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O “Stradivarius” português mesmo aqui ao lado

Foi com uma cópia de um dos famosos violinos de “Stradivarius” que Joaquim Domingos Capela, filho do construtor de instrumentos musicais Domingos Capela, considerado o “Príncipe dos violeiros portugueses do Século XX”, assinalou a conclusão da oferta dos 23 instrumentos de cordas, por si construídos, à Universidade de Aveiro (UA). Joaquim Capela, do alto dos seus 81 anos, entregou simbolicamente, em mãos, ao Reitor da UA, Manuel Assunção, esta última peça, a sua cópia do “Hellier”, um violino com gravuras.

O seu “Hellier”, cópia de um dos 12 violinos gravados construídos por Antonio Stradivari, mais conhecido por “Stradivarius”, é um instrumento de “muito boa sonoridade”, segundo Joaquim Domingos Capela, que construiu cerca de 150 instrumentos de corda, distribuídos por músicos, agrupamentos musicais e colecções diversas. É sobejamente conhecido o grande valor artístico, mas também acústico, dos cordofones que saíram da oficina do liutaio de Cremona, entre os séculos XVII e XVIII, que estabeleceram um padrão, uma referência para os instrumentos construídos daí para a frente. Joaquim Domingos Capela fez cópia de três violinos gravados: “Cipriani Potter”, “Hellier” e “Greffuhle” de autoria de António Stradivarius, o segundo, agora na coleção da UA.

O “Hellier” original faz parte da coleção do Smithsonian Institution, em Washington. Peças como essas “são joias”, salienta Joaquim Domingos Capela. O construtor chegou a ir a Génova, Itália, para ver, ao vivo, o famoso “Il Cannone”, violino preferido de Paganini, instrumento do qual também construiu uma cópia, em 1983. O empenho e o rigor que aplica em cada construção estão expressos numa frase que recorda do pai: “Tudo o que merece ser feito, merece ser bem feito”.

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Colecção dos mais diversos cordofones

Quanto ao seu “Hellier”, entre o início da construção do instrumento e o final passaram cinco anos. Mas, regra geral, não consegue determinar quanto tempo demora a construir um instrumento, porque vai construindo à medida da sua disponibilidade e disposição, não ocupando todo o tempo do dia com a mesma tarefa e intercalando com outras. Por exemplo, a construção de guarda-joias.

Muito emocionalmente ligado às peças que constrói, o violeiro residente em S. Félix da Marinha, Gaia, considera que, em cada caso, o construtor deixa o seu ADN. Auto intitula-se mesmo “instrumento-dependente” e, talvez por isso, com exceção de algumas encomendas que satisfez, prefere oferecer e não vender os instrumentos que cria.

Construindo o primeiro violino aos 9 anos, na oficina do pai, onde colaborou até aos 22 anos, Joaquim Domingos Capela considera-se, apesar disso, um violeiro autodidata, dado que, com essa idade, deixou a oficina para outros voos, sendo o estudo um deles, tendo-se licenciado em Engenharia Mecânica. Para além da construção de instrumentos musicais de cordas que, considera, retomou “tardiamente”, foi professor universitário na Universidade de Lourenço Marques e na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto.

Para além dos instrumentos e dos guarda-joias – 81 doados à UA de mais de 300 desenhados e construídos por si – doa também uma colec
ção de livros técnicos, sobretudo, sobre a criação de instrumentos musicais.

A colecção de instrumentos de cordas oferecida à UA inclui cordofones de diferentes tipos, como violinos, violetas, rabecas, guitarras, violas, cavaquinhos, alaúdes, o bandolim, a bandolineta, a bandoleta, a bandola e o bandoloncelo, todos eles construídos por Joaquim Domingos Capela a partir de 1985. Oportunidade: Estes instrumentos estão numa exposição patente, na Sala Hélène de Beauvoir, Biclioteca da UA.

“Instrumentos musicais de cordas – a mestria do seu construtor, Eng. Joaquim Domingos Capela” foi inaugurada esta segunda-feira, com um Concerto a Capela, interpretado por docentes e alunos do Departamento de Comunicação e Arte.

A exposição, que ficará patente até 18 de Novembro, apresenta a colecção de 22 instrumentos doados à Universidade por Joaquim Domingos Capela, dono de um talento e perfecionismo superiores, que dedicou a sua vida à criação de instrumentos musicais de cordas. Está patente ao público até ao dia 18 de Novembro.

Joaquim Domingos Capela nasceu aqui ao lado, na freguesia da Anta, concelho de Espinho. Engenheiro de formação tem um percurso artístico singular e é conhecido além-fronteiras pelos violinos que nasceram das suas mãos. Construiu o seu primeiro violino apenas com nove anos de idade, licenciou-se em Engenharia Mecânica, foi professor universitário e a paixão pelos instrumentos de cordas continuou como actividade para além da profissão. Só depois de aposentado se dedicou à sua arte a tempo inteiro.

Dos 135 instrumentos de cordas criados por Joaquim Domingos Capela constam violinos, violas, guitarras, alaúdes, bandolins e cavaquinhos, entre muitos outros. Algumas das suas obras fazem parte do acervo de prestigiadas instituições nacionais e internacionais como a Academia Real de Música de Londres, o Museu Antonio Stradivarius de Cremona, o Museu de Música de Lisboa e o Museu Municipal de Espinho. Das suas doações a entidades particulares destaca-se a oferta de uma guitarra portuguesa modelo Lisboa à fadista Amália Rodrigues.

Através da criação destes instrumentos musicais de cordas, o autor homenageia as pessoas que mais admira e preza. São o caso das dedicatórias a Joaquim Alves Capela (primo), Jacobus Stainer, Albert Einstein, Antonio Stradivarius, William Primerose, Johann Ulrich Eberle, Manuel Ferreira Capela (avô paterno), Domingos Capela (pai), Apolónio de Perga, Nicolau Paganini e Heitor Berlioz, Carlos Paredes, Manuel Correia de Barros, Maria Hormizinda (esposa), Avelino Capela (irmão), Ludwig van Beethoven, Josefina de Medeiros e Aníbal Cavaco Silva.

A experiência adquirida com a construção da notável diversidade de instrumentos, associada aos conhecimentos colhidos na literatura da especialidade (muitos deles baseados nos princípios matemáticos e nas leis da acústica), proporcionam-lhe uma visão global, reforçada por sistemáticas visitas a museus e exposições.

Todo este manancial de conhecimentos permitem-lhe realizar palestras de grande interesse pedagógico e cultural sobre a “história e construção de instrumentos de corda” em academias, conservatórios de música e coletividades culturais, em diversos locais do país.

Ao longo da sua vida de violeiro o Eng. Joaquim Domingos Capela visitou diversos museus de instrumentos musicais, desde Washington a Moscovo, e participa em diversos concursos internacionais de construtores de violinos, nomeadamente nos Estados Unidos da América (2000, 2002 e 2010); na cidade de Mittenwald, Alemanha (2001, 2005 e 2010); Poznan, na Polónia (2001); em Londres e Paris (2004); e em Cremona, Itália (2006 e 2009).

Longa história curta

A história da colecção doada à UA é longa: “Eu tinha este conjunto de instrumentos em casa e não sabia o que lhe fazer”, contou-nos. “Tenho um filho arquitecto a quem podia deixar-lhe isto, mas ele ia encaixotar tudo, depois emprestava um a um amigo, um a outro e isto desaparecia”. Assim, “pensei em deixar isto a um museu”. Percorreu Portugal em busca de museus para deixar esta colecção mas, surpreendentemente, ninguém parecia querê-la. 

Desanimado, “fui a Barcelona ao Museu da Música, mostrei os instrumentos através de catálogo e eles imediatamente se disponibilizaram a recebê-los”.

No regresso, vinha no avião e começou a pensar: “Tenho aqui estes instrumentos e vou deixá-los a Espanha?” E resolveu dar uma nova oportunidade a si próprio e aos museus nacionais. “Lembrei-me do museu de Santa Joana e quando lá vou, a directora indicou-me que a UA me ficava com isto quase de certeza”. E ele que “estava longe de pensar nisso…”

 Foi falar com o Reitor e levou um violino e umas caixas consigo e a partir daí ficou tudo resolvido, pois “decidi doar estes instrumentos à UA”.

Dar a conhecer a arte da violaria, o percurso notável do Eng. Joaquim Domingos Capela e a mestria da sua obra, espelhada em cada instrumento é objectivo da presente exposição, que estará, aqui mesmo ao lado, patente na Sala de Exposições Hélène de Beauvoir, na Biblioteca da UA, até 18 de novembro, de segunda a sexta-feira, das 10h00 às 18h30 e aos sábados, das 09h00 às 17h30.

A colecção de instrumentos musicais de cordas doada à Universidade de Aveiro tem a seguinte composição:

  • violino 1/4, de 1943, o primeiro a ser construído
  • viola dedilhada, 1984
  • bandolim, 1984
  • cavaquinho Lisboa, 1984
  • cavaquinho Minhoto, 1989
  • guitarra portuguesa, Coimbra, 1990
  • guitarra portuguesa de cabeça retangular,   1996
  • bandoleta, 1997
  • viola dedilhada elíptica, 1998
  • bandolineta, 1998
  • violino 4/4, 1999
  • viola dedilhada romântica, 1999
  • guitarra portuguesa elíptica, 1999
  • viola d’arco “violeta”, 2002
  • alaúde renascentista, 2002
  • violino gravado “Hellier”, 2003
  • violino 4/4, 2005
  • viola d’amor, 2007
  • bandoloncelo, 2007
  • violino 4/4, 2008
  • rabeca, 2008
  • bandola, 2011
 

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