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Richard Zimler entregou-se “À Palavra no Museu”

No “À palavra no Museu Ovar”, esteve esta sexta-feira, o escritor Richard Zimler para um pouco mais de duas horas de agradável troca de palavras, com histórias e vivências em pano de fundo.

Deixando-se conduzir ao sabor das intervenções duma plateia apaixonada e calorosa, Richard expôs e expôs-se de forma despojada. Dum sentido de humor requintado, o escritor mostrou-se avesso a qualquer tipo de preconceito e foi tocante de humildade na forma como falou de si e do seu mundo muito especial, o dos livros.

Confessando-se possuidor duma “personalidade um pouco perversa”, o escritor explica: “Quando vejo que há um assunto que pode querer ser branqueado por alguém, acho isso fascinante.” É em parte este sentido da denúncia que está na origem do seu primeiro romance, “O Último Cabalista de Lisboa” (Quetzal, Abril 1996) – “quis lembrar os dois mil portugueses torturados, massacrados e queimados em fogueiras no Rossio, em 1506” -, prolongando-se pelos seguintes até ao recente “A Sentinela” (Porto Editora, Outubro 2013). Um “escritor alerta”, pois, este que teve de “esperar muitos anos para ter a necessária confiança para começar a escrever”, que viu o seu primeiro romance rejeitado por vinte e quatro editoras americanas e que teve na Editora Quetzal e em Maria da Piedade Ferreira, simultaneamente, a “tábua de salvação” e o lançamento duma carreira de enorme sucesso.

Das suas intervenções, retenho uma série de ideias: “Tento escrever duma forma poética, sempre. A poesia tem para mim uma grande importância, o ritmo das frases, a palavra certa, as emoções que suscita. É algo que a prosa não consegue.” Ou então: “Falar em português é um desafio todos os dias. Usar o conjuntivo é uma aventura.” Ou ainda: “Com alguns pormenores no sítio certo se faz o primeiro capítulo, não são necessários quinhentos. Dez pormenores são suficientes para mostrar credibilidade e ganhar a confiança do leitor.”

Cidadão do mundo, Richard também falou do Porto, uma cidade para onde se mudou “por engano”, confessando com imensa graça: “Levei seis meses a perceber que não estava em Itália”. Referindo-se ao Porto como “uma cidade que adoro”, não deixou de referir que “há muitas cidades no mundo que adoro também. As pessoas, contudo, pensam que eu gosto mais do Porto do que de qualquer uma das outras, o que não é verdade.”

A sessão terminou às 23:59, por “imposição” de Zimler – “depois dessa hora viro abóbora” -, seguindo-se alguns breves momentos mais pessoais com o escritor, nomeadamente através duma mini-sessão de autógrafos. Uma palavra de especial apreço para Carlos Oliveira e para a sua enorme dedicação. O resultado é extraordinariamente positivo, saldando-se nesta décima segunda edição da série “À Palavra no Museu” por uma sala cheia, e passo a citá-lo, “de leitores, gente que gosta de livros, gente que gosta de quem escreve livros.” Obrigado ao Museu de Ovar e ao Carlos Oliveira pela sua disponibilidade e perseverança, obrigado ao Richard Zimler pela verdade e oportunidade das suas palavras. Foi um gosto estar aqui!

Joaquim Margarido (Foto e Texto)

 

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