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Procissões nocturnas da Quaresma: Na rua há quatro séculos

As manifestações religiosas vareiras continuam, nos dias de hoje, a mostrar o carácter de um povo apegado às suas tradições religiosas ancestrais. A Semana Santa de Ovar não é a maior do país, mas é uma das mais imponentes onde se incluem as procissões dolorosas com o Estigmatizado.

Se o tempo permitir, a procissão do Ecce Homo (Terro-Terro) inicia o universo do Tríduo Pascal na cidade, atraindo muitos cristãos às ruas do centro histórico vareiro. Também conhecida por procissão dos Farricocos ou dos Fogaréus, acontece, no silêncio da noite, interrompido pontualmente pelo som das matracas. Homens carregam três imagens do século XVIII – Crucifixão, Senhor da Cana Verde e Cristo Atado à Coluna – percorrendo a cidade, apenas parando nas esplendorosas Capelas dos Passos até chegarem ao Calvário e retornarem à Igreja Matriz de onde partiram.

Surgida nos finais do século XVII (por volta de 1682), pretendeu, assim, relembrar a paixão de Jesus Cristo, apelando à penitência dos fiéis. Durante algum tempo, integravam-se na procissão muitos penitentes descalços, vestidos com andrajos e com a cabeça velada, confessando publicamente os pecados, seus ou alheios, enquanto se açoitavam com cordas. O escândalo público causado por estas práticas levou à sua proibição.

As sete capelas dos Passos de Ovar foram construídas no século XVIII, em pedra, para albergar conjuntos escultóricos com as várias cenas da Paixão, pontuando, até hoje, o percurso dos que se incorporam, nomeadamente, na Procissão da Via-Sacra. Nesta, a dor acentua-se.

A Via-Sacra, procissão organizada pela Ordem Franciscana Secular, percorre, de madrugada, as catorze cruzes presentes nas principais ruas do centro da cidade.
Por fim, a procissão nocturna do Enterro do Senhor que sai à rua na sexta-feira Santa. Organizada pela Irmandade dos Passos de Nosso Senhor Jesus Cristo, é composta de dois andores, esquife com Cristo Morto e Nossa Senhora da Soledade que partem do Calvário, fazendo o doloroso percurso da Paixão de Cristo e regressando ao mesmo local, para o sermão final.

Pelas ruas da cidade, a mudez dos penitentes dá voz à ascese dos cristãos. Numa terra de pescadores, gente pobre e iletrada, é contrastante a riqueza que aqui foi construída ao nível do património religioso.

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