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Olena e “A Casinha Júlio Dinis” no Imaginarius

O Imaginarius abriu esta quinta-feira, em Santa Maria da Feira, com a instalação interactiva “Despojos da Torre de Babel”, da autoria da jornalista Alexandra Couto e do fotógrafo Paulo Pimenta, que pode ser visitado gratuitamente até amanhã, domingo (mediante marcação).

O projecto combina um formato presencial e online, em Português e Inglês. “Entre as árvores da Quinta do Castelo, o público fica a conhecer a versão mais estética do projecto”, explica Alexandra Couto. “Uma palavra na língua nativa de cada imigrante que participou connosco nesta descoberta (num incentivo de aprendizagem mútua que exige um esforço tão mínimo da nossa parte quando eles ainda continuam a tentar aprender um Português Europeu inteiro)”.

Foto de Paulo Pimenta
Entre as várias histórias encontramos a da família Mishtur, natural da Ucrânia, cujos capítulos mais felizes se desenrolaram em Ovar. Foi em terras vareiras que Olena começou a trabalhar num restaurante de referência em Ovar, o “Casinha Júlio Dinis, cujo proprietário até hoje tem a sua gratidão por tudo o que lhe ensinou da cultura portuguesa”, desvenda Alexandra.

“A primeira coisa que o senhor Carlos fez foi pedir a uma empregada que me levasse a uma loja lá perto para me comprar umas calças, porque realmente não tinha jeito nenhum eu trabalhar de saia até aos pés”, conta Olena. “Ele e a dona Armanda deram-me contrato, pagaram-me a Segurança Social, arranjaram-me uma professora de Português e, duas ou três vezes por semana, eu encontrava-me com ela num café ou ia de bicicleta a casa dela. Ele dava-nos as refeições todas no restaurante – mesmo ao meu marido, que trabalhava fora, mas ia lá jantar connosco – e foi assim que juntámos dinheiro para ir buscar a Alina, que veio para cá aos três anos. E também foi o senhor Carlos que me ensinou a comer de faca e garfo. Na Ucrânia só usávamos colher e, anos mais tarde, quando fui visitar a minha mãe e lhe pedi talheres, ela até ficou ofendida! Achou que eu tinha ficado com a mania!”.

​Paulo Pimenta, autor da fotografias, salienta a importância que esta fase teve na vida de Olena, reconhecendo-a como de mudança e aceitação. “Foi tudo uma aprendizagem”, salienta.

Olena conta que sofreu muito por causa dos ucranianos que “faziam asneiras por cá e passava por ser como eles. Era muito difícil ganhar a confiança das pessoas, mas nós não somos todos iguais. Tal como na Ucrânia e na Rússia, em Portugal também há gente muito fraca e a minha sorte, com o senhor Carlos, foi que ele nos deu tudo de que precisávamos: os documentos, a língua, a maneira de viver na sociedade portuguesa…. Ensinou-nos a falar, a saber como nos devíamos apresentar. Deu-me as primeiras calças que eu tive em Portugal e para muita gente isso não interessa, mas a mim tocou-me porque eu nunca tinha sido ensinada assim, com essa sinceridade. É muito importante ser-se sincero com as pessoas e dizer-lhes a verdade, para elas se poderem adaptar”.

Os conhecimentos de Português também iam, entretanto, evoluindo. Olena crescera a falar Russo, mas no seu percurso académico aprendeu ainda Inglês e Espanhol, o que mais tarde a ajudaria a dominar a Língua de Camões, que hoje conhece bem melhor do que o próprio Ucraniano, só adotado como idioma oficial da Ucrânia após esse território se tornar independente da União Soviética, em 1991. Agora é em Português que Olena pensa, é em Português que reconstitui cenários da sua vida quotidiana, que regista memórias, que toma decisões, que fantasia…

​Alexandra Couto refere que “também foi em Ovar que a música regressara à vida dos Mishtur, graças à Dona Rosa, que, além de lhes oferecer casa no Furadouro, empregou Olena como maestrina do coro da igreja local, até que os católicos se ressentiram de não ver a ucraniana protestante partilhar dos mesmos rituais eucarísticos que os colegas e a dispensaram do serviço”.

Visite a instalação online aqui.

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