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Conservas “A Varina” estão outra vez na moda

Sardinhas em azeite de manjericão com pimenta chili doce e paprica fumada picante. Eis os ingredientes das “Conservas de Chefe Varina”, que Henrique Sá Pessoa, Chef com várias estrelas Michelin, serve no “Tapis”, um dos seus restaurantes em Lisboa, com muito sucesso e vencedor de vários prémios.

O famoso Chef português, premiado este ano pelo guia Boa Cama Boa Mesa (Chef do Ano) do jornal Expresso, inspirou-se certamente numa lenda das conservas nacionais. Nem mais nem menos do que a Fábrica de Conservas “A Varina”, nascida em Ovar. O entusiasta pela história de Ovar, José de Oliveira Neves, fez um aturado estudo de investigação em torno do tema e descobriu, no Arquivo Distrital de Aveiro, que no Séc. XIX as companhas que laboravam nesta zona de pesca eram todas registadas em Ovar, concelho que, na época, tinha seis Cartórios Notariais para esse e outros fins, dando origem a cerca de 4 mil livros. O que traz dificuldades acrescidas para quem procura elementos a este respeito.

No seu livro A Pesca no Furadouro (1800-1955)”, José de Oliveira Neves refere que algumas vezes acontece encontrarem-se inscrições de companhas e factos a elas aderentes, aparentemente do Furadouro e que, posteriormente, se verifica serem de Espinho, Silvalde, Paramos, Esmoriz, Cortegaça, S. Pedro de Maceda e de outras praias, até à Costa Nova.

Foi por ser tão importante na actividade piscatória desse período, que Ovar despertou o interesse da indústria conserveira.

No dia 27 de Abril de 1904 a Câmara Municipal de Ovar concedeu à firma Gomes, Meneres & Companhia uma área arenosa, situada a sul do Furadouro, para a construção de uma fábrica de conservas. Ali seriam construídas as instalações da filial de “A Varina”, inauguradas no ano seguinte. No final de Junho de 1905, o jornal local “A Discussão” dá conta do andamento da «construção da casa de madeira», dizendo que brevemente estaria pronta, para ali fabricar conservas de sardinha. Acrescentava que iria ser adjudicada «a construção do imponente edifício destinado à fábrica, no Largo do Mártir S. Sebastião, fronteiro ao de Almeida Garrett». A construção do frontispício do edifício foi adjudicada a um construtor do Porto. Por iniciativa dos proprietários, foi igualmente edificada a capela do Mártir S. Sebastião, como prometiam abrir à utilização pública a linha telefónica que iam instalar.

Assim, em Ovar era criada, no Largo Mártir S. Sebastião (1) (actual Praça Almeida Garrett), a fábrica “Luso-Brasileira” que, para além de conservas de peixe, produzia conservas de carne e de legumes.

Em 1903, esta fábrica passou, por trespasse, para a firma Gomes, Meneres & C.ª Lda., que ali instalou a Fábrica a Vapor de Conservas Alimentícias “A Varina”.

Os primeiros donos e dirigentes de “A Varina” foram Lino Brandão e seu filho Mário Brandão (fotos em baixo).

Segundo o ovarense Álvaro Malaquias, as fotos aqui reproduzidas são ambas de Lino Brandão pai, em épocas diferentes. Esta informação do Sr. Malaquias, que conheceu muito bem as personagens, colide com a do historiador Josué Gomes Fernandes Tato, que no seu livro “Memória da Indústria Conserveira” identifica duas fotos como sendo de Lino Brandão pai e Lino Brandão filho.

Foi também sócio da “A Varina”, Agostinho Fonseca Meneres, que era filho de uma grande industrial e comerciante do séc. XIX na cidade do Porto, Clemente Meneres. E ainda os Srs. Sousa e Coimbra.

O êxito desta fábrica foi imediato, provando-o o facto de, logo no ano seguinte, a Câmara Municipal, na sessão de 27 de Abril de 1904, ter atribuído àquela firma, para a construção de uma sucursal mais perto do mar, uma área arenosa situada a sul da praia do Furadouro, não exigindo qualquer retribuição. (2)

A fábrica de Ovar e a sua filial na costa do Furadouro destinavam-se, principalmente, ao preparo das conservas de sardinha, de que se abasteciam não só naquela praia como nas da Torreira, S. Jacinto, Costa Nova, e outras. Para facilitar esse abastecimento, aquela sociedade possuía uma lancha construída em madeira de Teca, movida a motor, a qual rebocava, através da Ria, até ao Carregal, os barcos provenientes daqueles portos piscatórios, carregados com a sardinha, que era seguidamente enviada para o seu armazém.

Por escritura de 1 de Junho de 1908, “A Varina” passou para novas mãos, a sociedade Ferreira, Brandão & C.ª, que viria a ser dissolvida a 30 de Janeiro de 1912, para formar a sociedade Brandão & C.ª Limitada. Nesse mesmo ano, exportou conservas para África, América e Europa.

 

Fábrica de conservas “A Varina”, em Ovar, no Largo Mártir S. Sebastião, em 1931

Em 1914, quando trabalhavam na fábrica 120 operários, o jornal ovarense “A Pátria” publicava, em 15 de Janeiro, uma petição da câmara de Ovar, apoiada por outros municípios do distrito de Aveiro, e dirigida ao Ministro da Marinha, “para ser mantida a lei de 14 de Maio de 1903 e punidos os abusos contra as disposições do decreto de 7 de Junho de 1913”.

O mesmo jornal, e na mesma época, referia que o Ministro da Marinha permitira, por decreto, a exploração da pesca por meio de cercos americanos na referida zona marítima (costa entre Espinho e Mira), revogando uma lei que, segundo a opinião do jornal, só ao Parlamento cumpria alterar.

E continuava o periódico: “Em virtude de tal permissão, a nossa costa está sendo constantemente assolada por uma legião de vapores de pesca, com grave prejuízo para as artes do arrasto, pois não só apanham a sardinha como também não respeitam as distâncias que, neste próprio decreto, foram determinadas”.

O historiador matosinhense Fernandes Tato esclarece que a forma de pescar do “cerco americano” era quase idêntica à das traineiras e motoras. “Contudo, pelo sistema do “cerco americano”, a sardinha, depois de pescada, era conduzida em embarcações movidas a óleo, a que se dava o nome de buques, que possuíam um depósito revestido de cimento, no qual o peixe era colocado, tendo-se o cuidado de se lhe extrair a água que porventura aparecesse”. (3)

A fábrica continuou a funcionar normalmente, contando, em 1917, com 137 empregados.

Em 17 de Maio de 1924, a Brandão & C.ª Limitada, que mantinha a sua sede em Ovar, tendo duas sucursais – uma no Furadouro e outra em Matosinhos –, modificou o pacto social, elevando o capital de 150 para 600.000$00. (4)

Não podendo ficar indiferente às transformações técnicas operadas na pesca, “A Varina”, que era a mais antiga fábrica do norte de Portugal, (5)  agora com a sua sede no edifício da Avenida Serpa Pinto, 350 (onde existia a filial de Matosinhos, e onde empregou vários trabalhadores transferidos das suas instalações de Ovar e Furadouro), continuou a manter o seu prestígio, tendo os seus produtos conquistado vários prémios em concursos no país e no estrangeiro.

E de tal modo se impuseram estas marcas que a firma foi distinguida com a Medalha de Prata na Panama Pacific International, Exposition de S. Francisco, Califórnia (1915), com a Medalha de Ouro na Exposição Colonial Internacional de Paris (1931), com o Certificate of Merit na Witwaters and Agricultural Show, em Joanesburgo, na África do Sul (1932), com o Grande Prémio de Honra na Grande Exposição Internacional (Portugal, 1932), e com o Grande Prémio e Medalha de Ouro na primeira Exposição Colonial Portuguesa (Porto, Palácio de Cristal, em 1934).

Em 1939, com a decadência da pesca artesanal no Furadouro, “A Varina” transferiu as suas instalações e a sede para a vila de Matosinhos, onde prosperava a pesca a motor.

Estatueta no topo da antiga fábrica de conservas “A Varina”, no Largo S. Sebastião, hoje Largo Almeida Garrett, fabricada por A. Costa & C.ª, Fábrica das Devesas, Vila Nova de Gaia (finais do séc. XIX e meados do séc. XX).  A modelo desta peça foi Maria Crista, mulher humilde de Ovar, carreteira de várias  firmas, entre as quais a do chapeleiro Oliveira, da Rua Elias Garcia, que levava à cabeça os eletrodomésticos ali comprados, inclusive  máquinas de costura. Encontra-se no Museu de Ovar.

No jornal “O Povo de Ovar” de 9 de Maio de 1940 começou a ser publicado um anúncio para a venda dos terrenos e edifícios de “A Varina” em Ovar e Furadouro, anúncio que terminou em 12 de Junho do mesmo ano.

Segundo informação dada por D. Aurora Libório a uma sua colaboradora, as instalações do actual Parque Almeida Garrett foram compradas, nos anos 40, pelo seu pai, Manuel Rodrigues Almeida, e por seu tio António Rodrigues Almeida, passando, posteriormente, a outros proprietários. (Os terrenos da antiga fábrica estão hoje ocupados com o empreendimento imobiliário do Centro Garrett).

Catálogo ilustrado da fábrica “A Varina”, de 1935, com a firma de Brandão & C.ª Lda

Antigas instalações de “A Varina”, na Av. Serpa Pinto, em Matosinhos, transformadas actualmente num supermercado, vendo-se ainda por trás a velha chaminé.

As instalações da empresa ao sul do Furadouro, entre as actuais Avenidas Tomás Ribeiro e Fernão de Magalhães, foram adquiridas, na mesma época, pelo Centro Vidreiro do Norte de Portugal, de Oliveira de Azeméis, de cuja sociedade fazia parte o Júlio Mateiro, que as utilizou para colónia balnear dos filhos dos trabalhadores daquela organização industrial. (6)

De 1959 a 1968, as mesmas instalações serviam para a celebração da missa dominical até à inauguração da nova Igreja (1969), abriram-se ao serviço da “Sopa dos Pobres”, criada por um grupo de beneméritos ovarenses, e a um serviço de apoio social às crianças do Furadouro, por iniciativa do Pároco local, Padre Fernando Lopes Ferreira, e das Irmãs da Congregação Jesus Maria José, que viriam a contar com a colaboração de elementos do Rotary Club de Ovar, dando origem ao Centro Infantil do Furadouro (15/12/1969) e, posteriormente, ao Centro de Promoção Social do Furadouro, oficializado em 1972.

Albergaram ainda, durante períodos de férias de Verão, crianças do Centro Social de S. Martinho da Gândara e das Paróquias de Junqueira (Vale de Cambra) e de Macinhata da Seixa (Oliveira de Azeméis).

Aquela velha fábrica do Furadouro, já degradada, foi ainda recolhimento de alguns deslocados das antigas colónias. Demolida em 1972, deu lugar ao empreendimento habitacional Barramares.

Em Ovar, onde teve o seu início, tal como na praia do Furadouro, já nada resta que possa lembrar aos mais novos aquela fábrica de conservas. Em Matosinhos, onde a firma se instalou em 1914, ainda se podem observar, na Rua Serpa Pinto, as antigas instalações fabris, actualmente transformadas num supermercado, em cujas traseiras permanece, altiva, a chaminé, símbolo daquela prestigiosa empresa.

Fábrica de Conservas “A Varina”, no Furadouro

 

Fontes consultadas:

Jornal JOÃO SEMANA (01/01/2011)
Autor: José de Oliveira Neves
conservasdeportugal.pt

(1) Já teve os topónimos de Largo da Estação, Largo Mártir S. Sebastião, Largo Alexandre Sá Pinto e, actualmente, Largo Almeida Garrett.
(2) Lamy, Alberto Sousa, “Monografia de Ovar”, 2000, Vol. II.
(3) Tato, Josué Gomes Fernando, “Memória da Indústria Conserveira”, ed. Câmara de Matosinhos.
(4) Lamy, A. Sousa, “Monografia de Ovar”.
(5) Tato, Josué Gomes Fernando, “Memória da Indústria Conserveira”, ed. Câmara de Matosinhos.
(6) No “Notícias de Ovar” de 12 de Junho de 1951, num artigo sobre o Furadouro, podia ler-se: “O espírito dinâmico e o coração generoso de Júlio Mateiro – um verdadeiro amigo da nossa Praia – não cessam de espalhar o bem”.

 

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