Opinião

Quarentena e rota da seda – por Rosendo Costa

Por onde começar? Talvez pelo início muitos diriam, mas qual início? O da pandemia em que regressei de fora e fiquei preso na China ano e meio, adoptando uma estratégia de espera e cerco, tendo passado sozinho férias de Verão e férias de Natal pela China, ou pela vacina com a esperança de abertura de fronteiras sem quarentena?

Talvez os meus últimos dias na China antes do regresso a Portugal, no Verão de 2021. Uma decisão difícil em que quase ia decidindo usando a razão e regressando a Pequim.

No fim de Julho fui de férias uns dias de férias para a ilha de Hainan, no sul da China, com dois amigos antes do meu regresso a Portugal a partir do voo directo Xi’an – Lisboa. Durante a viagem e no primeiro dia, tudo normal, mas pela China começaram a surgir casos espalhados pelo país. Começaram os lockdowns, as proibições de viagem para cidades de baixo risco, provenientes de zonas de médio ou alto risco, cancelamento de aviões e comboios para Pequim, o que me trouxe uma má sensação de “déjà vu” e o receio que fechassem as fronteiras aos estrangeiros de novo.

Lembro-me de estar ansioso com a viagem de regresso a Portugal, de me vir à cabeça que poderia não poder regressar de novo à China tão rapidamente e andei o dia todo a passear por Xi’an e a decidir até à última se voltava a Pequim ou não. Lá apanhei um táxi para o aeroporto, para o vazio terminal internacional e para um voo que ia a abarrotar. Tentei não pensar mais no assunto.

Cheguei paranóico, porque não sabia o que era “viver com covid”. Desde o início da pandemia com o controlo e gestão pandémica feitos pelo governo chinês que podia andar em qualquer lado sem receio que tivesse pessoas infectadas perto de mim. Borrifava tudo com desinfectante e não ousava tirar a máscara, mas quase dois anos depois, não reconheci chegar ao meu país e ver os rostos cobertos de máscaras, restrições de entrada e permanência em espaços de comércio, maiores distâncias entre pessoas ao estilo de distâncias de segurança de viaturas na faixa de rodagem, avisos de uso de máscara, desinfectante para uso “à Lagardère”.

Apanhei um comboio para a minha terra, fiz uma surpresa à minha família, que não sabia que estava de volta e embarquei no que me pareceram as melhores férias de Verão de sempre, tanto que quis ficar mais umas semanas para estar com a família.

Umas semanas depois sou confrontado com o facto de não ter apenas que fazer 14 dias de quarentena à chegada a Xi’an mas 21 dias mais 7 de monotorização em Pequim. Eu sabia que teria que fazer quarentena, sabia que seriam 14 dias e estava psicologicamente preparado para isso, mas não para 21. Tentei informar-me junto do Comité de Bairro do condomínio onde resido e informaram-me que apenas teria que os avisar quando chegasse e fazer um PCR. A parte de Pequim ficou resolvida, não tenho que ficar fechado em casa quando regressar, mas a parte dos 21 dias não. Teria que arranjar uma solução, uma forma de bend the law”.

E de facto há! Para nossa sorte! A regra é a de que não se pode entrar em Pequim nos primeiros 21 dias após a entrada na China, embora tenha que observar as regras de quarentena da província na qual se entra na China. Como agora se exige que se faça voo directo para a China desde o país de origem – se o houver – e não se possa contornar isso com escalas, teria que gramar com a quarentena em Xi’an, mas se introduzisse como destino final outro local menos penoso não teria que fazer esses 7 dias adicionais após os 14. O meu receio seria que implicassem com o meu visto que refere “Pequim” e me obrigassem a ficar 21 dias enclausurado. Logo se veria quando chegasse.

A ansiedade começa com os examess, submissão de documentos e testes para obtenção do código verde de embarque emitido pela Embaixada. 48 horas antes do voo é preciso fazer um PCR e um exame serológico, obter o resultado e submeter o mesmo numa mini-aplicação e aguardar a emissão. O compasso de espera é stressante com frequentes acessos compulsivos à aplicação para ver se foi emitido o código ou se foi rejeitado por algum motivo. Após a emissão tudo bem, a primeira etapa e segunda etapa da Rota da Seda estão completas.

A terceira é o voo de regresso. Aqui não há nada de novo, tirando o facto de ter que mostrar o resultado dos exames médicos mais o código verde de embarque no check-in e usar uma máscara FFP2 durante o voo que se prontificaram a oferecer. O voo em si não tem nada de mais, apenas o facto de servirem uma refeição de snacks dentro duma caixinha, dos hospedeiros de bordo estarem vestidos com fatos Hazmat e da parte traseira do avião estar “reservada” para o staff do avião descansar.

A chegada sim é diferente de todas. Não desembarcamos livremente mas por filas e seguindo as instruções do staff da imigração. Saindo do avião entramos imediatamente numa zona especialmente preparada do aeroporto, onde preenchemos formulários, onde indicamos se estamos vacinados e qual a vacina e onde nos fazem logo um PCR. Após isto, preenchemos um formulário de entrada na China e dirigimo-nos à Imigração para nos verificarem e carimbarem o passaporte.

Depois disto, deslocamo-nos para o que seria antes uma sala de zona de embarque no rés-do-chão do aeroporto e aguardamos pelos autocarros que nos levarão aos hotéis. Enquanto isso, as malas são colocadas na parte de fora da pista para os autocarros e desinfectadas. Meia-hora de espera e temos ordem para recolhermos as malas e embarcarmos nos autocarros.

Na chegada ao hotel somos borrifados com desinfectante, preenchemos formulários para indicar o destino seguinte à quarentena, pagamos e deslocamo-nos para os quartos dos quais não poderemos sair nos próximos 14 dias.

Confesso ter-me sentido um bocado claustrofóbico com o facto do meu quarto ser pequeno e pouco espaço para “caminhar” em comparação com os quartos que tinha visto de amigos que já tinham feito a quarentena. No entanto, exausto como estava, aterrei na cama e adormeci.

Nesse dia, Domingo, apenas fui buscar o jantar que está do lado de fora da porta do quarto, comi e adormeci de novo.

O dia seguinte sim é uma emoção, é uma curiosidade de como vai ser a quarentena, de como será o pequeno-almoço, dezenas de mensagens de partilha com amigos, colegas e familiares, em Portugal e na China, trabalho, Netflix, sestas de jetlag e arrumos na “nova casa”.

Os dois primeiros dias iguais, mas começa a preocupação de estar parado, da quantidade de comida que se ingere por estar “aborrecido” e o receio da engorda. Fiz exercício no hall com o portátil em cima duma mala na porta do wc e habituei-me a correr 8 a 10 kms da porta do quarto à parede, durante uma hora.

 

Do staff do hotel não tenho nenhuma razão de queixa, nem da comida, nem das condições. Talvez não tenha gosto do facto de não mudar os lençóis durante duas semanas, ter que lavar e secar as toalhas e roupas à mão, secando com o secador de cabelo e o facto de o jantar ser servido às 17h30, embora forneçam sempre grandes quantidades e um late-night snack.

 

Cria-se e tem que se criar uma rotina diária, como fazer a cama, duche, ir buscar o pequeno-almoço da parte de fora, fazer café – levei uma máquina e pacotes de café em pó -, trabalhar, falar com amigos e colegas por mensagem e áudios, medição de temperatura, exercício, descanso, Netflix, vídeos de comédia, almoço, vídeochamadas, trabalho, nova medição de temperatura, jantar, estudar, Netflix, snacks, cama, mas não há o “vou dar uma volta” quando se está aborrecido. O meu “vou dar uma volta” era olhar pela janela seguido de tomar um duche quente para relaxar e tomava uma média de cinco a seis duches diários porque descobri que era uma forma terapêutica contra o aborrecimento.

Também mudava de roupa várias vezes, porque me cansava de estar com a mesma roupa todo o dia… No fundo, penso que a mente cria formas de se entreter, formas de combater a monotonia e o isolamento social. Esse vem, mas não logo…Vem de mansinho ao fim duns dias quando se corre para a porta para ver alguém por breves segundos para nos fazer o PCR ou medir a temperatura ou ficar a olhar pela janela para ver estranhos e cuscar as suas conversas. Tudo, uma especié de instinto, que nos guia ao contacto social que não temos naquelas duas semanas. Também dei por mim a participar mais frequentemente nas vídeochamadas com a equipa em Portugal para ver caras de pessoas… Não escondo, sente-se o isolamento social, mas aprendi a vê-lo naquelas duas semanas como uma prova de resistência mental.

Não há muito que possa acrescentar sobre a experiência porque todos os dias eram praticamente iguais e nunca nada de novo acontecia. O que me alegrou não ter que fazer 7 dias adicionais a seguir aos 14 e poder passá-los na única cidade que aceita sete dias de monotorização: Xangai!

Assim que obtive a confirmação que era possível, tentei saber a hora de saída do hotel no último dia e comprei um bilhete de avião para Xangai, mesmo que tenha sido para o aeroporto de Pudong, mais afastado da cidade… Não interessava, o que interessava era acabar a quarentena e mandar passear esses 7 dias e poder andar à solta, em Xangai, uma cidade que adoro. Isso e o hotel! Agora era esperar que acabasse para poder ir à minha vida! E esse dia finalmente chegou, o fim da quarentena!

Dormi bem mas acordei cedo, bem cedo para arrumar o quarto, fazer o resto das malas e preparar-me para fazer o checkout.

No hall do hotel, assinei uns papéis de quarentena, deram-me um certificado – diploma de quarentena? – e tivemos direito a serviço vip para o aeroporto. Vieram buscar-nos, chegámos ao aeroporto, aguardámos no autocarro, fizemos o check-in das malas num balcão especial sem filas, passámos à frente na fila da segurança e depois disso, estava livre, livre para ir para Xangai, não ter que fazer mais sete dias adicionais de quarentena. A sensação de felicidade e de liberdade é indescritível.

Alguns asiáticos acham que a comida dos ocidentais é fast food de pizzas e hambúrgueres, mas o que fiz a seguir antes do voo para Xangai foi reforçar essa ideia: comer um grande hambúrguer no Burger King e uma Coca-Cola! Não me lembrava dum hambúrguer ser tão bom. Na porta de embarque e no voo dei por mim a olhar para a cara das pessoas… Fazia semanas que não via caras na vida real e sentia-me um extraterrestre acabado de aterrar no planeta Terra a olhar curioso para tudo quanto o rodeia.

Chegado a Xangai queria muito ir buscar as malas ao tapete, pedir um carro e ir para o hotel. A vontade de “fugir” era muita. Cheguei, fiz o check-in no hotel, recebi as instruções dos PCRs a fazer naqueles sete dias, tomei um duche e fui sentir o ar fresco e puro da noite. Em Xangai, na zona da Concessão Francesa, um céu limpo, avenidas cheias de plátanos, arquitectura colonial, pequenos cafés, restaurantes, muita luz e muita vida. Nessa noite jantei, bebi cerveja e passeei. Lembro-me de me sentir muito feliz de ter terminado a quarentena. Os próximos 7 dias de montorização foram mais fáceis: dois exames no primeiro e penúltimo dia, medição diária de temperatura, idas ao escritório, passeios de bicicleta pela cidade e jantares com amigos que a pandemia separou.

 

Foi a penúltima etapa da Rota da Seda, da rota do regresso do que antes eram apenas 14 a 16 horas e achávamos extenuante.  A pandemia esticou o tempo como pastilha elástica e as distâncias que antes eram apenas de umas horas, tornaram-se distâncias de vários dias. Passaram a ser 21 dias para regressar a Pequim, onde tenho o trabalho, amigos, rotina, etc. É a nova Rota da Seda que parece ter vindo para ficar, pelo menos durante algum tempo. Uma longa expedição, comparável com a que faziam os portugueses para o Brasil no século passado. Não são passados no mar, mas são passados em parte em ansiedade, em isolamento social e em “fazer tempo” noutra cidade até pode regressar. Mas não é impossível, “faz-se”, é mais uma experiência que fica para contar a filhos e netos, uma experiência pessoal de resistência mental que podemos aproveitar para trabalhar, estudar, descansar do mundo lá fora e das pessoas, pensar na vida… Não é que queira repetir, mas sei que possivelmente terei que comprar uma fichinha e embarcar em mais uma voltinha no carroussel da quarentena…

Rosendo Guimarães da Costa,

Pequim, 21 de Fevereiro de 2021

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