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Um Presépio que é “uma verdadeira obra de arte em miniatura”

O Natal é também um tempo de Presépio. Os mais curiosos ou interessados pela arte sacra, podem aproveitar para uma visita à Igreja Matriz de Ovar que, entre muitos outros pontos de interesse arquitetónico e artístico, tem, no retábulo principal da capela-mor – que substituiu a que foi destruída pela derrocada do terramoto de 1755 – um Presépio que terá sido executado na Fábrica das Devesas, atribuído a Teixeira Lopes, Pai, sob encomenda de António Ferreira Meneres e posteriormente ofertado em 1860.

A historiadora de arte Sofia Vechina aponta a data da doação da maquineta com o presépio: “executado na Fábrica das Devesas cerca de 1860 e atribuído a Teixeira Lopes (Pai)”. Acrescenta que Menéres também ofereceu o órgão do coro-alto, datado de 1862, o que poderá abonar a favor daquela data aproximada, embora as duas doações não sejam funcionalmente complementares.

Sucede que nas datas supracitadas a Fábrica das Devesas ainda não existia: só surge em finais de 1865 sob a firma Teixeira & C.ª. A encomenda teria, portanto, sido feita a Teixeira Lopes directamente, numa época em que já tinha adquirido uma razoável notoriedade pública.

É provável que o benemérito tivesse tido oportunidade de apreciar figurinhas de Teixeira Lopes, por ele criadas a partir de 1859, e o considerasse como capaz de construir o presépio a seu contento. Afinal, o que é um presépio, senão um conjunto de figurinhas, embora sujeitas a uma adequada planificação e a regras ditadas pela tradição, com coerente cenário envolvente?

O presépio vareiro denota características barrocas (em particular a maquineta), desfasadas no tempo, que indiciam que Teixeira Lopes se inspirou directamente nas grandes obras congéneres do século anterior.

Este tipo de peças cerâmicas é muitas vezes considerado “menor” do ponto de vista artístico, sobretudo devido à fraca qualidade que transparece de muitas delas, produzidas por barristas destituídos de conhecimentos no campo da escultura, simples “espontâneos” de horizontes limitados e sem preocupações artísticas. Apresentam um carácter tipicamente popular/rús-tico, por vezes denotando uma certa imaginação criadora.

No entanto, António Teixeira Lopes Cruz, em “As Figuras de Costumes Populares de José Joaquim Teixeira Lopes”, defende que “este artesanato não deve ser menosprezado, pelo que revela do espírito, gosto e iniciativa dos que nele laboram, e pela sua boa aceitação por uma variada clientela, que com ele se identifica“.

“Mas, tendo sido cultivada por escultores e barristas de renome, com elevada preparação técnica, e reportando-nos apenas a Portugal, tem havido uma pro-dução paralela de alta qualidade, que se materializou, desde os séculos XVII/XVIII, em figuras isoladas e grupos (presépios, em particular), constituindo verdadeiras obras de arte em miniatura”.

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