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Fundadora do Ballet Contemporâneo do Norte dança no FIMUV aos 82 anos

O Festival Internacional de Música de Paços de Brandão apresenta no próximo sábado o espetáculo “Iniciação”, em que o Ballet Contemporâneo do Norte sobe ao palco com a sua própria fundadora. Aos 82 anos de idade, Elisa Worm protagonizará assim a coreografia que se propõe revisitar os 25 anos de produção da companhia, num registo que cruza discurso real e ficcionado, nostalgia e sensibilidade, testemunho poético e documental.

Música, dança, luz e gesto cruzam-se este sábado, dia 02 de outubro, no segundo espetáculo da 44.ª edição do FIMUV – Festival Internacional de Música de Paços de Brandão, que levará ao Cineteatro António Lamoso, na cidade de Santa Maria da Feira, o Ballet Contemporâneo do Norte (BCN) e a própria fundadora da companhia, Elisa Worm. Aos 82 anos, a bailarina e coreógrafa deixa-se dirigir por Susana Otero, a atual diretora do BCN, e protagoniza a performance que procura sintetizar os 25 anos de história desse coletivo, numa première absoluta.
Susana Otero, diretora dessa companhia de bailado, explica que o processo teve início em 2020: “Com o objetivo de fazer frente às dificuldades económicas que o setor das artes enfrenta, o BCN convidou artistas e investigadores independentes a submeterem uma carta de interesse em colaborar no processo de criação do espetáculo ‘Iniciação’. A chamada dirigiu-se a todos os que viram parcial ou totalmente reduzida a sua atividade profissional – criadores, intérpretes, formadores e investigadores que trabalham em artes performativas como a dança, teatro, circo, cinema, vídeo, música, literatura, design, ilustração, fotografia e cruzamentos disciplinares”.
Os contributos que resultaram dessa  open call incluíram “ideias, palavras, imagens, sons, movimentos” e outras ajudas para o projeto, mas, devido ao contexto epidemiológico de 2020, o trabalho foi suspenso e a celebração do aniversário adiada. “Diários, cartas, fotografias, vídeos, desabafos, guiões para performances impossíveis, sugestões de leitura e músicas para ouvir de olhos fechados ou então para dançar até cair” foram, ainda assim, partilhados com o público numa iniciativa online – o [Re]Iniciação – e acabaram por imprimir um novo fôlego ao primeiro projeto, inspirando a evolução do conceito inicial.
“Passada a tempestade”, recorda Susana Otero, “recomeçámos a trabalhar com quatro ensaiadores: Joclécio Azevedo, Jorge Gonçalves, Mariana Tengner Barros e Miguel Pereira”. Elisa Worm associou-se à diretora da companhia como cocriadora do espetáculo e sua primeira bailarina, e, sob a direção dramatúrgica de Rogério Nuno Costa, o BCN apresenta agora, finalmente, a sua “Iniciação”. Nela irá, por um lado, evocar as práticas ritualísticas de início ou passagem e, por outro, refletir sobre o futuro da companhia através da memória dos impulsos e paixões que motivaram a sua fundação.
Essa análise revela-se, segundo Susana Otero, transversal à generalidade do setor: faz contrastar um tempo “que era feito de relações intensas e contínuas” com a atualidade “do empreendedorismo  freelance e  fast food que se apropriou das práticas artísticas contemporâneas”.
Carreira na Gulbenkian, em Londres e Berlim, e até no teatro
Natural de Lisboa, onde nasceu a 14 de julho de 1939, Elisa Worm iniciou a sua formação em dança clássica aos 15 anos e concluiu o Curso de Dança do Conservatório Nacional de Lisboa e o do Círculo de Iniciação Coreográfica sob orientação de Margarida de Abreu. Passou depois pela Royal Ballet School de Londres, onde recebeu formação de Anne Stringer, Barbara Fewester, Errol Addison e Palmela May, antes de prosseguir com Joana Denise e Anna Northcourt, também na capital inglesa, e Tatiana Gzovsky, Llene Gzovsky e Miloslav Lipinsky, já em Berlim.
De regresso a Portugal, integrou o extinto Ballet Gulbenkian entre 1969 e 1976, dirigiu o Conservatório Nacional de Dança durante seis anos e em 1978 fundou o “Dança Grupo”, que, sendo a primeira companhia de dança portuguesa independente, se manteve ativo e em tournée durante 12 anos. Em 1995, fundou o Ballet Contemporâneo do Norte, então com sede em Estarreja, e em 2007 deslocou-o para Santa Maria da Feira, onde tem tido o apoio dessa autarquia do distrito de Aveiro e também financiamento da Direção-Geral das Artes. Sob a sua direção artística e a da sua sucessora Susana Otero, a companhia tem apresentado espetáculos dirigidos por coreógrafos de renome nacional e internacional como Miguel Pereira, Mariana Tengner Barros, Joclécio Azevedo, Dinis Machado, Tânia Carvalho, Rebecka Stillman, Litó Walkey, Elisabete Finger e Rogério Nuno Costa. Essas produções têm, por sua vez, pisado palcos não apenas portugueses, mas também do Brasil, França, México, Espanha, Finlândia, Suécia e Alemanha.
Na atualidade, Elisa Worm continua ativa no meio artístico através do seu trabalho teatral na Companhia Maior e da colaboração com diversos projetos culturais aos quais empresta a sabedoria e experiência dos seus 50 anos de carreira. Essa disponibilidade e capacidade de partilha é, aliás, um aspeto que o diretor artístico do FIMUV, Augusto Trindade, realça como de peculiar interesse no espetáculo “Iniciação”. Para o violonista e pedagogo que dirige o festival de música financiado pela Direção-Geral das Artes, com o apoio da Câmara Municipal de Santa Maria da Feira e em parceria com a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, essas qualidades confirmam a transversalidade e o potencial de adaptação multidisciplinar da Música enquanto linguagem universal.
“A inclusão da dança no FIMUV, assim como a extensão do festival a géneros como a world music, o jazz e o fado, entre outros, são uma prioridade do evento há alguns anos”, declara. “Começámos pelo tango e agora associamo-nos à dança com o convite dirigido ao Ballet Contemporâneo do Norte, que completou 25 anos de existência pela mão de Elisa Worm e que, atualmente com a direção de Susana Otero, nos irá presentear com um excelente espetáculo”.
A Augusto Trindade também não passa despercebida a ironia que se reflete no nome oficial dessa performance e na participação de Elisa Worm. O músico defende que esse é, afinal, “o sonho de qualquer artista – até de qualquer profissional ou ser humano: combinar a juventude da sua ‘iniciação’ com o savoir faire de décadas de aprendizagem e experiência”.

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