CulturaSlider

O Cantar dos Reis de Ovar em Moçambique

José Muge recorda como levou de Ovar a tradição de Cantar os Reis

A tradição de Cantar os Reis em Ovar é secular e corre nas veias dos vareiros onde quer que eles se encontrem. Nos quatro cantos do mundo, onde houver um vareiro, há sérias probabilidades de se ouvir uma celebração reiseira.

José Muge foi um dos elementos do célebre Conjunto de Oliveira Muge cujas primeiras actuações remontam aos longínquos anos de 1959/60, ao vivo em Ovar, no Café Progresso e Orfeão de Ovar e ainda noutras localidades do distrito de Aveiro, assim como no Porto, nos estúdios da RTP, com dois programas em directo e no Rádio Club Português (RCP/Norte).

Em 1962, resolveu ir até África, “porque o meu irmão (António Oliveira Muge, já falecido) estava lá sempre a chamar-me e o Policarpo tinha o pai fora e também tinha espírito aventureiro”. E partiram para Vila Pery, em Moçambique.

A fama da tradição vareira galgava fronteiras e no ultramar português já era conhecida.

“Lembro-me de estar em Moçambique e mesmo lá terem-me proposto fazer uma Troupe de Reis em Vila Pery, onde vivíamos”.

Acedeu. E com letras e músicas de outros anos “reiseiros” em Ovar, Muge ergueu uma troupe à imagem do que faria em Ovar e lembra-se que foi um sucesso. “Fizemos uma troupe e escrevemos numa folha a explicar como eram os Reis de Ovar e as pessoas liam, acompanhavam e ouviam-nos com prazer”.

José Muge recorda-se de ser recebido em cada casa de Vila Pery “como se fosse um casamento. Era uma festa enorme”. “Foi de tal ordem que chegávamos a demorar mais de uma hora em cada casa”. “Toda a gente queria cantar os temas reiseiros, de modo que só acabamos de fazer a ronda pela cidade em abril”, lembra, sem esconder a saudade.

Os Reis de Ovar foram recriados em Moçambique durante cerca de quatro anos, “até à independência e eu sempre pensei que era uma tradição que ia ficar lá”.

A “Mãe”

Oliveira Muge foi um dos grupos portugueses de maior sucesso no estrangeiro de sempre. José Muge conta que o conjunto tocava em Moçambique aquilo que tocava em Portugal, “mas entretanto começou-se a valorizar os originais e quando gravámos um disco, o Policarpo apareceu, timidamente, com uma canção que escrevera à mãe. Segundo ele, aquilo não servia para nada”. José Muge disse-lhe: “Traz cá para nós ouvirmos. Claro que todos gostámos e gravámo-la logo”.

O disco tinha mais temas, mas “A Mãe” foi o que realmente tocou toda a gente. “Posso dizer que tive a noção de que ia ser um grande sucesso, sabendo o tempo que vivíamos e o quanto o povo português é sentimental e saudosista”. “A Mãe” teve um impacto enorme e vendeu muitos e muitos discos e levou o grupo ao primeiro lugar do top de vendas em Moçambique, onde se manteve durante várias semanas. Foi das canções mais solicitadas pelos militares em Moçambique, no período da Guerra Colonial.

A imprensa francesa especializada chegou mesmo a questionar de quem era aquela música. A explicação é simples; “Toca as pessoas, é muito bonita”, reconhece, orgulhoso, José Muge.

“Foram momentos muito felizes os que vivemos ao serviço da música, conjuntamente com os nossos amigos, fãs e admiradores daquela época e estamos certos que aqueles momentos vividos ficaram bem gravados no coração de todos nós”, justifica José Muge.

O conjunto manteve-se activo até cerca de 1974, reaparecendo em 1976, actuando durante vários anos no Restaurante Progresso na praia do Furadouro, em Ovar.

Artigos Relacionados

Deixe uma resposta

Botão Voltar ao Topo