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Abispa-te: Dependências sem substância vão agravar-se após a pandemia

Quando esta pandemia passar, vamos ter de nos preocupar com uma mudança nos problemas e nas dependências.

Jacinta Valente, directora do Centro Comunitário de Esmoriz (CCE), diz que, “a médio prazo, vão aparecer casos bastante mais graves de dependências sem substância que terão de ser alvo de um trabalho muito mais intenso”. Esta tem sido uma fase em que a comunicação dos jovens com o exterior se faz através de telemóveis e computadores e “eles já nem ligam à televisão”.

O CCE é o promotor do projecto “Abispa-te”, cuja missão é identificar e trabalhar as dependências junto dos jovens no concelho de Ovar. Germa­no Borges, coordenador do projecto, recorda que já antes da pandemia “se verificava que os alunos estavam nos recreios cada um com o seu telemóvel e já praticamente que não conversavam”. “Agora, o fenóme­no agravou-se porque estamos ainda mais focados no ecrã”.

Por outro lado, a Germano Borges assusta também a adição com substância, “porque quando nos virmos livres de algo que nos atormentou durante tanto tempo, os jovens estarão ansiosos por se divertirem e as saídas às discotecas e bares vão ter uma explosão e isso também me preocupa”. O ideal, adianta o responsável, “é começar a fazer um trabalho de prevenção desde já, porque tenho receio de quando voltarmos ao velho normal”.

Jacinta Valente informa que o Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), com quem o CCE tem uma relação próxima, já está desperto para esta nova realidade, “pois já realizámos relatórios a alertar para estas preocupações que vamos constatando no terreno”.
O projecto “Abispa-te” tem uma voz que é ouvida, pois tem um trabalho que fala por si, no concelho de Ovar, desde Julho de 2017, no contexto dos comportamentos aditivos e dependências, através do trabalho com crianças, adolescentes e jovens, desde o Primeiro Ciclo até ao Ensino Secundário.

“Actuamos muito nas escolas com a implementação do programa “Eu e os Outros”, sob orientação e financiamento do SICAD, organismo ligado ao Ministério da Saúde”, esclarece.
O “Abispa-te” actua dentro das turmas identificadas pelas escolas e envolve alunos com eventuais problemas ou não. “A prevenção é isso mesmo, é evitar que os problemas com substância e não substância surjam”, explica Germano Borges, apontando o álcool, os jogos, a Internet e as redes sociais, e até a canábis, como alvos, no sentido de os “abordar na perspectiva da prevenção”.

Também à distância
Normalmente, o projecto “Abispa-te” actua nas escolas todas do concelho, mas por causa da pandemia “propusemos actuar numa escola por período e, assim, no primeiro período estivemos na Escola Profissional de Cortegaça (Eprofcor), no segundo estivemos no Agrupamento de Escolas Ovar Norte e, no terceiro, estaremos no Agrupamento de Escolas Ovar Sul, mais concretamente, na escola Monsenhor Miguel Oliveira, em Válega”. “Estamos a trabalhar assim para minimizar os contactos”, acrescenta o técnico.

Com as novas directrizes da pandemia as escolas fecharam, os alunos foram para casa mas os técnicos do “Abispa-te” dispuseram-se a trabalhar a par do ensino à distância. “Embora não tivéssemos grandes expectativas, felizmente, a resposta foi muito positiva”, revela Germano Borges. Neste contexto, “pensámos em novas estratégias que passam, por exemplo, pelo aumento de seguidores no Instagram, porque é uma ferramenta interessante nestes tempos que nos aproximam mais dos jovens por ser a mais usada e é aquela que permite fazer directos para cima de 1.000 seguidores”.

Redes sociais na lista de adições
Mesmo sabendo que as redes sociais também estão na lista de adições, Germano diz que, “neste momento, a forma de contacto é facilitadora e o uso não é problemático, o que nos preocupa é o abuso”. Há casos de alunos que estão no projecto em contexto de sala e depois, em mensagem privada daquela rede social, abordam o projecto com o seu problema, a sua questão ou pedido de ajuda, “o que nos facilita bastante”.
Além do trabalho que é realizado com as escolas, o “Abispa-te” dispõe do serviço de acompanhamento psicossocial, com uma psicóloga que recebe os jovens indicados pela Comissão de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ), Comissão para a Dissuasão da Toxicodependência (CDT) em Aveiro e de treino de competências para famílias (parado neste momento por causa dos ajuntamentos), mas o coordenador assegura: “Estamos a tentar avançar com uma solução por videoconferência e ainda o Teatro Fórum, uma ferramenta através da qual se constrói uma peça que é apresentada com interacção do público e a partir daí se treinam estas questões, mas que também está parado por motivos óbvios.
Jacinta Valente refere que a “peça vai buscar as problemáticas que se colocam aos jovens, em diversas dimensões, seja na escola, na família, no abuso de consumos, no “bullying” e, a determinada altura, é interrompida e o público intervém, dando opinião sobre a conduta dos personagens”. Segundo a directora, “este é um treino de competência a que os jovens aderem muito bem e acaba por ser uma metodologia muito interessante”.

Prevenção continua
a ser a solução mais barata

Germano Borges não tem grandes dúvidas de que “estes confinamentos sucessivos têm agravado as dependências”. “É um perigo, porque estão em casa e o que fazem? Jogam”. No que diz respeito à adição por substância, como álcool, canábis ou tabaco, na sua opinião, “não será de tão fácil obtenção, mas se quiserem obter, conseguem”. “Aliás, temos pais a pedir ajuda porque encontraram coisas no quarto do filho. Se já forem dependentes, então é pior”, considera.
Segundo Jacinta Valente, este é um trabalho que nunca tem fim. Os financiamentos é que são curtos. “A nossa sorte é que temos as três dimensões – a prevenção, redução de riscos e a reinserção – e rentabilizamos as equipas, mas é importante dar ênfase a estas áreas”. Há municípios que têm planos municipais nestas temáticas, mas não é caso de Ovar. “O município dá-nos apoio para uma situação pontual, mas não há um plano municipal estruturado para trabalhar esta área”, refere a directora. “Por isso, também nos compete fazer chegar estes alertas e, além disso, a prevenção fica muito mais barata do que as fases que se seguem”, conclui.

(Ler + in Diário de Aveiro)

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