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Presépio de José Maria Costa é “estrela” do Natal vareiro

Quem passa pelo Chafariz do Neptuno, durante esta quadra festiva, não fica indiferente ao presépio de José Maria Costa e às dezenas de peças que o compõem, animadas com recurso a motores de pequenos electrodomésticos.

José Maria Costa, de 66 anos, é um artesão vareiro, autodidacta, que se iniciou na arte de construir presépios por simples brincadeira e teve como grande impulsionador o seu pai (popularmente conhecido por Costinha) que, entre as décadas de 1950 a 1980 realizava este género de trabalho artístico e expunha-o no antigo quartel dos Bombeiros Voluntários de Ovar que se tornava local de peregrinação da população nesta quadra.

Ao deparar-se com o estado de abandono das obras executadas pelo pai, em 2014, José Maria Costa resolve dar início ao restauro das mesmas e começa a criar também as suas próprias composições, sendo já vários os temas explorados pelo artista ao longo dos anos.

O amor pelo artesanato de fazer miniaturas da realidade vem de longe. “A minha mãe conta que eu, com 5 ou 6 anos ou ainda antes, a gatinhar, não largava o meu pai enquanto ele se dedicava às suas construções. Ficava fascinado”. Funcionário da empresa ovarense F. Ramada, recorda que, um pouco antes de se aposentar, “trouxe algum do trabalho do meu pai para minha casa e comecei a restaurar algumas peças que ele tinha feito e eu próprio fiz e acrescentei outras”.

Mas o presépio de José Maria Costa é diferente e já beneficia da passagem do tempo. Por exemplo, “o meu pai usava um motor apenas, enquanto eu utilizo um motor pequeno, do género do que usam os micro-ondas, para cada quadro”.
Os bonecos são todos feitos por ele, esculpidos em madeira, com algumas construções talhadas em esferovite e pedra. “O presépio tem cerca de 50 bonecos a mexer e uma dezena de quadros, incluindo a cabana, um castelo, uma nora a tirar água, o lavadouro, o tasco e a padaria, entre outras”, desvenda o artista. Em cada ano, José Maria Costa acrescenta um quadro novo. “Este ano tem um baloiço novo e um ferreiro a colocar uma ferradura num cavalo, por exemplo”, destaca. No total, o trabalho tem sete metros de frente por dois de profundidade.

Começou na garagem
O primeiro presépio ficou pronto há cerca de seis anos e logo ali, na garagem de sua casa, na Habitovar, ficou exposto. Estando muito perto da zona escolar, a notícia correu e foi um currupio de alunos, famílias, e “até infantários vinham aqui de propósito para ver”. Mas, depois a garagem tornou-se pequena e o presépio foi, no ano seguinte, para a pista de gelo que a Câmara municipal de Ovar instalou junto da Biblioteca Municipal. A pista não mais regressou e o presépio seguiu para a antiga loja da Réu, no centro da cidade, e, em 2019, “foi para o Centro Comercial Dolce Vita, porque o centro de Ovar estava em obras e não consegui arranjar um espaço”.

Este ano, José Maria Costa estava a perder as esperanças quando lhe ligaram da Divisão da Cultura a perguntar se eu queria expor na loja junto do Chafariz do Neptuno. “Aceitei e cá estou”, diz, satisfeito.

A representação das principais praças e monumentos da cidade de Ovar, a Procissão dos Terceiros, a Arte Xávega e os presépios são alguns exemplos de trabalhos realizados por José Maria Costa, que se inspira muito no seu pai, figura já lendária do Carnaval de Ovar do qual chegou a ser Rei. “Um dia, ele veio almoçar a minha casa e eu mostrei-lhe o meu trabalho da Procissão dos Terceiros e ele ficou muito entusiasmado e até um bocadinho emocionado”. “Ficou a olhar para aquilo tudo a mexer e a procissão a dar a volta à Câmara Municipal de Ovar”, cujo edifício e quarteirão estão representados ao pormenor. As fachadas todas em frente aos paços do concelho, desde o antigo sinaleiro ao banco, depois o Largo Família Soares Pinto, o castelo e a capela de Santo António. “A Câmara convidou-me a levar este trabalho à BTL – Bolsa de Turismo de Lisboa, onde ficou exposto no stand de Ovar, mas agora já lhe acrescentei novos elementos e está mais completo”, recorda.

Outros artesãos fazem os bonecos em madeira e pintam-na simplesmente, mas não José Maria Costa. Característica importante é que são roupas em tudo idênticas ao habitual vestuário de cada tradição que vestem os bonecos. “Sou eu e a minha mulher que costuramos a roupa e os vestimos, um a um, todos”, revela, sorrindo.

As coisas foram acontecendo sem que José Maria Costa nunca se tenha posto em bicos de pés, deixando apenas os seus trabalhos falarem por si. Dignos de visita e admiração. Depois disto, adianta, “quando acabar o Carnaval, gostaria de arranjar um espaço para expor a Procissão dos Terceiros, que tem novidades, mas já não pode ser nesta loja, porque não cabe (tem dez metros de frente). Talvez no Centro Comercial Vida ou no Atlantic Park”. Ficamos a aguardar.

Texto de Luís Ventura. Ler artigo completo in Diário de Aveiro.

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