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Manuel Freire entre (muitos) amigos no museu

Para fechar um ciclo das sessões do “À Palavra no Museu de Ovar” que, segundo o escritor Carlos Nuno Granja, vai beneficiar de um renovado formato, o artista convidado, no dia 19, foi Manuel Freire, que mesmo sem cantar uma das suas muitas canções que estão na memória de várias gerações de portugueses e muito em particular dos ovarenses, como Pedra Filosofal de António Gedeão, proporcionou uma agradável noite aos presentes.

Contou muitas histórias que marcaram a sua infância e adolescência em Ovar, terra onde chegou com 3 anos de idade, acompanhando os seus pais, ambos professores, deixando para trás Vagos, a terra onde nasceu e como admitiu, talvez por razões políticas, durante muito tempo, o esqueceu.

Manuel Freire, com a sua voz inconfundível, mesmo num agradável encontro de amigos, começou por afirmar que “não tenho nada de novo para vos dizer”. Mas rapidamente deixou escapar um momento de emoção, ao lembrar o fundador do Museu de Ovar, Augusto Almeida, por com ele ter partilhado o entusiasmo de dar corpo à construção de uma instituição cultural que o voltou a receber ao fim de muitos anos.

Como reconheceu o artista que se estreou na música com um EP editado pela Tecla, em 1968, com as canções “Dedicatória”, “Livre”, “Eles” e “Pedro Soldado”, Ovar “teve uma importância fundamental na minha vida”. E foi, fundamentalmente, em torno das suas vivências enquanto jovem e adolescente, que foi contando histórias de um tempo em que, tinha Manuel Freire 14 anos de idade, “perceberam que um grupo de miúdos podia fazer coisas diferentes”.

Com alguns dos companheiros e companheiras de aventura na sala, um projecto cultural, recreativo e desportivo concretizado foi a fundação do clube GAV – Grupo Atlético Vareiro, com campo de jogos para as formadas equipas de basquetebol e andebol de 7. Mas como canta Manuel Freire, “o sonho comanda a vida” e “o sonho é uma constante, da vida”, tal como estes jovens que se sentiam com necessidade de respirar liberdade e rasgar as amarras que mantinham um povo oprimido, muitos outros sonhos ganhavam forma.

Lembrou o papel de Mário Cascais que, como recordou, os “incentivou ao teatro e à poesia” realizando ensaios no então Chalé dos Malaquias, na praia do Furadouro, “à luz de velas, já com uma parte levada pelo mar”. Noites inesquecíveis trazidas à memória colectiva, que deixavam transparecer um brilhosinho nos olhos de um homem de causas sociais.

E como “não há machado que corte a raiz ao pensamento”, foi bem cedo que participou em momentos de resistência ao pensamento único do regime da época, cuja policia não queria deixar levar à cena a peça de Régio, excepto a coragem de Mário Cascais, de afirmar que a peça iria até ao fim e depois podiam ir todos presos. Uma peça que não chegaria a ser representada, uma vez que um actor entre o público que enchia o Cine-Teatro de Ovar barafustava para o palco, o que levou a policia a intervir, sendo mesmo necessário esclarecer que se tratava de um actor a representar.

Um exemplo de resistência através da cultura que não deixou de influenciar, nomeadamente o Manuel Freire enquanto jovem.

A noite de mais um “À Palavra no Museu de Ovar”, dinamizada por Carlos Nuno Granja, foi demasiado curta para um bom conversador, um gosto que como contou, marcou a sua juventude, e sem querer comparar épocas, prefere deixar a mensagem, “vamos valorizar o que de melhor tivemos”. Com esta ideia, preferiu continuar a partilhar momentos e histórias que muitas vezes arrancaram profundas gargalhadas. Desde o “bilhar russo” que gostava de jogar no Santos, no Furadouro, ou num outro estabelecimento na zona da Estação da CP de Ovar e que, numa viagem profissional pelo Brasil, viria a encontrar uma mesa  de “bilhar russo” no meio da Amazónia. Mas delirante foi a viagem à Itália com o amigo Rui, com passagem por Amesterdão um ano depois do Maio de 68.

Como diria Manuel Freire, “tínhamos ideias boas para o Mundo, mas adormecíamos”. Felizmente que este jovem que frequentou o ensino em Ovar e Aveiro, chegando a estudar Engenharia, em Coimbra e no Porto, se negou a deixar adormecer um país inteiro. Entrou no Teatro Experimental do Porto, em 1967 e, entretanto, como cantor, não escapou à censura, vendo ser proibido o seu EP por incluir “O sangue não dá flor”, entre outros temas, como, “Trova do emigrante”, “Lutaremos meu amor” e “Trova”.

Uma censura que obrigou à edição de um single só com os temas “Lutaremos meu amor” e “Trova”. A resistência através das canções, antes e depois de Abril, teve como ponto alto a participação no programa Zip-Zip em 1969, onde lança Pedra Filosofal. Interpretação que lhe valeu o Prémio da Imprensa desse ano, em conjunto com Fernando Tordo. Uma extraordinária carreira artística que, ao contrário dos tempos que correm, a sua obra, os seus êxitos, as suas memórias, não são efémeras como o produto comercial de usar e deitar fora que hoje existe e de que não ficam memórias.

José Lopes

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