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Há 120 anos… um eclipse solar – Por Vitor Bonifácio

... fotografado pelo vareiro Ricardo Ribeiro, precursor da fotografia em Portugal

Populares assistem ao eclipse na Praça da República

A propósito da exposição de Mário Lisboa, lembrámos as observações do eclipse solar de há 120 anos, realizadas na região, fotografadas por Ricardo Ribeiro, bisavô de Mário, que fundou em 1892, em Ovar, um dos primeiros estúdios fotográficos em Portugal. Desde então, sempre no mesmo local, cinco gerações abraçaram essa arte até aos dias de hoje, com a curiosidade de serem mulheres as representantes das últimas três: Duas Matildes (avó e mãe de Mário) e a sobrinha Dalila que mantém a tradição familiar nos dias de hoje. 

Populares assistem ao eclipse em Ovar

O ovarense Vítor Bonifácio, professor do Departamento de Física da Universidade de Aveiro (UA), explica aqui o evento que aliou ciência e divulgação e contribuiu para minimizar o pânico que este tipo de fenómenos provocava nas populações incautas.

No dia 8 de maio de 1900 saíram, do observatório de Greenwich, com destino a Southampton, as tendas e a maior parte dos instrumentos. Três dias depois partiram os observadores levando, como bagagem de mão, o delicado espelho de 16 polegadas de diâmetro e duas caixas de placas fotográficas. Os cálculos tinham sido efectuados há anos e a preparação iniciara-se há meses. Definiu-se um programa científico que incluía fotografias detalhadas da corona e do espectro solar. Escolheu-se uma localização geográfica com probabilidade de ocorrência de bom tempo.

Na manhã do dia 17 chegaram a Ovar, entre outros, o diretor do observatório de Greenwich, William Christie, e o seu sucessor no cargo, Frank Dyson, que, anos mais tarde, viria a desempenhar um papel fundamental nas expedições britânicas de 1919 que confirmaram a deflexão da luz prevista por Albert Einstein. A linha de caminho de ferro, uma das revolucionárias comodidades do século XIX, facilitou o transporte dos instrumentos e trouxe muitos curiosos à vila de então. De entre as estimadas 25000 pessoas, a história regista, por exemplo, a presença dos príncipes D. Luís Filipe e D. Manuel que ficaram alojados nos paços do Concelho e de alguns membros da British Astronomical Association, entre os quais se encontrava o advogado, astrónomo amador e divulgador de ciência George Chambers.

O eclipse de 28 de maio de 1900 iniciou-se no oceano Pacífico, passando a sombra da Lua pelo México, Estados Unidos da América, oceano Atlântico, Portugal, Espanha, Argélia, Tunísia, Líbia, terminando no Egito. A sombra entrou no continente europeu na costa portuguesa, passando a linha central por Ovar. O eclipse total foi visto da Gafanha da Boa Hora a Matosinhos. Em Viseu encontravam-se as expedições do Observatório da Universidade de Coimbra, da Escola Politécnica de Lisboa e da Escola Naval. No interior a sombra passou, ainda, pela Guarda e Covilhã.

O dia nasceu soalheiro e com o céu limpo. No entanto, o aparecimento posterior de algumas nuvens altas causou apreensão no acampamento britânico. Conforme previsto a Lua interpôs-se entre a Terra e o Sol e realizaram-se, com sucesso, as observações exaustivamente ensaiadas.

Os eclipses do Sol, que anteriormente provocavam o pânico das incautas populações, passaram a ser objeto de tranquila observação e até serviam de pretexto a agradáveis excursões. A diferença entre estas duas opostas abordagens deve-se à ciência… e à educação.

Vitor Bonifácio,
Investigador do CIDTFF da Universidade de Aveiro
Contacto: https://www.ua.pt/fis/person/10315577;
[email protected]

A rubrica, Educação à Escuta, que incluiu esta comunicação, está disponível para audição na plataforma da Rádio Terra Nova, em podcast.

 

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