Opinião

O talhão do nosso descontentamento – Por Sandra Marques

Recuemos no tempo até ao dia 25 de Fevereiro. Passaram quase oito meses sobre os factos a que este artigo reporta, e é importante lembrá-los.

Nessa data, em Assembleia Municipal, um eleito de uma força partidária da oposição – no caso, Mário Manaia, do BE – questionava o executivo, de uma forma bastante pragmática e assertiva, sobre o inaceitável depósito de lixo a céu aberto detectado no talhão 68 do perímetro florestal das dunas de Ovar, situado junto à Zona Industrial da cidade.

O caso tinha sido denunciado poucos dias antes, via Quercus e um conjunto de munícipes atentos, mas não causara qualquer escândalo – porque estamos em Ovar, uma terra muito peculiar onde, aparentemente, nada que se configure como grave escandaliza ninguém.
No terreno em causa tinha sido vista e fotografada uma quantidade assinalável de resíduos de construção e de trabalhos de limpeza.

Identificaram-se ali, desde logo, quantidades muito significativas de amianto – um resíduo altamente tóxico e perigoso, que não pode ser descartado de forma irresponsável -, mas também pedaços de lápides, despojos de um barco moliceiro e de cartazes institucionais da Câmara, bem como lixo proveniente dos serviços de limpeza do município. Na sequência das denúncias, algum do lixo foi triturado e enterrado no local, sendo assim encoberto, mas é tão notória a falta de habilidade e a displicência municipal, nestes trabalhos aldrabados que são a sua imagem de marca, que uma porção considerável do lixo manteve-se à vista de quem se tenha dignado passar no local a seguir.

E ali permanece até hoje – basta ver as fotos anexas a este artigo, todas registadas neste mês de Outubro por pessoa amiga e vigilante (felizmente, ainda existe gente assim em Ovar), onde continuam visíveis alguns dos detritos que já ali estavam em Fevereiro.

Na Assembleia Municipal a que aludi no início deste artigo, Mário Manaia lançou algumas questões. Designadamente:
– Que medidas previa a Câmara executar para remover aqueles lixos?
– Que medidas pedagógicas se pretendia implementar, junto da população e dos próprios serviços camarários (uma vez que, insisto, muito do lixo depositado advinha, claramente, de trabalho realizado pelos serviços da autarquia) para evitar que este tipo de despejos se repita?
– Poderia o Ecocentro de Ovar acondicionar os resíduos perigosos, nomeadamente as telhas de amianto, para que daí fossem canalizados para local próprio, onde fosse possível proceder ao seu tratamento adequado?

Na resposta que ofereceu a seguir, o senhor presidente da Câmara de Ovar foi igual a si próprio: falou muito mas não disse nada. Admitiu, apenas, que o dito talhão 68 constitui um “passivo ambiental” que não é de fácil r⁰esolução, porque “as pessoas criam hábitos maus”. As pessoas, os outros; são sempre os outros para o senhor edil, mesmo onde exista claríssima evidência de que o mal e a prevaricação provêm dos próprios serviços da instituição que lidera.

Pelo meio, Salvador Malheiro garantiu que “a educação ambiental é uma prioridade do pelouro do Ambiente” e afirmou ainda que o Ecocentro já está apto a receber resíduos de construção e demolição, mas que infelizmente “as pessoas ainda não sabem” – uma declaração que abona espectacularmente em favor da tal política de educação ambiental “prioritária” da autarquia e atesta a sua eficácia junto da população.

Oito meses passaram e continua tudo exactamente na mesma. Às questões concretas do eleito bloquista, só o tempo se encarregou de dar resposta: o que planeava fazer a Câmara? Nada. Medidas pedagógicas? Nenhumas. E o “nosso Ecocentro”, jóia da coroa das obras públicas da era malheirista em Ovar? Está apto para uma série de funções mas – ah, pois – quase ninguém sabe disso. E o lixo continua a ser despejado, ilegalmente, um pouco por todo o lado.

Lamento a dureza das palavras que se seguem, mas tem mesmo de ser: este triste exemplo resume, em duas penadas, a absoluta inércia e incompetência deste executivo.

Indo um pouco mais além na questão, e voltando à vaca fria deste ano da graça de 2022, preocupa-me, igualmente, o abate dos pinhais em curso no perímetro das dunas de Ovar e a fiabilidade do plano definido para a regeneração das matas. É vital que o plano seja escrupulosamente cumprido, em matéria de reflorestação e regeneração, até porque os terrenos arrasados no interior da floresta, aqueles mais longe da vista e do coração, são um convite tentador ao desleixo e ao desrespeito grosseiro pelo património natural. Ao depósito de entulho e à descarga ilegal de resíduos perigosos. A mais daquilo que temos no talhão 68 e que ninguém resolve.

Pois se até o presidente reconhece que os maus hábitos perduram e são difíceis de contrariar; quando os próprios serviços camarários contribuem de modo flagrante para este lastimável estado de coisas; quando a apregoada política prioritária de educação ambiental – a existir, de todo – passa ao lado da maioria; e quando temos a gestão do património concelhio entregue nas mãos de quem só sabe empurrar com a barriga e proferir palavras vácuas em Assembleias Municipais; então, o que poderemos nós, cidadãos atentos e interessados, retirar deste triste exemplo às portas da cidade e esperar para o futuro das nossas matas e do território?

Dizia-me alguém, esta semana, que toda a gente tem as suas causas e que a minha vai sendo a defesa dos pinhais de Ovar e a preservação das mais-valias naturais deste concelho (enquanto as temos). Sim, de facto, é uma causa que entendo merecer a mobilização, o empenho e, até, o desgaste emocional de uma luta em desequilíbrio de forças; vale a pena maçar os que ainda me lêem; e, pelo caminho, vale a pena coleccionar os anticorpos e as inimizades dos que não alinham pela bitola intransigente da defesa deste património natural inestimável. Os que, por agenda política ou convicções serôdias, preferem usar toda a espécie de artimanhas para desacreditar e vilipendiar a posição cívica de quem se bate pela causa pública, esses, afligem-me pouco e não interessam nada.

Em última análise, prestarem-se a tamanho incómodo será, talvez, um sinal de que estamos a fazer a coisa certa. Hoje eles escarnecem; mas, amanhã ou depois, os seus filhos e netos agradecerão. É por estes que porfiamos.

Sandra Marques
(Cortegaça)

 

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