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Joana Santiago: “Vivemos tempos de aprendizagem com as gentes da terra e do campo”

Fevereiro foi de grandes emoções para Joana Santiago. O início do mês trouxe-lhe mais um reconhecimento, depois celebrou o seu aniversário e ainda festejou uma das suas festas preferidas, o Carnaval em Ovar.

A Revista de Vinhos elegeu “Sou Alvarinho” na lista restrita dos “Vinho de Excelência 2020”, incluindo-o no “TOP 30 dos Melhores Vinhos de Portugal. O selo “Excelência” marca o topo da produção nacional nas mais diversas categorias e nas diferentes regiões.

Reside em Ovar, mas quando se fala em percurso profissional não é possível esquecer que Joana Santiago trocou, um dia, a carreira de advogada pelas vinhas da região de Monção e Melgaço. Não tardou que a qualidade dos seus vinhos Alvarinho, aliados ao apoio da família e à sua irreverência, colocassem a Quinta de Santiago entre os mais reconhecidos pequenos produtores da região.

Antes de mais, parabéns por mais este sucesso. Esta última distinção teve um sabor especial ou foi só mais uma?
Esta última distinção teve um sabor especial por várias razões. Lançamos o vinho “Sou Quinta de Santiago e Mira do Ó 2018”, no online em plena pandemia, no dia 1 de Junho de 2020. Um vinho incrível, autêntico com uma abordagem diferente da que tem vindo a ser a da Sub_região de Monção e Melgaço na generalidade. Fomos capa da Revista de Vinhos com este vinho, recebemos excelentes críticas e vendemos praticamente todo o vinho mesmo em tempos difíceis como os que vivemos e sem que conseguíssemos dar à prova nos eventos nacionais, nas lojas ou restaurantes. Os consumidores confiaram em nós e isso é muito gratificante! Desta forma terminar começar o ano no TOP30 dos melhores vinhos de 2020, com esta primeira edição do “Sou Quinta de Santiago e Mira do Ó 2018” foi muito especial para nós e para o nosso parceiro nesta aventura, Nuno Mira do Ó, produtor e enólogo do projecto pessoal Mira do Ó Vinhos! Uma distinção com um vinho fruto de uma parceria também é sempre melhor… faz parte de algo em que acreditamos, a partilha !

O actual confinamento está a ser passado em Ovar. Dá para gerir o tempo entre Ovar e a Quinta de Santiago ou é tudo em teletrabalho (se tal for possível)?
O primeiro confinamento foi mais difícil em termos logísticos porque estávamos “fechados” em Ovar e eu não conseguia ir a Monção. Neste segundo confinamento apesar do cansaço psicológico que todos vivemos (com excepção das minhas filhas que adoram estar em casa e esta vida para elas é perfeita) não estamos fechados e eu consigo deslocar-me entre Ovar e Monção como fazia antes. Têm sido tempos de organização, de planeamento, de mudanças, de criação. Tempos em que trabalho também no campo e aprendizagem com ” as gentes da terra e do campo”. Quando não estou em Monção como todos em geral tento trabalhar em teletrabalho o que é muito difícil, confesso.

Além do (tele)trabalho, há o marido, filhos, casa… Como se gere tudo?
Como gerir tudo em casa em confinamento e em teletrabalho ?! Com muita organização e apoio familiar … A mais velha (com 10 anos) vai deitar-se cedo mas a mais nova ( 3 anos) deita-se pelas 24h. A mais velha acorda às 7.30h, faz a sua cama e começa as suas aulas às 8.30h e a mãe no tele trabalho. O pai já saiu as 7.20h. A pequenina dorme até as 11h , a mãe deixa o teletrabalho e brinca com ela até que a mais velha acabe a sua escola online. Almoçamos e de tarde contamos com a ajuda dos avós para ficar com a mais pequenina para que continuem as aulas e as profissões dos pais, as compras e as arrumações/gestão da casa, o apoio nos trabalhos de casa, o desporto online, as refeições, etc.! Quando não é possível o apoio dos avós atiramos a moeda ao ar para ver quem vai ficar com as miúdas no dia seguinte! Mas cheguei a fazer treinos online em casa com a Leonor a chorar os 40 minutos porque não queria que estivesse a fazê-lo. Contudo, todos temos que nos adaptar e é importante cuidarmos de nós para mantermos a sanidade! Ao fim de semana aproveitamos sempre para fazer atividades em família! Quando eu não estou porque vou para Monção as minhas crias ou vêm comigo ou conto mais uma vez com o pai e com os avós!

Como foi passar o cerco sanitário retida em Ovar?
O cerco sanitário em Ovar foi muito complicado porque apesar de não ter ninguém na adega (a minha funcionária estava grávida) e por isso a precisar de me deslocar até à mesma, para realizar operações de adega (Lotes, engarrafamentos, etc.) nunca consegui autorização para tal! Contei com a ajuda dos meus pais que estando em Monção foram incansáveis e foram os meus olhos e mãos durante o cerco. Na altura até podiamos ter ido os quatro para Monção, não ficando em Ovar mas era tudo tão assustador e desconhecido que tivemos receio pelos meus pais (grupo de risco), pois não tínhamos feito os 15 dias de segurança que garantissem que não estávamos eventualmente infectados e decidimos ficar em nossa casa. Aproveitamos esse tempo para parar e estarmos focados nas miúdas para que vivessem tempos felizes e ” normais ” em casa! Comecei a trabalhar muito mais o online com a Quinta de Santiago, tendo sido das primeiras produtoras a fazer Lives … e fiz tantos que dentro do sector me chamavam carinhosamente a rainha dos lives !

Foi a tua avó Maria quem te desafiou a produzir o teu próprio vinho. Este pendor feminino sente-se também nos vinhos?
Foi a Avó Mariazinha que nos desafiou a passar mais tempo com ela aqui em Monção e a criarmos a marca de Vinhos Quinta de Santiago, deixando assim de vender uva. Ela é a razão pela qual hoje faço uma coisa pela qual sou apaixonada … se não fosse ela, talvez ainda não me tivesse encontrado! Este cunho feminino naturalmente tem sempre que se sentir pois se esta quinta era gerida por ela, agora é também por uma mulher! Não acho que os nossos vinhos sejam por isso femininos (se é que este conceito existe) mas a nossa imagem é cuidada e muito elegante e por isso podem fazer essa relação! De qualquer forma, uma coisa é certa… o perfil dos nossos vinhos é inspirado no que a minha avó fazia e ela era uma mulher de garra!

A Pandemia tem afectado as vendas de vinhos. Como é que a Quinta de Santiago tem procurado contrariar essa quebra?
A pandemia tem afetado o setor dos vinhos que não trabalham na moderna distribuição (supermercados) porque com o fecho dos restaurantes e lojas de vinhos, garrafeiras, mercearias, lojas gourmet deixaram de ter canais de venda ! É o nosso caso. Houve uma transferência do consumo para casa e desta forma a compra passou a ser feita nos supermercados… os únicos abertos! Começamos assim, no mercado nacional, a fazer dinâmicas de venda online, criando campanhas transversais para os nossos parceiros venderem mais os nossos produtos nesse canal. Apostamos mais no mercado internacional e tentamos compensar a diminuição das vendas no nacional com o aumento no internacional. Uma coisa que nos deu algum animo foram as vendas lá fora e os clientes novos que fizemos pelo mundo, em reuniões online!

Participar em iniciativas online sobre vinho? Quais te interessam mais?
As iniciativas online que me interessam mais são as que juntam pessoas de quem gosto ( com quem privava antes e agora não) e que de uma forma descontraída falam ou falamos de interesses comuns !

A Quinta de Santiago está a habituar-nos a vinhos de grande qualidade. Qual é o próximo passo?
Somos mentes inquietas, explorar a casta Alvarinho e criar novos vinhos está-nos no sangue, obviamente, temos novos alvarinhos para lançar, temos um loureiro monocasta quase a ser lançado, uma nova parceria com um produtor do Douro, mas talvez a grande novidade e o próximo passo por sairmos da zona de conforto (e a genialidade acontece sempre fora da zona de conforto) será lançarmos o nosso primeiro Tinto !

Adepta do Carnaval, como é que a Joana Santiago viveu a folia em casa?
Cá em casa, o Carnaval foi acontecendo desde o dia em que seria a festa da Aldeia do carnaval… fizemos a festa da viela em casa! No Carnaval, mascaramo-nos a rigor e não faltou música de carnaval, confetis e serpentinas para todos cá em casa, vinho para os pais e muito boa disposição… organizamos uma festa via Zoom com os amigos!

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