Covid-19

Ovarmat

O exemplo está dado. Gosto muito da sensação de movimento que se cria, independentemente das vozes menos positivas que se geram.
A Ovarmat arriscou e o tempo dirá se foi feliz na aposta, mas nada nem ninguém a pode acusar de não se dar à luta, contrariando a lógica de um país estagnado. As vozes mais cáusticas referem que é uma pena ser uma drogaria a embandeirar-se no centro da nossa cidade, num cantinho de proa, mas eu tenho para mim que o glamour não está no que se vende, mas na maneira como se vende. Veja-se a Renova, do papel higiénico (haverá produto menos glamouroso?) conseguiu criar uma marca premiada no design; veja-se a Nespresso, de um bem de consumo como o café, criou um glamour, um encantamento, difícil de ter par. E a Ikea, o Bricomarché, Izzi, entre outros, são espaços de bricolage apresentados em shoppings, sem estragarem a presença de lojas vizinhas como Hugo Boss ou Boutique dos Relógios.

A Ovarmat colocou-se ali e muito bem, com um conceito de drogaria de grande superfície. O espaço está coordenado numa lógica simplista, organizada, como uma qualquer superfície comercial. São coisas que fazem falta, como sempre fizeram, estão organizadas a bem da fácil compra, o que tem de mal?
A falta de sítio para carregar e descarregar? Surpreende-me que isso seja a questão maior, quando ali sempre pararam carros, com ou sem motivo de carregar. Aliás, quando se quer criticar, só os olhos fechados é que não encontram motivo. Julgo que sim, que isso pode ser um problema, mas julgo também, assumindo o meu possível erro, que a loja está montada para um tipo de compra mais imediata, não propriamente de quantidades industriais. Mas, mesmo que uma coisa não invalide a outra, questiono se a própria loja não terá um daqueles carrinhos de mão que permita levar uma quantidade maior de material uns metros à frente. Não sei, mas acho que antes de se criticar, poderia pensar-se logo em soluções para a nossa crítica, o que torna a crítica mais veemente, ao contrário do bota-abaixo, e até faz dela muito mais construtiva – o que quero acreditar seja o motivo de quem as faz.

Não me interessa se são drogarias ou ourivesarias, produtos de glamour ou de consumo, importa-me é que a economia local se volte a movimentar. O ano ainda não tem um mês e já viram quantos jovens da nossa cidade emigraram? Outros já lá estavam, lembrem-se. Obviamente, eles não partem pela estagnação da cidade, partem pela estagnação do país. Mas não é uma coisa que leva à outra? Não deveremos olhar primeiro para os locais onde nos podemos mover, para só depois pensar em mudar mais além?

A economia de Ovar parou quando a do país parou. As coisas já não andavam bem, claro, mas acentuaram-se aí. Então, pensem comigo, se nos preocuparmos primeiro em mover a de cá, junto dos que o podem fazer, não estaremos a fazer mais pelo país do que ao dizer que uma drogaria fica mal no centro de uma cidade? Mal fica um edifício, com um espaço comercial assombroso, fechado. Isso é que fica mal.
Somos cada vez menos, pelo que não devemos atirar pedras ao que se movem, devemos é agarrar-nos a eles, apoiá-los, e dar graças de haver ainda pessoas capazes de investir num país, numa cidade, que facilidades só dá à saída.

Não tenho, neste momento, vertente financeira que me permita alavancar projectos na nossa cidade. Mas tenho a gratidão por quem o faz, o respeito por quem movimenta uma economia local, que é o primeiro passo de uma economia nacional.
Sem desmérito por nenhum dos outros comerciantes, com anos e anos de centro de Ovar, lidando com chegadas de shoppings, vencendo uma crise, hoje deixo uma palavra de agradecimento à Ovarmat. Não abriram uma drogaria, abriram uma loja. E isso merece respeito.

Ricardo Alves Lopes (Ral)
http://tempestadideias.wordpress.com
[email protected]

 

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