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Júlio Dinis e o processo de autodescoberta de Rui Pedro Lamy

O processo criativo e produção do documentário “Júlio Dinis em Ovar”, de Rui Pedro Lamy, foi tema de conversa nesta tarde de domingo, no Museu Júlio Dinis.

O OvarNews falou com realizador que, embora tenha tenha nascido em Ovar, redescobriu-se enquanto autor e redescobriu a terra Natal durante o processo.

O que vamos poder ver neste documentário? O documentário é sobre a passagem de Júlio Dinis em Ovar e abordar a importância dessa paragem forçada a que ele foi obrigado por causa da tuberculose. O pai disse-lhe para ele vir para casa da tia Rosa e, através dessa paragem, ele começou a identificar outro tipo de Portugal. Começou a interessar-lhe o Portugal mais rural, com as actividades agrícolas, um país ainda muito dedicado aos ciclos rurais, ao cultivo da terra. Embora, no início, não lhe tenha agradado muito, depois começou a gostar bastante e estendeu no tempo a sua paragem em Ovar. Começou por ficar quatro meses e depois voltou várias vezes.

Há referências às obras que ele escreveu aqui? Foi aqui que ele escreveu as “Pupilas do Senhor Reitor” e pensou outras obras. “A Morgadinha”, claramente, que foi pensada por aqui porque o Henrique de Sousa é criado à sua imagem. Foi a passagem por Ovar que fez com que Joaquim Gomes Coelho se tornasse Júlio Dinis e começasse a ter esse tempo para começar a escrever, a pensar e a conhecer esse Portugal que ainda desconhecia e a travar conhecimento com esses tipos que aida não tinham degenerado, como ele dizia. E basicamente foi aqui que começou esse grande processo de escrita e criação desse personagem que foi Júlio dinis.

Este é um documentário diferente. Podes explicar em que aspectos? Cerca de 95% do meu trabalho a nível do audiovisual é documentário e trabalho muito com museus e nesse âmbito consigo registar aquilo que existe, seja a nível de arqueologia, seja em 3D. Aqui, estou a trabalhar uma pessoa que já não estava cá e que de certa forma havia esta ligação da sua vida com a sua obra. Porque a obra dele é bastante autobiográfica. Ele transformou as suas vivências em personagens das obras e em momentos que depois foram vertidos tanto na “Morgadinha dos Canaviais” como nas “Pupilas do Senhor Reitor”. Assim, aqui achei que seria interessante criar algo de novo, ou seja, pequenos momentos de ficção que representassem essas reconstituições da passagem dele por Ovar. Sendo tão importantes para a obra que escreveu, entendi que isso deveria ser visível. Ao mesmo tempo, estou igualmente a mostrar o território, pois fiz um documentário que não mostra apenas filmes de arquivos e entrevistas. Tentei fugir de um trabalho que ficaria muito fechado, só com pessoas a falar e assim consigo mostrar a casa que o acolheu, que é extremamente importante, e o museu que me fez o convite para fazer este trabalho. Através da ficção e através dessa narrativa vou combinar estes elementos.

O documentário já tem data de estreia? Tivemos várias questões pelo meio e vimo-nos obrigados a alterar as datas e vamos fazer uma apresentação no dia 13, mas a estreia terá de ser agendada mais para a frente.

Enquanto realizador, qual será a novidade que conseguiste implementar neste trabalho? Julgo que a introdução de elementos novos da ficção no documentário museográfico será a novidade principal. Estou a trabalhar com equipas maiores, porque normalmente trabalho com equipas mais pequenas, pessoas reais que existem mesmo. Aqui, o desafio foi uma equipa maior, o que não tem sido fácil, envolvendo a comunidade, grupos etnográficos e imensa gente envolvida para fazer esta máquina trabalhar. Mesmo sendo pequenos momentos, tem sido um trabalho que nos levou onze dias de rodagem.

A realização deste documentário foi, de certa forma, uma autodescoberta? O que eu sei é que está a ser uma oportunidade super importante e muito interessante. Acho mesmo que, por estranho que pareça, tenho muitas parecenças com o Júlio Dinis. Inicialmente nem achava muita piada a Ovar, mas agora já vejo que tem os seus pontos muito interessante. Estou a ser muito acarinhado tanto pela Casa-museu, como pela comunidade que me está a ajudar. Por isso estou muito contente e, claro, é sempre importante fazer algo pela nossa terra.

Este é um documentário que pode ir a concursos e festivais? Não o estou a fazer a penar nisso, nem nos prémios. O que eu quero é que fique agradável de ser visto, que se consiga ver com interesse e cumpra o objectivo. Depois, temos de ver o que vai sair daqui, porque podemos optar por uma versão mais curta ou por uma versão mais longa. Temos de ver o que se pode fazer. Sei que Júlio Dinis é um nome que não tem sido muito trabalhado e isto pode ser uma peça importante que pode colmatar um nicho com hipótese de ter algum sucesso.

Que outros projectos se seguem para p Rui Pedro Lamy? Estou a finalizar dois filmes sobre tradições do nordeste transmontano. Um sobre as Festas dos Rapazes de Varge, que é uma longa metragem, e a iniciar o seu processo de distribuição. Tenho outro que é o “Chocalheiro de Bemposta” que está em fase de montagem. O primeiro chama-se «O grito da raposa na noite fria” e o outro “O que sofremos nós não sofrem as pedras” e gira em torno de uma senhora que é a Dona Lúcia e da sua relação entre o território, a dor e a fé. Paralelamente a estes ainda estou a iniciar outro projecto em Idanha-a-Velha constituído por dois filmes, uma curta para museu e uma longa que é sobre a cidade antiga.

Até quando vais andar por Ovar? Vou estar cá até ao final do ano, no máximo, até final de janeiro. Depois sigo para outras paragens porque tenho estes e outros projectos.

Fotos: Sara Vieira e Ethnos

 

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