CulturaPrimeira Vista

Saxofones famosos de todo o mundo renascem numa oficina em Ovar

Uns são de idade avançada, outros têm “doenças” que requerem diagnóstico e outros ainda precisam apenas de manutenção.

Hugo Gama é o “doutor” que todos eles procuram. “Eles” são saxofones e o médico, neste caso, é um Luthier. Um talento reconhecido pelo mundo fora e em “casa” poucos ouviram falar dele. O que faz ele? Adapta e arranja saxofones na sua oficina, perdão, no seu consultório, em Ovar.

Recentemente, Hugo esteve no Convento São Francisco, em Coimbra, num encontro de Luthiers que decorreu no âmbito do Festival MATE. “Estes eventos são uma oportunidade única para mostrarmos o que fazemos muitas vezes no anonimato de uma oficina e mostrar a esta gente toda”.

Entre os Luthiers nacionais lá esteve Hugo Gama, que numa pequena oficina em Ovar opera verdadeiros milagres em saxofones famosos.

Atenção: “Sou Gama mas não sou de nenhum ramo das famílias Gama de Ovar”, explica desde logo. “Sou oriundo de uma família do Ribatejo, vim parar ao Porto onde conheci uma algarvia e desde então, tenho vindo a descer no país”.

E vai continuar a descer no mapa. “Em 2025”, avisa. Além de Luthier, Hugo também é executante e isso faz dele um conhecedor a sério do saxofone. Embora negue o elogio. “Eu costumo dizer que toco com uma vassoura com buracos”.

O instrumento é aquilo que o executante faz dele, isso é certo. “Um saxofone é sempre melhor quanto mais for usado, adaptando-se ao executante e vice-versa”, confirma.

Mas para ser sério, declara que “os melhores saxofones são os dos anos 1920/30 do século passado”. “Hoje em dia, os materiais são questionáveis e os mais antigos ainda são os melhores”.

Por isso é que quem os possui, mesmo depois de avariados, os quer muito arranjar e manter. E isso torna o seu ofício ainda mais raro e especial.

O seu prestígio enquanto Luthier, no fim dos primeiros anos, já tinha chegado aos cinco continentes e não é difícil encontrar palavras de  agradecimentos e encómios ao seu trabalho um pouco por toda a Internet.

Marcel Munoz, músico bastante conhecido da Galiza, escreve: “Um prazer e um privilégio a visita ao workshop Gamasax, em Ovar. Grande Luthier, melhor pessoa”. “Quando pega num saxofone, parece que ele ressuscita”, atira.

Vários saxofonistas famosos já se deslocaram a Ovar, sem serem reconhecidos, para levantar os seus instrumentos depois de prontos. “Quando estão avariados podem vir por correio, mas depois de prontos, geralmente a entrega é feita pessoalmente”. A Ovar, têm vindo, nada mais nada menos que nomes como como Ohad Talmer, Seamus Blake, Brian Blaker e Henk Van Twiller.

A Música

Músico profissional desde 1997, é desta profissão que nasce a necessidade, enquanto músico e professor, de arranjar e melhorar os próprios instrumentos. Só que, “depois de concluir a formação em reparação de instrumentos de sopro de madeira com especialização em saxofone na NAMIR (National Association of Musical Instrument Repairers), decidi que queria seguir este ramo de negócio”.

Em 2015, abriu a sua primeira oficina no coração da baixa do Porto. Foi um sucesso imediato. Em 2020, quando se instalaram as restrições da pandemia passou a reparar instrumentos num dos anexos de sua casa.

 

“A indústria da música estava parada e abriu-se uma oportunidade e um espaço de tempo perfeitos para os músicos fazerem grandes intervenções nos seus instrumentos”. Curiosamente, recorda, “houve uma procura enorme por alguns dos serviços premium da oficina, como as desinfeções integrais e as revisões gerais, mas outros trabalhos mais complexos, como as personalizações, adaptações e modificações para melhoramento de instrumentos profissionais estiveram em alta”, recorda Hugo.

“Não tenho dúvidas de que adaptando cada instrumento à medida do músico contribui, não só para o seu conforto, como para o seu crescimento profissional”.

Ainda durante este período, o edifício onde se situa a oficina do Porto entrou em obras de restauro e foi então que decidi procurar um espaço maior para trabalhar. As encomendas eram muitas e aquele espaço já se mostrava pequeno demais.

Em 2021, “vim ao Furadouro com a minha esposa e adorámos tudo, não sei explicar, e gostamos tanto que decidimos mudar-nos para cá”. Desloca-se para Ovar onde abre a sua segunda oficina e “é aqui que vejo o negócio correr e crescer de uma forma muito saudável – a oficina do Porto passou a ser um ponto de recolha e entrega de instrumentos sob agendamento, tal como acontecia em Torres Novas desde 2015”.

Este crescimento levou ao nascimento de um novo projeto, já com alguma dimensão, para levar a cabo em 2025, que “é a abertura de um espaço loja e oficina, direccionado para a reparação de saxofones e para venda de instrumentos de sopro como o clarinete, o oboé, o fagote, a flauta transversal e a venda de usados dessa categoria”.

 

Nessa altura, tal como hoje, Hugo Gama quer continuar a promover “workshops em escolas e bandas filarmónicas, onde exploro pontos muito importantes, como as boas práticas de higiene e manutenção dos instrumentos e pequenas reparações de “primeiros socorros” para os problemas do dia a dia dos instrumentistas”.

O seu interesse nesta vertente de negócio passa por incentivar o envolvimento dos músicos, escolas, associações e outras entidades de carácter educativo na “prática do restauro e melhoramento dos seus instrumentos, criando um hábito que é o de acrescer valor aos seus instrumentos”. “Estes são de grande valor e potencial performativo e são muitas vezes negligenciados e postos de parte ou até substituídos por artigos novos de qualidade inferior quando, uma vez bem restaurados, obtêm um elevado valor patrimonial e a performance cresce de forma exponencial”.

Outro dos pontos fortes da oficina GamaSax são as modificações infantis. “Os fabricantes de saxofones ainda não são sensíveis às necessidades de executantes de palmo e meio pelo que é necessário contornar algumas dificuldades que o sobredimensionamento dos instrumentos lhes colocam, da mesma forma que as pessoas com necessidades especiais também precisam de adaptações, por vezes, complexas de idealizar e concretizar”.

É neste contexto de Luthier que a ASMUSITEC – Associação de Músicos e Técnicos o tem vindo a convidar para participar nas suas exposições, mais propriamente na MON(S)TRA de 2023, em Coimbra, e no Encontro de Luthiers do Festival de MATE, em Outurbo último. “Também vamos ter um stand da Gamasax, Reparação de Saxofones na MON(S)TRA, que terá lugar nos diss 23 e 24 de fevereiro de 2024, no conservatório de Música de Coimbra”, anuncia. Aqui os músicos poderão levar os seus instrumentos onde terão oportunidade de esclarecer dúvidas, fazer um diagnóstico profundo ao estado dos mesmos e levar a cabo eventuais pequenas reparações sem qualquer custo.

Mas Hugo também é músico e saxofonista e fez recentemente uma aparição nos 30 anos da Just Soul Orquestra, banda formada em 1992 por músicos da cidade do Porto. A banda conheceu um ressurgimento, resultado da vontade dos seus fundadores bem como da sugestão de alguns agentes e promotores de espectáculos musicais com quem trabalhou no passado.

Com mais de 25 anos de carreira profissional como saxofonista, Hugo Gama já tocou em várias cidades do mundo, como Amesterdão, Roterdão, Dusseldorf, Munique, Zagreb, Génova, Toulose, Lion, Londres, Barcelona, Vigo, Catete, Luanda, Filadélfia, Tripoli, Zurique, etc. E com nomes conhecidos, como Father John Misty, James Morrisson, Chuck Wansley, Paulo de Carvalho, Sérgio Godinho, Ena Pá 2000, etc, em festivais de verão como o Super Bock Super Rock, em lisboa (2023), Marés Vivas em Gaia (2022), Vodafone Paredes de Coura (2019), Primavera Sound Fest no Porto (2018), em diversos festivais de jazz, em programas diversos de tv, pontualmente na Praça da Alegria, na RTP, entre outros.

 

Deixe um comentário

https://casino-portugal-pt.com/
Veja Também
Fechar
Botão Voltar ao Topo