Opinião

Ovar e Santa Maria da Feira – Ricardo Alves Lopes

Há uma coisa em que penso: não é fácil escrever sobre Ovar todas as semanas.
Mas não é fácil escrever sobre Ovar nem sobre cidade alguma. E este segundo pensamento faz toda a diferença. Não devemos viver cingidos a comparações, como é evidente, ou correremos o risco de ser infelizes e retraídos, por consequência, durante toda a vida. Mas, em casos, convém fazermos essa relação e colocarmo-nos num todo, pertencentes a um meio, sem analisarmos as partes isoladas.

Digo isto por uma razão: facilmente criticamos o nosso meio, porque é o que melhor conhecemos; raramente criticamos os meios adjacentes, porque não os vivemos no quotidiano. Assim, as verdades absolutas que criamos em nós, não raras vezes, pecam por desconhecimento. Quase como nos casais, em que vemos os sorrisos na rua e não conhecemos os problemas em casa. O nosso caso é sempre o pior, julgamos.

É claro que cá, como em todo lado, existem coisas a serem melhoradas, coisas que acontecem e não deviam acontecer ou coisas que não acontecem e deviam acontecer. Mas acreditam, de verdade, que em outras terras não sucede o mesmo?

Gostava de trazer a análise um caso específico: Santa Maria da Feira. Há uns anos, que não podem ser muitos, tendo em conta que tenho apenas vinte e sete, ia algumas vezes a Santa Maria da Feira, uma terra que todos gostamos de dar como exemplo (e que é). Nessa altura, a cidade, em comparação a Ovar, não tinha nada que verdadeiramente a destacasse. Tinha o Castelo, sim, mas a dinâmica não era a mais forte. Até que compreenderam que uma cidade não se faz apenas da sua história, também se faz do seu presente. E começaram a surgir em força os eventos, cada vez melhor promovidos e produzidos, que elevaram a cidade para um patamar de referência. De minha parte, e da maioria das pessoas, estou em crer, merecem elogios.

Agora, legitimamente, devem estar a questionar-me o que me faz estar a contar-vos isto, que não é novidade nenhuma, não é?
Eu respondo: porque cá, sem nos apercebermos, estamos a tentar fazer o mesmo. O anterior mandato autárquico criou-nos uma série de infraestruturas fundamentais para alicerçar a cidade e permitir a sua evolução. Falo, naturalmente, do Centro de Artes, da Escola de Artes e Ofícios, do Espaço Empreendedor e da Aldeia do Carnaval.
Mas isso não bastaria, se agora não principiássemos a promoção da cidade, e isso está a ser feito, directa e indirectamente, pelo mandato vigente. O FESTA é um dos maiores exemplos disso, mas a programação do Centro de Artes, as actividades na Escola de Artes e Ofícios e o apoio, em conjunto com a União de Freguesias, à organização da Associação Comercial de um Natal diferente, com espetáculos de rua e workshops, são outras provas.

Ou seja, o que por cá vamos fazendo é, naturalmente, diferente do que se fez na Feira, porque somos, também, uma cidade diferente. Mas, com esta comparação, estou a referir-me aos princípios e não aos produtos. Portanto, gostava que pensassem que o nosso grau de exigência deve aumentar. Não devemos esperar que a cidade, vulgo autarquia, resolva todos os nossos problemas. É necessário que exista uma dinâmica própria e uma capacidade de nos avaliarmos e envolvermos. Temos coisas más, mas os outros também as têm. E essa ideia acho que já a consegui passar, com o exemplo dos casais, mas o que gostava de vos dizer é que os outros também têm coisas boas e elas não servem para envergonhar as nossas: servem para nos motivarmos.

A cidade está a chamar por nós, se só resmungarmos e não olharmos para o que também nós fazemos de bem e mal, o vizinho, literalmente, será sempre melhor que nós.
Criticar Ovar é fácil, mas mais fácil ainda é esquecer que também nós fazemos Ovar. Na Feira, as coisas também resultaram, porque, julgo, as pessoas se envolveram. A cidade cresceu, mas as pessoas cresceram com ela. E isso é uma lição para nós.

Ricardo Alves Lopes (Ral)
http://tempestadideias.wordpress.com
[email protected]
  

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