algarve, a taxa de ocupação de camas até ao final da época de Verão de 2020 desceu mais de 55%. Um dos principais «responsáveis» por esta quebra foi a quarentena obrigatória imposta pelo Governo britânico a quem regressasse de Portugal. Por outro lado, as restrições forçaram os portugueses a olhar para dentro na hora de escolher o seu destino de férias, tendo resultado num aumento de dormidas de 36% de turistas nacionais.

Estas circunstâncias obrigaram um setor que representa 8% do PIB português a reinventar-se. Entre as mudanças introduzidas destaca-se a reconversão dos seus quartos em espaços de escritório, procurando captar a atenção de executivos e nómadas digitais que procuram lugares agradáveis, com boa vista e com acesso às comodidades que um hotel oferece para trabalhar. Um exemplo é a iniciativa, Nomad Village: Ponta do Sol, promovida na localidade de Ponta do Sol, na Ilha da Madeira. Além do alojamento, as unidades locais oferecem espaços de coworking, eventos e salas de conferências, tudo isto inserido numa vila pitoresca, que reúne história, cultura, gastronomia e uma crescente comunidade internacional.

A Recuperação

A transição acelerada para o digital beneficiou sobretudo as grandes empresas tecnológicas mundiais. Além das já referidas plataformas de comércio online, os fabricantes de equipamentos eletrónicos de uso pessoal como Smartphones, Computadores, Auriculares, entre outros, viram as suas vendas disparar quer pela necessidade da aquisição de novos equipamentos para home-office quer porque muitas pessoas optaram por adquirir equipamento de entretenimento durante os meses de confinamento.

Infelizmente Portugal não se encontra bem posicionado para aproveitar estas tendências, sendo o seu tecido empresarial dos mais expostos aos efeitos negativos da pandemia, em que se destaca o Turismo, Restauração e Comércio local, muito dependentes do contacto direto com o cliente. Mas também as exportações de bens foram afetadas sendo um exemplo o sector de fabrico automóvel, tendo visto as suas encomendas reduzidas pela reticência por parte dos clientes em comprar novos veículos nesta altura de incerteza económica, bem como os efeitos da escassez de chips provocada pela elevada demanda de equipamentos eletrónicos de uso pessoal.

Contudo, o rápido avanço da vacinação em 2021 permite-nos olhar para o futuro com algum otimismo. A proteção oferecida por estas irá possibilitar um regresso gradual à normalidade, reabrindo as vias de comunicação com o exterior, facilitando a circulação de pessoas e bens, e devolvendo alguma confiança aos empresários para investir. Neste aspeto, a correta e eficaz utilização dos fundos europeus será crucial. Devendo favorecer-se o apoio às empresas mais afetas para que a recuperação seja acelerada.

 

 

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