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Dois séculos depois, não há Pão de Ló S. Luíz na mesa de Natal

Promete voltar em fevereiro de 2023

No Natal é sempre assim. A rua José Falcão, no centro de Ovar, cheira bem, muito bem, tal é a azáfama das casas especializadas em produzir o doce tradicional da região.

Mas este há uma baixa de vulto. A casa do Pão de Ló S. Luíz está estranhamente de portas fechadas na melhor época do ano. “Informamos que estamos encerrados e reabrimos em Janeiro”, informa uma mensagem telefónica gravada. Na porta está afixado um aviso a informar que “reabre em Fevereiro”.

A casa do Pão de Ló S. Luiz já está encerrada desde novembro, pelo menos, adiando sucessivamente a reabertura.

Desde 1781 que ali se confeccionava, o doce, primeiro pela família Arrota e depois pelos descendentes da família Luiz, cujo produto era tido como “o mais legitimo e mais mimoso, apresentando as broas com mais “Ló” na parte superior, havendo uma maior concentração de humidade de ovos e ao mesmo tempo de massa finíssima e muito leve. Daí que apreciadores desta guloseima a apelidavam de “Pão de ló pitinho”.

A maioria dos membros desta família Arrota, que na generalidade exerciam a atividade de fragateiros no Tejo, Lisboa, Seixal, Arrentela, etc., foram-se projetando como arrais, patrões e proprietários, tendo-se destacado Luiz Oliveira Gomes, (1843-1913) que além de outras atividades, foi considerável proprietário de fragatas. (Noticia do jornal “O Século” de 15 de janeiro de 1913).

Como os seus antepassados, legítimos percursores desta especialidade mormente João Oliveira Gomes Arrota(N.1740), Manuel Arrota (N.1770), António Oliveira Gomes (N.1770), Manuel Oliveira Gomes (N.1805), José Oliveira Gomes (N.1818), casado Mariana de Oliveira Lírio, pais do referido Luiz de Oliveira Gomes, já se dedicassem ao fabrico de pão de ló na sua terra natal – Ovar – levou a que este fragateiro implementasse o hábito de presentear os seus clientes com Pães de Ló, nas quadras festivas do Natal e Páscoa, recorrendo a canastras próprias para o seu transporte. Por este motivo a confeção deste doce foi incrementada no segundo quartel do século XIX.

Este fabrico teve continuidade na pessoa da sua cunhada, Rosa de Oliveira Duarte (1860-1924), casada com Manuel de Oliveira Gomes (1854-1888), depois nos seus filhos Ana de Oliveira Gomes (1884-1942) e Luiz de Oliveira Gomes, sobrinho (1887-1944), (professor particular Almanaque de Ovar, edição de 1914, pág.31).

Posteriormente nos primos destes o casal Rosa de Oliveira Duarte (1905-1994) e Francisco de Oliveira Dias, (1899-1986), (Distinguido com a Medalha de Prata, pela Associação Comerciantes do Distrito de Aveiro, como o comerciante mais antigo de Ovar.- Jornal de Noticias de Ovar 21-08-1986).

A continuação do fabrico foi de responsabilidade de Luiz Duarte de Oliveira Dias e esposa Rosa da Silva Pilreira, filho e nora deste casal.

O fabrico até ao fim do século XIX, era muito rudimentar. A massa era batida à mão durante duas horas, em alguidares de barro vermelho com uma pá, e cozido em formas de barro forradas a papel de linho branco, em forno de lenha aquecido com pinhas ou ramos secos.

Havendo necessidade de testar a temperatura do forno, era utilizada uma vara comprida, levando na extremidade uma pequena porção de papel de linho, devendo permanecer durante algum tempo. Para que este período tivesse sempre igual duração, Luiz Duarte de Oliveira Dias, estabeleceu a reza do “Pai Nosso” ao mesmo tempo que se invocava uma boa cozedura. Os formatos de então eram baseados no arrátel, devido a uma forma de formato médio levar um arrátel de açúcar na sua confeção.

Era normal as pessoas de Ovar, fornecerem os ovos, açúcar e farinha, levando para si as claras sobrantes, pagando o chamado “feitio de fabrico”.

Para transportar os pães de ló, usavam tabuleiros destinados exclusivamente para o efeito, que eram guarnecidos por panos de linho lindamente bordados.
A continuação do fabrico em regime artesanal e familiar vem-se mantendo, tendo a Família Luiz procurado não perder a tradição quanto ao cumprimento integral da secular receita, tornando-o assim “O Mais Antigo e Acreditado” Pão de Ló de Ovar.

Por volta de 1948, época que se desenvolve e se expande ativamente a sua comercialização, os membros desta família, em memória dos seus antepassados que criaram e afamaram tão legitimo produto, deram marca de fabrico denominando-o de “Pão de Ló São Luiz de Ovar”, patenteado com as marcas de registo de Propriedade industrial nºs 165435 e 320875, esta última do bicentenário.

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