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Estação de Ovar enquanto personagem de Eça de Queirós

A Estação de Ovar dos Caminhos de Ferro não é uma gare qualquer. É um local de despedidas, mas também de emocionados e belos reencontros. É, hoje, por ventura, a porta de entrada mais importante da cidade (e do concelho).

É também uma estação com História, como poucas podem gabar-se de o ser. Está imortalizada na literatura. José Saramago e Almeida Garrett referem-se a ela, por exemplo, mas hoje o que nos traz aqui é Eça de Queiroz que a conhecia muito bem e fez dela personagem de «A Capital».

“A Estação de Ovar, no caminho de ferro do Norte, estava muito silenciosa, pelas seis horas da tarde, antes da chegada do comboio do Porto”.

É assim que Eça de Queiroz alavanca «A Capital», obra que  narra as aventuras e desventuras de Artur Corvelo, um jovem sonhador romântico que ambiciona uma carreira literária que lhe granjeará a fama e o elevará ao Olimpo da intelectualidade lisboeta.

O livro foi editado postumamente em 1925, sob a orientação de seu filho José Maria Eça de Queirós. Eça era filho de José Maria de Almeida Teixeira de Queirós, juiz de direito desde 1852, sendo nomeado procurador régio em Barcelos. Não chegou a tomar posse deste cargo pois foi designado juíz da 1ª vara do Porto a 7 de Abril. Entretanto, foi transferido para Ovar e ainda para Estarreja, de onde foi novamente transferido, a 17 de Abril de 1856, para o Porto, mas para o 2.º distrito criminal, mudando para o 1º distrito criminal da mesma cidade a 2 de Julho de 1858. É verdade, o pai de Eça foi o primeiro juiz do Tribunal da Comarca de Ovar.

Talvez, por isso, o jovem Eça tenha conhecido a gare vareira: Apesar da obra ter o seu início na vila de Ovar, constitui um fabuloso retrato do meio social e intelectual da Lisboa de finais do século XIX, bem ao estilo mordaz e acutilante de Eça de Queirós.

O seu personagem principal, Artur Corvelo, nasceu em Ovar, filho de Manuel Corvelo, escrivão de direito aqui estabelecido. Desta vila são também o endinheirado Joãozinho Mendes, o “Chouriço”, o delegado Pimenta e o advogado Silveira, “a maior autoridade literária de Ovar”.

O pai de Eça foi o primeiro juiz de direito da comarca de Ovar, após a sua criação a 31 de Dezembro de 1853. O Dr. José Maria de Almeida Teixeira de Queirós tomou posse a 21 de fevereiro do ano seguinte. Filho de Joaquim José de Queirós e Almeida, foi Ministro da Justiça (1847-1848), aqui permaneceu pouco tempo; fugindo a uma epidemia que varreu a vila, passou para a comarca de Estarreja e a 10 de dezembro de 1855 tomava posse o novo juiz de Ovar.

Enquanto aqui se manteve travou relações de amizade com várias famílias da vila, entra as quais a família Arala; amizades que perduraram e se transmitiram ao próprio filho que, quando o pai veio para Ovar tinha somente oito anos.

A verdade é que Eça de Queirós nunca esqueceu Ovar que visitou várias vezes, bem como aquela família Arala. “Em1880, veio a Portugal para umas longas férias, que duraram quase seis meses, e aproveitou para revisitar a casa dos avós em Verdemilho, Aveiro.

Acompanhado do poeta Coelho de Carvalho (um diplomata seu amigo), parou em Ovar para abraçar um amigo da família Arala e, segundo relata Calvet de Magalhães, em «Eça de Queirós, a Vida privada», ficou instalado numa pequena hospedaria a dois passos do Tribunal.

Em noite de insónia, compôs a meias com Coelho de Carvalho um epitáfio literário do poeta Jaime de Séguier, que gravou na parede da referida hospedaria, que aqui se reproduz a última estrofe:

«Na sua campa suspiram os ventos
e um cravo ri
caminheiro, detém teus passos lentos
E mija aqui».

Quando Eça de Queirós começou a escrever A Capital em 1877, planeava fazer uma narrativa curta de duzentas páginas, a primeira de uma série de novelas que pretendia ser uma pequena “Comédia Humana” portuguesa. Entusiasmado com o assunto do livro, acabou escrevendo seiscentas páginas, fazendo consideráveis mudanças ao longo dos anos, tantas, que morreu sem concluir a obra.

Certamente por isso «A Capital» está muito melhor realizada nos primeiros capítulos que nos últimos. Segundo o filho de Eça, de quem herdou o mesmo nome, seu pai, após esboçar uma obra, fazia-a de um fôlego, deliberadamente, desprezando estilo e forma, que só seriam levados em conta na reescrita. Exigente consigo mesmo, Eça estava sempre inconformado com a compleição dos seus livros, mesmo depois de realizar apuradas revisões. A primeira parte d’A Capital chegou mesmo a ser impressa por Ernesto Chardron, seu editor, mas o romancista impediu a circulação do livro, por não estar satisfeito com o resultado. O prejuízo provocou um desentendimento momentâneo entre os dois. Após a morte de Eça, o livro permaneceria ainda engavetado durante mais de vinte anos.

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